Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who 9X03 e 4: Under the Lake / Before the Flood

Crítica | Doctor Who 9X03 e 4: Under the Lake / Before the Flood

por Luiz Santiago
117 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

Instalação de mineração subaquática “The Drum”, Caithness, Escócia, 2119. Este é o cenário e o tempo onde o fantástico arco escrito por Toby Whithouse (School Reunion, The Vampires of Venice, The God Complex e o díptico iniciado por A Town Called Mercy) se desenvolve, e mais uma vez traz o Doutor refletindo sobre sua mortalidade; demonstrando surpresa diante dos fatos como se os tivesse experimentando pela primeira vez (falamos sobre isso no podcast de Under the Lake); e, finalmente, expondo a maturidade de sua relação com Clara, que desde The Magician’s Apprentice dava sinais de estar bem à frente daquela que tivemos na 8ª Temporada.

A grande vitória de Under the Lake & Before the Flood é que tudo o que se prometeu para o arco está nele. A base dramática permaneceu intacta nos dois capítulos; todos os personagens foram bem desenvolvidos e permaneceram relevantes do início ao fim da aventura; a trama possuiu uma apropriada resolução; o vilão foi muito bem desenvolvido e ofereceu uma boa ameaça, embora não completamente amedrontadora; e Before the Flood foi finalizado de uma maneira instigante, cíclica, interligando o começo — que quebra a 4ª parede, nos fazendo voltar para The Feast Of Steven, o primeiro episódio da Série Clássica em que isso aconteceu, em meio ao gigantesco arco The Dalek’s Master Plan — com o final, fazendo valer a ideia geral do episódio (e do arco), que era o Paradoxo de Bootstrap ou Paradoxo Ontológico ou Ciclo Casual.

Nós entendemos a ocorrência de Under the Lake como uma “aventura de passagem”. Fica claro para o espectador que o Doutor e Clara viveram uma série de aventuras depois que o Senhor do Tempo levou o pequeno Davros “para casa” em The Witch’s Familiar e, por acaso, acabam chegando à mina “The Drum”, no século XXII. Como disse antes, uma aventura de passagem. Mas que serviu para colocar o Doutor diante de um paradoxo, não o primeiro que ele enfrenta (aventuras como City of Death e The Curse of Fenric na Série Clássica + Father’s Day, Blink, Time CrashThe Big Bang Time & Space na Nova Série + The Time Machine na Big Finish são exemplos óbvios) e não o único que veremos ainda nesta 12ª versão do Doutor, posto que a explicação para a existência de Caecilius em The Fires of Pompeii e John Frobisher em Torchwood: Children of Earth ainda está por vir e com certeza algum tipo de paradoxo temporal estará envolvido nas duas explicações.

O diretor Daniel O’Hara tomou o inteligentíssimo roteiro de Toby Whithouse como caminho para um arco que se mantém unívoco na proposta mas possui duas partes com identidades opostas. Under the Lake é uma aventura quase exclusivamente de horror, mesclando o gênero com os ingredientes básicos e Doctor Who. Já Before the Flood é um episódio puramente sci-fi, no sentido mais teórico possível, colocando o Paradoxo de Bootstrap como coluna central do texto e em torno dela criando uma intervenção do Doutor na malha do tempo, um acontecimento que não poderia acabar de outro jeito senão da forma como começou, ou seja, perguntando para o público e para Clara: “quem, de fato, compôs a 5ª Sinfonia de Beethoven?”.

A concepção e a exibição dos episódios foram igualmente geniais porque a ordem, na verdade, é esta: o episódio 4 acontece antes do episódio 3; mas os eventos do 4 só foram possíveis porque o Doutor os viu acontecendo no 3º episódio. O exemplo com Beethoven é a melhor forma para pensar esta dinâmica e a transformação dela em material para a série foi feita com bastante competência por toda a equipe de produção, que a cada núcleo narrativo desenvolvia o drama corrente e não deixava que o fio da meada (as migalhas para a geração do paradoxo) se desvanecesse.

O elenco tem uma perfeita dinâmica de grupo e todos os atores estão excelentes em seus papeis. O destaque aqui vai para a inclusão que Doctor Who mais uma vez realiza, escalando uma atriz surda, Sophie Leigh Stone (Cass) e oferecendo-lhe um papel respeitoso, importante e bem localizado na história, em uma sincronia perfeita com Zaqi Ismail (Lunn), o tradutor da linguagem de sinais britânica (British Sign Language ou BSL) para o Doutor e o público. E o melhor de tudo é que os momentos em que Lunn está fora de cena, Cass continua falando com Clara e não há legendas, nada disso. Tanto o respeito à linguagem como o tratamento natural para o fato de ser uma língua como qualquer outra mostra o zelo da produção e o seu compromisso humanitário. Doctor Who é mesmo uma série sensacional. Outro destaque é a participação de Corey Taylor, vocalista do Slipknot e da Stone Sour, fã da série, e que aqui faz o rugido do Fisher King, que aliás, possui um design bárbaro. A cena em que ele está de frente para o Doutor, imponente, olhando ameaçador para o “pequeno Time Lord” é de uma beleza estética absurda, um dos melhores takes do episódio.

Inteligente, angustiante, bem escrito, bem dirigido e bem produzido (a variação de locação; o uso da trilha sonora como criação de atmosfera e depois como narrativa; os figurinos e a fotografia que muda de abordagem sensitiva do primeiro para o segundo capítulo bastariam para fazer este arco superior, pelo menos neste aspecto, ao arco que o antecedeu), Under the Lake & Before the Flood trouxe para o público um paradoxo sem ter que explicar seu funcionamento simplesmente com Wibbly wobbly, Timey Wimey. A justificativa se enquadra em uma teoria já existente na ficção científica e não foi necessário rebootar o Universo ou fazer mágica para que as coisas acontecessem. A 9ª Temporada de Doctor Who segue sem falhas até o momento, com dois arcos de tirar o fôlego. Que Rassilon continue abençoando este ano e que isto se mantenha daí para melhor. Posso ouvir um amém?

Em tempo: No Universo da série, Beethoven existiu sim! O Doutor só o utilizou como exemplo para nos ensinar a base do Paradoxo de Bootstrap, mas ele não nega a existência do compositor. Todavia, fica subtendido que a 5ª Sinfonia não foi composta pelo músico, mas sim pelo Doutor. Quer dizer, o Doutor levou para Beethoven a Sinfonia que Beethoven tinha composto, embora Beethoven não a tivesse composto, de modo que o Doutor precisou “juntar as notas” e entregar a Beethoven para que Beethoven tivesse composto e o Doutor tivesse que “juntar as notas” e…

Doctor Who 9X03 e 4: Under the Lake / Before the Flood (Reino Unido, 2015)
Direção: Daniel O’Hara
Roteiro: Toby Whithouse
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Arsher Ali, Morven Christie, Neil Fingleton, Zaqi Ismail, Paul Kaye, Sophie Leigh Stone, Colin McFarlane, Steven Robertson, Peter Serafinowicz, Corey Taylor
Duração: 46 min.

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18 comentários

Luiz Santiago 18 de dezembro de 2018 - 02:18

Tendo a oportunidade, não deixe de conferir os arcos dos ouros Doutores. Valem muito a pena!!!

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Luiz Santiago 17 de dezembro de 2018 - 15:41

HAHAHHAHHHAHHA enganaram direitinho!!!

@disqus_G6nsYD7bDZ:disqus tu já viu a clássica toda ou só a Era do 7º Doutor?

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Vitor Emanuel 17 de dezembro de 2018 - 20:27

Eu vi uns arcos picados do Primeiro,Quarto e Quinto,(Caves of Androzani>>>>>)
infelizmente eu não tive oportunidade de assistir a era do Sétimo..mas como eu sei que é tão bom,a ponto do Sétimo ser meu Doutor favorito? Eu leio muito sobre Doctor Who..e tem vários canais no YouTube que postam cenas aleatórias de todos os Doutores. (Incluindo o canal Oficial de Doctor Who)
Da série clássica,os únicos que realmente acompanhei e conheço bem,é o Primeiro e o Quinto.

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Luiz Santiago 17 de dezembro de 2018 - 02:46

Doctor Who é vida e a gente pode provar!!! HAAHAHAHAHAHAHHAAH

Essa história é simplesmente maravilhosa. Amo demais. Aliás, que temporada deliciosa foi essa 9ª Temporada…

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Vitor Emanuel 17 de dezembro de 2018 - 06:04

Doctor Who me salva da depressão,a única coisa que me alegra é assistir essa série,jogar PS4 e ouvir Música.
E eu gravei na minha mente essa “maldita” frase da Clara: “Run you clever boy and remember”
E eu fico repetindo toda hora,imitando a voz dela..shshs

(Nona Temporada de DW foi escrita e produzida pelo Christopher Nolan,enganaram a gente kkkkkkk)

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Vitor Emanuel 16 de dezembro de 2018 - 23:39

Melhor arco do Nono ano (Na minha opinião,claro) Da era Capaldi,ele só perde pro Arco Season Finale da Oitava Temporada. Aquele lance da chuva de Cybermans reviverem os mortos no túmulo foi sacada de gênio,me pegou no pulo..foi aqui que eu percebi,que o Master/Missy é inteligente (Ou talvez até mais) igual o Doctor.

Po..tem tanta coisa pra falar sobre esses episódios 9×3 e 9×4 que da pra escrever um livro. kkkkkkkk (Eu não sabia dessa participação do Corey Taylor,nem que ele era fã de Doctor Who,bacana..Stone Sour é massa) E sobre essa interação da linguagem de sinais..eu estava observando isso também,e tive a mesma opinião que você! Doctor Who é incrível!! tudo nesse Arco é maravilhoso…uma obra prima!!

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Augusto 14 de outubro de 2015 - 18:54

Gostei dos episódios, mas não tanto quanto você, Under the Lake eu achei muito bom, mas Before the Flood me decepcionou um pouquinho, ele começa bem, mas quando o Fisher King entra, o episódio cai.

No mais, a quebra da quarta parede foi ótima e o Prentis é um personagem muito bom, espero que a raça dele apareça de novo.

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Luiz Santiago 14 de outubro de 2015 - 22:15

Cara, eu não consigo parar de estar animado. Eu gostei TANTO desses quatro episódios que estou com medo de olhar com muito rigor os posteriores e cometer alguma injustiça. Preciso me controlar. Hahahha

Já pensou, aparecer o Doutor ajudando uma raça conquistadora legalzinha a dominar os Tivolian? Eles iam adorar, com certeza! HAUHAUHAUAH

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Augusto 19 de outubro de 2015 - 21:47

Gente, cadê o podcast dessa semana? Já estou com abstinência, hahaha. Mas, sério, essa temporada está muito boa, esses cinco primeiros episódios foram ótimos, estou achando que temos outra temporada para disputar com a quarta o posto de melhor.

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Luiz Santiago 20 de outubro de 2015 - 01:11

@disqus_6btkJ6PNDF:disqus, diz uma antiga lenda druida que um certo ser chamado @guilhermecoral:disqus está enrolando em Bora Bora, junto com o cantor favorito dele, e por isso ele não editou ainda, acredita nisso? Pois é, enquanto a gente trabalha e se mata, CERTAS PESSOAS só no bem-bom. hahahhahahahahahah

O Gui tá no Festival do Rio e não teve tempo de fazer a edição. Mas foi gravado um de emergência. Vai sair atrasado, mas vai sair!

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Kika 13 de outubro de 2015 - 23:54

Luiz, amém pra temporada continuar assim! Eu gostei muito dos dois primeiros episódios e ainda mais desse arco. Já é um dos meus favoritos.
Vc não mencionou, mas além da Cass, eu adorei a O’Donnell tbm. E ela falando da Rose, da Martha e da Amy foi bem legal.

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Luiz Santiago 14 de outubro de 2015 - 22:12

@disqus_Kika:disqus, é verdade, a O’Donnell também é uma baita personagem, realmente com potencial enorme para se tornar companion. E… putz, seria sensacional, viu! Fiquei tão triste quando o Fisher King pegou ela! :'(

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Rilson Joás 13 de outubro de 2015 - 01:33

http://images.radiotimes.com/uploads/images/original/88106.jpg?quality=60&mode=crop&width=620&height=374&404=tv

Grandioso arco. E grandioso inicio pra nona temporada, que teve nesses 4 primeiro episódios, por minha parte, uma nota média de 9,37. Que corre o risco de ser elevada, dependendo da repercussão futura desses acontecimentos.

Pra efeito de comparação, minha temporada com maior média é a quinta com 8,71 de nota, seguida pela sétima + especiais com 8,62.

Os quatro primeiros episódios de temporada mais explosivos até o momento tinham sido os da sexta temporada com 8,87 de média. Under the Lake tomou o posto de melhor episódio 3 de NuWho.

Melhores sequências de episódios:

– The Pandorica Opens/The Big Bang/A Christmas Carol/The Impossible Astronaut/Day of the Moon = 10
– The Name of the Doctor/The Night of the Doctor/The Day of the Doctor/An Adventure in Space and Time/The Time of The Doctor = 9,8
– Human Nature/Family of Blood/Blink/Utopia/The Sound of Drums/Last of the Time Lords = 9,3
– Dark Water/Death in Heaven/Last Christmas/The Magician’s Appentice/The Witch’s Familiar/Under the Lake/Before the Flood = 9,29
– Silence in the Library/Forest of the Dead/Midnight/Turn Left/The Stolen Earth/Journey’s End = 9

Vimos também em Before the Blood o novo brinquedo do Doctor:

https://i.imgur.com/JE0Kvly.jpg

Capaldi está absolutamente sensacional, assim como a Jenna, e até a Tardis teve alguns “diálogos” nesse arco. Espero que The Girl Who Died continue nessa boa leva de episódios.

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Luiz Santiago 13 de outubro de 2015 - 02:31

Cara, cada vez mais a gente se impressiona com os rumos da temporada. E olha que eu tinha gostado da 8ª, mas nada se compara aos surtos de emoção que eu estou tendo com os roteiros e a produção dos episódios dessa 9ª Temporada. E tudo indica que será uma temporada bem interessante de se assistir.

Eita, calma aí! Esse novo brinquedo é o que? Olhando de relance eu ia dizer K9, mas… Ou é o amplificador? hahahahhah

Aliás, quantas referências, hein? Uma verdadeira inundação de coisas pra prestar atenção. Sempre vejo o episódio 2 vezes antes de escrever a crítica e ainda to achando pouco.

Que foto maneira a que você colocou no topo!!!

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Rilson Joás 13 de outubro de 2015 - 03:02

Em Under the Lake, quando o Doctor pergunta pra Clara porque ele não tem um rádio na Tardis, ela responde assim:
https://38.media.tumblr.com/ad5487f0802f41b29e41788a6e215e93/tumblr_nvppaaJYQM1ssuoa0o3_r1_250.gif

Eu tinha visto uma outra foto do Beetwelven com os Sonic Shades, mas não consigo reencontrar, infelizmente.

Pra complementar a BBC liberou a versão Rock do tema, seria ótimo se ficasse como o oficial do Capaldi:

https://www.youtube.com/watch?v=aksxZTPx7PU

Antes que eu me esqueça, acertei a aposta que o 12th iria sair da câmara do Fisher King. Minha próxima aposta: A Maisie Williams é a Jenny.

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Luiz Santiago 13 de outubro de 2015 - 18:04

HAHAHAHAHA, pqp, não tinha me lembrado disso quando vi a foto, mas ri muito quando a Clara disse isso! Quero ver esse novo brinquedinho agora!

Acertou mesmo! Pode revelar, você trabalha na produção da BBC, não é? Estamos de olho, estamos de olho!!!

PAAARAAAAA TUDOOOOOOO!!! Se ela for a Jenny será tão foda e tão sensacional que eu nem sei. Fiquei até meio sem reação agora. haha

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Renato Cordeiro Ferreira 12 de outubro de 2015 - 22:23

Ótima crítica! E fez jus a esta que considero uma das melhores sequências de abertura da série atual. Com certeza me pegou de surpresa (e não duvido que tenha surpreendido outros também) – paradoxos temporais, quebra de 4ª parede, música clássica… Só faltou falar na crítica que tivemos uma abertura muito especial acompanhada pela guitarra do Capaldi. Inclusive, acho que essa faceta “Doctor Rock’n Roll” com óculos-sônicos era o que faltava para fazer os fãs superarem a perda do Matt Smith. A 8ª temporada… não sei, não tinha me convencido ainda. Mas esses 4 últimos episódios conseguiram superar todas as expectativas!

E na próxima semana, hora de descobrir (finalmente) o grande mistério da temporada: qual é o papel da Maise Williams?

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Luiz Santiago 13 de outubro de 2015 - 02:15

Eu estou cada vez mais surpreendido com o que DW vem apresentando nessa 9ª Temporada. Diferente e você, eu tinha gostado muito da 8ª, mas o negócio esse ano é outro nível. Da premiere até este 4º episódio foi um crescente desenvolvimento, algo cada vez mais instigante e muito bem feito. Além das gratas surpresas que estamos tendo. Eu não poderia estar mais feliz com o resultado.

Eu estou MUITO curioso para saber qual o papel da Maisie Williams. Ela parece que vai representar alguém de grande importância, e estará em dois episódio, no 5º e no 6º, embora não sejam histórias-arco. MAS, mesmo não sendo, tem cara de continuação… essa temporada está muito fechadinha…

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