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Crítica | Doctor Who: A Christmas Carol

por Rafael Lima
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Após suceder Russell T. Davies como showrunner de Doctor Who, Steven Moffat trouxe diversas mudanças para a série, ainda que, inicialmente, essas mudanças fossem menos sobre as histórias que eram contadas e mais sobre como o show encarava o Doutor e seu Universo. A grande diferença entre os dois showrunners é que Davies vê Doctor Who sob uma aura mais mitológica e às vezes cínica, enquanto Moffat enxerga a série sob uma luz mais positiva com ares de fábula (especialmente na era do 11º Doutor). Não há episódios melhores para ver essa diferença entre os produtores do que os Especiais de Natal, como prova A Christmas Carol, primeiro especial natalino escrito por Moffat e que daria o tom dos especias seguintes.

Na trama, durante o Natal, o cruzeiro espacial em que Amy e Rory passam a sua lua de mel fica preso em uma tempestade elétrica. A nave deve pousar no planeta abaixo, mas é impossível devido à alta umidade da atmosfera, que cria uma neblina de cristais de gelo. Atendendo ao pedido de socorro dos Pond, o 11º Doutor parte ao encontro do único capaz de salvar a nave, Kazran Sardick, o homem mais rico do planeta e que possui uma máquina capaz de mudar o clima. Mas Kazran não tem interesse em salvar a nave. Para salvar seus amigos e centenas de pessoas, o Doutor precisa fazer com que o velho avarento se torne uma pessoa melhor e compreenda o real espirito do Natal.

O roteiro, inspirado no clássico de Charles Dickens Um Conto de Natal, apresenta uma história que transita com elegância entre a comédia amalucada e a melancolia trágica, sem perder a coesão tonal ou narrativa. Diferente dos especiais que o antecederam — tramas que apesar de se passarem no natal, poderiam perfeitamente se passar em outras datas sem grandes prejuízos –, há algo intrinsecamente natalino em A Christmas Carol. Se os especiais anteriores apontavam os aspectos mercadológicos do feriado e zombavam de seus signos ao torná-los armas alienígenas, agora as questões emocionais associadas à data são postas em primeiro plano e as brincadeiras com os signos surgem dentro de um contexto não de ameaça, mas de esperança, vide o surgimento do Doutor de dentro de uma chaminé ou os momentos envolvendo um trenó voador.

Mas o ponto mais interessante do Especial é como ele lida com a viagem no tempo. Para fazer o velho Sardick descobrir bondade e gentileza em seu coração, o Doutor praticamente reescreve a vida do sujeito ao voltar para a sua infância com a TARDIS e, a partir daí, tornar-se uma figura de grande influência para o jovem Kazran ao visitá-lo todos os natais. É interessante observar como mais uma vez a série brinca com a perspectiva de tempo, já que embora tenha como ponto de partida uma típica trama de deadline, logo essa corrida contra o tempo se torna secundária, já que devido ao dispositivo narrativo da viagem no tempo o Doutor pode tranquilamente passar semanas viajando com Kazran que, no fim das contas, é o grande protagonista deste especial.

Kazran, interpretado de forma soberba por Michael Gambon (que também vive o pai do personagem) é um homem solitário e egoísta que, nas próprias palavras, despreza o Natal e pouco se importa com a família pobre à sua porta ou com as pessoas que irão morrer na queda da nave. Mas atrás dessa frieza, o Doutor percebe uma centelha de humanidade e vulnerabilidade no momento em que o velho se mostra incapaz de bater em um menino, e é essa centelha que o Time Lord irá explorar. O Kazran de Gambon é assombrado por traumas de infância provocados por um pai cruel e violento, e ainda guarda dentro de si traços de sua criança interior, o que se torna evidente quando vemos o velho assistindo aos seus vídeos de infância; se assustando e vibrando com as aventuras do Doutor e do jovem Kazran.

Se Gambon brilha como o velho Kazran, os devidos méritos devem ser dados a Laurence Belcher e Danny Horn, que vivem respectivamente Kazran em sua infância e adolescência, com o primeiro retratando com competência a inocência do pequeno Kazran e seu coração generoso, que ainda tenta resistir a influência do pai, e o segundo fazendo uma ponte adequada entre o jovem Kazran inocente e bondoso e o velho Kazran amargo. As cenas passadas na infância do personagem trazem os trechos mais lúdicos da especial, como o divertido momento em que o Doutor e o menino são atacados por um tubarão voador. São nessas passagens que Abigail, uma jovem congelada pelo pai de Kazran como uma apólice de seguro pelas dívidas de sua família, ganha importância. O roteiro mostra de forma econômica como a amizade pueril entre Kazran e a moça se transforma em paixão á medida em que o rapaz cresce, e é curioso observar como mesmo o humor do roteiro, que vinha adotando uma linha mais ingênua, assume traços mais adultos a partir do momento em que o Kazran criança é substituído por uma versão mais velha.

Abigail acaba sendo ao mesmo tempo o grande trunfo e a grande falha do plano do Doutor, pois ao mesmo tempo em que a moça desperta o melhor que existe em Kazran, a sua perda inevitável arrisca tornar o homem ainda mais amargo. A maneira como o roteiro de Moffat soluciona o arco dramático de Kazran, em uma brilhante subversão da estrutura de Um Conto de Natal adotado pela trama, funciona maravilhosamente bem. Honestamente, me peguei achando a manobra final do Time Lord para fazer Kazran reconectar-se com a sua humanidade um pouco cruel, mesmo depois do monstruoso discurso do velho, justamente por que o especial nos faz ter total empatia por esse personagem ao acompanharmos a sua história, o que é um grande mérito do roteiro.

O grande Michael Gambon simplesmente devora todas as cenas de que participa, seja explorando as facetas mais mesquinhas de Kazran, ou o seu lado mais vulnerável. Quando Kazran é cruel, ele é assustador, e quando mostra suas fragilidades, ele nos emociona de verdade. Mas este especial também é um ótimo episódio para Matt Smith, pois ao mesmo tempo em que o ator pode brincar com a natureza mais infantil e inocente do Décimo Primeiro Doutor, ele também ganha a chance de mostrar o quão duro e emocionalmente brutal o seu Doutor pode ser. A cantora Katherine Jenkins, embora não tenha nenhum desafio em termos de atuação (afinal, foi seu primeiro trabalho em atuação) não compromete e, com a sua beleza etérea e linda voz, concede o ar angelical que Abigail deve ter, embora, devo confessar, Silence is All You Know, entoado por Jenkins no clímax, esteja longe de ser a minha sequência musical preferida em Doctor Who.

A direção de Toby Raynes concede a este especial um ar fortemente cinematográfico e um ritmo dinâmico, crédito que também deve ser dado à excelente montagem (que em certo momento, chega a utilizar um recurso frequente de Sherlock, série também produzida por Moffat, para retratar a linha de raciocínio do Doutor). A direção de arte também é um show à parte, com a cidade onde a história se passa evocando a Londres Vitoriana, mas ainda mantendo um certo visual alienígena devido a fotografia de cores frias usada para retratar a umidade da atmosfera, que de tão densa, permite que peixes nadem no ar, o que é apoiado pelos relativamente competentes efeitos especiais, que reforçam a aura de fantasia do especial.

A Christmas Carol tem tudo o que se poderia pedir de uma aventura natalina, ao contar uma história emocionante de amor e redenção que, apesar de não ser conquistada sem dor ou lágrimas, ainda encontra um final feliz — com direito a um “milagre de Natal” para salvar o dia. É o meu especial de Natal preferido da série até o momento, tendo envelhecido muito bem. É divertido e poético, possuindo tanto momentos ternos quanto de pungência emocional. Pode ficar um pouco piegas no final? Talvez. Mas se existe um dia que nos autoriza a ser um pouco piegas, esse dia é o Natal.

Doctor Who: A Christmas Carol (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2010)
Direção: Toby Raynes
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Karen Gillan, Arthur Darvill, Michael Gambon, Katherine Jenkins, Laurence Belcher, Danny Horn, Leo Bill, Pooky Quesnel, Micah Balfour, Steve North, Tim Plester, Nick Malinowski, Laura Rogers.
Duração: 61 min.

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