Crítica | Doctor Who: A Cidade Sem Nome, de Michael Scott

estrelas 4,5

Equipe: 2º Doutor e Jamie
Espaço-tempo: Londres, 1968 / Cidade sem Nome (confins do Universo), tempo indeterminado.

O projeto da editora Puffin e da BBC, de fazer uma homenagem literária aos 50 anos de Doctor Who lançando mensalmente um e-book sobre um dos Doutores em aventuras inéditas, não começou em tão grande estilo. A partida foi dada por Eoin Colfer, que entregou um conto bastante irregular, começando o projeto com o pé esquerdo, mesmo que sua obra não fosse de todo ruim. Mas eis que Michael Scott, o escritor convidado para escrever a segunda aventura da série, trouxe-nos uma incrível trama com o 2º Doutor ao lado de Jamie McCrimmon, abordando temáticas místicas e muita, muita tensão.

Michael Scott, o escritor responsável por essa aventura, é irlandês, nascido em Dublin, em 1959. Sua literatura é pontuada por indicações mitológicas, mágicas e folclóricas, não só da Irlanda, mas de outros lugares da Europa e do mundo. Sua obra de maior sucesso é a saga Os Segredos do Immortal Nicholas Flamel, ainda não terminada e que já tem projeto para uma adaptação cinematográfica. Com base nessa estrutura própria do mundo sobrenatural e fantástico, Scott (um whovian assumido) resolveu trazer para a história do 2º Doutor nada menos que uma influência de peso:  H. P. Lovecraft.

A Cidade Sem Nome começa em Londres, em 1968. Jamie saiu pela cidade tentando encontrar alguns elementos químicos para a TARDIS, que estava quebrada, e acaba entrando em uma confusão no meio do caminho. Ele termina ganhando um livro como agradecimento e leva-o para a nave, onde num dado momento da conversa, entrega-o ao Doutor. O que vem em seguida é uma das mais fantásticas possessões ou transformações ou capturas pelas quais a TARDIS já passou.

O livro que Jamie ganhou foi o Necronomicon enfeitiçado (recebido de um tal de Professor Thascalos, que na verdade era o Mestre), que se aproveitou da fragilidade da nave e a levou até o limite do Universo, num lugar muito longe da Via Láctea, a Cidade sem Nome, lugar onde sobreviviam os mais antigos Arcontes (ou Archons), os Devoradores de Mundos.

É impossível descrever o melhor ponto da história, porque há um interessante equilíbrio entre a pequena estadia na Terra, toda a aventura durante a viagem até o desconhecido, os eventos fenomenais na Cidade sem Nome e a volta para casa, numa interação entre o Doutor e Jamie que denota um carinho e uma amizade genuínos, especialmente após tantos apuros passados em presença dos Arcontes e dos macacos de vidro negro.

A tensão da narrativa recebe pontos exatos de clímax e o autor ainda faz um delicioso exercício de narrativas paralelas, quando Jamie e o Doutor estão em lugares diferentes do planeta dos Arcontes. Ainda podemos acrescentar o peso das informações dadas pelas criaturas que dançam a Música das Esferas. O discurso feito ao Doutor, de como os Time Lords roubaram as sementes de crescimento da TARDIS dos Arcontes e depois realizaram uma guerra contra eles é realmente chocante e, num determinado momento, nos deparamos com uma encruzilhada moral, quando as criaturas exemplificam para o Doutor o que é ser jogado num lugar distante e ser condenado a viver de ódio e repugnância, isolado de todo o Universo. Esse discurso é bastante forte na própria mitologia de Doctor Who, porque esse é o dilema do próprio Doutor (exceto a repugnância), com a diferença que ele tem uma máquina do tempo e raramente está só.

A Cidade Sem Nome é uma história sensacional, um fôlego místico e aterrador para todos os whovians tremerem de medo e se divertirem. Esse sim vale a pena a leitura.

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Michael Scott fala sobre o projeto.

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LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.