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Crítica | Doctor Who: Apollo 23, de Justin Richards

por Rafael Lima
99 views (a partir de agosto de 2020)

Equipe: 11º Doutor, Amy
Espaço: Londres, Texas, Lua.
Tempo: 2010

De 1961 a 1972, a NASA lançou uma série de missões espaciais conhecidas como “Projeto Apollo”, que visava levar um módulo espacial tripulado para a Lua, dando a vantagem para os Estados Unidos na Corrida Espacial que acontecia contra a União Soviética. O sucesso foi atingido em 20 de Julho de 1969, quando a missão Apollo 11 aterrissou em solo lunar, com três astronautas americanos á bordo. Astronautas da NASA teriam voltado à Lua mais cinco vezes, a última sendo em 13 de Dezembro de 1972, durante a missão Apollo 17.

Há quem acredite que tudo isso é uma mentira inventada pelos americanos para vencer a Corrida Espacial e que o homem nunca esteve na Lua de fato. Mas há outra corrente conspiracionista que não só crê que Neil Armstrong pisou mesmo na Lua em 1969, como também acredita que a NASA teria realizado uma série de outras missões não registradas em solo lunar após a Apollo 17, com intuitos nefastos. Para Doctor Who que já teve um bom número de histórias situadas em nosso satélite natural, a segunda teoria parece bem mais interessante, e é uma das bases para Apollo 23, que marca a primeira aparição literária do Décimo Primeiro Doutor.

Apollo 23 tem início pouco tempo após os eventos do episódio Victory Of The Daleks, com a chegada do Décimo Primeiro Doutor e Amy à Londres contemporânea, no que deveria ser somente uma tarde tranquila de compras para a jovem. Mas há um mistério em andamento, pois um astronauta aparece sem maiores explicações no meio de um Shopping Center e um homem que caminhava em um parque cai morto por asfixia, coberto de poeira lunar. De forma rápida e eficiente, a trama envolve a equipe da TARDIS e logo, Amy e o Doutor estão na superfície Lua, tendo rastreado a origem da anomalia até a Base Diana, o complexo espacial militar onde se passa a maior parte da história. A narrativa continua a avançar com rapidez, sem muitos respiros, mas nunca se torna atropelada, com os acontecimentos se desenrolando de forma orgânica.

Desenvolvendo-se como um frenético thriller de suspense, o livro de Justin Richards não esconde a sua influência da Era do Terceiro Doutor, não só colocando a Base Diana como possível protótipo da colônia penal lunar vista em Frontier In Space, como também botando o Time Lord pra lidar novamente com experiências que visam corrigir criminosos através de técnicas de lavagem cerebral, assim como em The Mind Of Evil. Tais aspectos da trama não são inseridos somente pelo valor da nostalgia, usando a situação para fazer alguns comentários sociais pertinentes, mesmo que breves sobre os maus tratos de prisioneiros e o valor dos direitos humanos.

Richards trabalha a tensão em sua história de forma crescente, já á partir da situação inicial encontrada por Amy e pelo Doutor na base lunar, que indicam a presença de um sabotador a bordo. Tal tensão ganha contornos paranoicos quando surgem indícios de que há uma força alienígena agindo dentro da base e que qualquer um pode estar possuído por um extraterrestre, numa inspiração clara da obra ao clássico Vampiros de Almas. Apesar de possuir alguns momentos mais sombrios, Apollo 23 não chega a ser um livro pesado, já que o bom humor está constantemente presente na narrativa, encaixando a história de forma adequada no período das aventuras iniciais do Doutor de Matt Smith.

A agilidade da narrativa poderia sugerir que os personagens são tratados de forma rasa, mas isso não ocorre. Os tripulantes da Base Diana e os militares americanos com quem o Doutor acaba unindo forças quando acaba indo parar no Texas não são inesquecíveis, mas escapam das meras caricaturas, conseguindo conquistar a preocupação do leitor. Não conhecemos muito do passado ou dos conflitos internos dos personagens, mas o autor trabalha tais conflitos na ação, dentro do fluxo da narrativa, o que funciona muito bem, e colabora para o clima paranoico que toma conta da obra em certo ponto.

O livro consegue transpor o Décimo Primeiro Doutor para as páginas de forma bastante precisa. O jeito meio atrapalhado, as falas rápidas entrecortadas por observações irônicas e a alegria jovial desta encarnação são fielmente retratadas, especialmente em algumas passagens cômicas, como um trecho ainda no começo da história, quando o Doutor é multado por “estacionar” a TARDIS em uma vaga menor no estacionamento do Shopping, e a hilária videoconferência atrapalhada por delays que o Time Lord tem com Amy, acompanhado por um grupo de militares. Os aspectos mais sombrios da persona deste Doutor que se escondem por trás da aparência brincalhona também são captados com eficiência, especialmente nos momentos mais tensos do livro.

Amy já demora um pouco mais para ser reconhecida no romance. Por cerca de metade da obra, Richards parece escrever a companion de forma bem genérica, passando a incômoda sensação de que aquela poderia ser qualquer personagem, e não Amy Pond especificamente. É só depois de quase a metade do livro, depois que Amy é deixada sozinha na Base Diana, quando o Doutor fica preso na Terra, é que começamos a identificar a garota vivida por Karen Gillian na televisão. Sendo um pouco condescendente com o autor, o livro foi publicado somente três semanas após a estreia de Matt Smith e Karen Gillian na série, e ele teve apenas os roteiros dos três primeiros episódios, e um corte preliminar de The Eleventh Hour para basear o seu trabalho. Então, tendo em vista as condições, pode-se dizer que ele fez um bom trabalho na caracterização da dupla protagonista, especialmente do Doutor.

Capturando perfeitamente o espírito da era em que está inserido, o primeiro livro estrelado pelo Décimo Primeiro Doutor equilibra de forma muito competente ação, suspense e bom humor. O tom conspiratório da trama e os personagens bem trabalhados garantem a diversão, as referências à Era UNIT colocam um sorriso no rosto dos Whovians de longa data, e ainda sobra espaço para algumas reflexões bem pertinentes sobre direitos humanos, sem soar panfletário. Um começo com o pé Direito para o Doutor de Matt Smith no selo BBC New Series Adventures.

Doctor Who: Apollo 23 (Apollo 23) — Reino Unido, 22 de Abril de 2010.
BBC New Series Adventures
Autor: Justin Richards
Publicação: BBC Books
248 Páginas.

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9 comentários

G. Hoffmann 31 de janeiro de 2018 - 17:31

Muito boa crítica, @disqus_wPGYD1xKX4:disqus , me deixou muito interessado em ler esse livro! Do 11º Doutor até hoje eu li somente alguns dos “Contos de Trenzalore”, e já achei um barato como em prosa se percebe alguns trejeitos do Matt Smith que, na atuação dele, meio que eu dava por dado. E eu adoro essa época da 5ª temporada, com ele e Amy bem “calouros”, acho uma era fantástica!

Responder
Rafael Lima 1 de fevereiro de 2018 - 00:47

Muito obrigado @gibahoffmann:disqus

Do 11º Doutor, eu só li esse livro mesmo. Mas tive a mesma impressão que você teve, de que o Doutor do Matt Smith é um Doutor que em prosa tem seus trejeitos facilmente identificáveis, talvez por serem mais evidentes. Bom saber que isso não é uma exclusividade do Matt Smith.

Também gosto muito da 5ª temporada, e das primeiras viagens do Doutor e da Amy, ainda estabelecendo a sua dinâmica, e o clima mais leve que estas aventuras iniciais traziam.

Grande Abraço!

Responder
Rafael Lima 1 de fevereiro de 2018 - 00:47

Muito obrigado @gibahoffmann:disqus

Do 11º Doutor, eu só li esse livro mesmo. Mas tive a mesma impressão que você teve, de que o Doutor do Matt Smith é um Doutor que em prosa tem seus trejeitos facilmente identificáveis, talvez por serem mais evidentes. Bom saber que isso não é uma exclusividade do Matt Smith.

Também gosto muito da 5ª temporada, e das primeiras viagens do Doutor e da Amy, ainda estabelecendo a sua dinâmica, e o clima mais leve que estas aventuras iniciais traziam.

Grande Abraço!

Responder
Luiz Santiago 28 de janeiro de 2018 - 19:11

Eu fiquei rindo feito besta só de ler essa videoconferência com delays… HAHAHAHHAHAHHAAHHAH

Responder
Luiz Santiago 28 de janeiro de 2018 - 19:11

Eu fiquei rindo feito besta só de ler essa videoconferência com delays… HAHAHAHHAHAHHAAHHAH

Responder
Rafael Lima 29 de janeiro de 2018 - 15:04

Essa parte é mesmo hilária, e casou perfeitamente com a persona meio atrapalhada do Décimo Primeiro Doutor.

Responder
Luiz Santiago 29 de janeiro de 2018 - 15:11

Eu fiquei lendo isso e imaginado a voz e as trapalhadas dele…

Responder
Luiz Santiago 29 de janeiro de 2018 - 15:11

Eu fiquei lendo isso e imaginado a voz e as trapalhadas dele…

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Rafael Lima 29 de janeiro de 2018 - 15:04

Essa parte é mesmo hilária, e casou perfeitamente com a persona meio atrapalhada do Décimo Primeiro Doutor.

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