Crítica | Doctor Who: As Areias do Tempo, de Justin Richards

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Equipe: 5º Doutor, Nyssa, Tegan.
Espaço: Londres. Egito.
Tempo: 2000 A.C, 1896, 1996.

Atualmente, roteiros que giram em torno de paradoxos temporais, ou Timey Wimey, são comuns em Doctor Who. Tais histórias, entretanto, popularizaram-se na Nova Série (especialmente nas tramas de Steven Moffat), pois na Série Clássica, arcos que usavam esse conceito eram mais raros. Como muitos elementos do revival, os limites do conceito foram testados no Universo Expandido, com o livro As Areias do Tempo sendo um exemplo dessa influência nos plots Timey Wimey do show pós 2005.

Na trama, a TARDIS é tirada de seu curso no vórtice do tempo, materializando-se no Museu Britânico em 1896. O 5º Doutor e suas companions logo descobrem que a causa do desvio foi um antigo sarcófago pertencente aos Osirianos, raça alienígena que inspirou a mitologia egípcia. Mas quando Nyssa é sequestrada, o 5º Doutor e Tegan entram em uma jornada para resgatá-la; uma jornada que os levará do Egito antigo até a Londres da década de 90, enquanto o destino da última Trakenite torna-se ligado a uma antiga profecia que ameaça toda a vida na Terra.

Escrito por Justin Richards As Areias do Tempo é o tipo de história onde as cadeias de causa e efeito não ocorrem em ordem cronológica para os personagens; um tipo de trama difícil de trabalhar em um roteiro audiovisual, mas ainda mais complexa na literatura. Em um livro, diferente da TV, o leitor tem mais tempo para perceber possíveis incoerências ou antecipações dramáticas que podem ocorrer em uma narrativa “fora de ordem”. Felizmente, Richards estrutura a obra de forma exemplar, revelando somente o suficiente do futuro para instigar tanto o leitor quanto os personagens, usando esse conhecimento do futuro para criar situações de drama e tensão.

As problemáticas sobre a viagem no tempo, tão caras à série, são trabalhadas pelo autor na dinâmica entre a dupla principal, o Doutor e Tegan. No momento em que o Time Lord e a australiana começam a encontrar desconhecidos que parecem já conhecê-los há algum tempo, percebendo assim que estão vivendo eventos fora de ordem, surge a pergunta se eles não poderiam evitar o sequestro de Nyssa antes que ele aconteça. A força dos paradoxos e a possibilidade ou não de se alterar o tempo é constantemente discutida em Doctor Who, com visões muitas vezes antagônicas expostas ao longo da história da série. O autor coloca a sua visão sobre o assunto de forma muito interessante ao longo da obra, exemplificada mesmo em um cenário micro, em que Tegan tenta mudar o pedido de café da manhã que ela sabia previamente que tomaria em um hotel.

Mas nem só de Timey Winey vive As Areias do Tempo. Quem gosta de histórias de múmia e mitos egípcios deve se deliciar com este livro. Valendo-se da mitologia dos Osirianos criada no arco The Pyramids of Mars, o livro utiliza com habilidade os clichês de histórias do gênero, como tumbas egípcias repletas de armadilha, escavações, visitas noturnas a museus desertos e por ai vai. A obra é bem estruturada e possui um ótimo ritmo. Os acontecimentos se sucedem de forma orgânica e ágil, mas sem nunca parecerem atropelados, até porque temos ótimos momentos de respiro que servem para desenvolver os personagens da história e discutir os conflitos apresentados.

Embora Nyssa seja a personagem que mova a trama, ela passa muito tempo fora de ação, com Richards focando na dinâmica entre o 5º Doutor e Tegan. O autor utiliza a natureza reservada e empática do Doutor de Peter Davison para ocultar os dilemas do personagem, que embora tema pela Trakenite, tem que pensar em uma escala macro. O Time Lord precisa considerar não só o resgate de Nyssa, mas a integridade da linha do tempo e a ameaça universal representada pela ressurreição da Osiriana Nephthys; o que o força a jogar um verdadeiro jogo de xadrez pelo tempo, posição incomum para um Doutor que sempre se mostrou mais reativo na TV.

Se o Quinto Doutor representa o lado racional da dupla principal, cabe a Tegan desempenhar o lado passional, papel que sempre coube à companion na série, o que a faz ser amada por alguns e odiada por muitos outros. A prioridade de Tegan é salvar Nyssa, o que a leva a confrontar o Doutor cada vez que o Time Lord parece colocar este objetivo em segundo plano. O autor sabe utilizar muito bem o temperamento forte característico da companion para gerar tanto situações cômicas, como bons momentos de embate com outros personagens. Ao mesmo tempo, Richards entende que os melhores momentos da personagem na série foram aqueles em que ela mostrava a vulnerabilidade por trás da postura marrenta, e apresenta isso em um belo momento em que Tegan faz uma bela declaração de amizade a uma Nyssa incapaz de ouvir.

Os personagens originais da obra também são muito carismáticos, a exemplo de Atkins, o mordomo britânico que acidentalmente acaba sendo envolvido na aventura e se torna praticamente um segundo companion, na ausência de Nyssa. O personagem tem um arco simples, mas eficaz na redescoberta de uma vida que vai além de seus deveres, ao mesmo tempo em que é usado para brincar com os clichês em torno da figura do mordomo britânico — vide a sua reação blasé ao ver o interior da TARDIS. O vilão Sadam Rassul, que está tentando trazer Nephthys de volta à vida, mostra-se um bom antagonista, embora eu sinta que ele poderia ter sido um personagem mais profundo se Richards revelasse as suas verdadeiras motivações antes do 3º ato da trama.

O livro possui muitas virtudes, mas comete deslizes que o impedem de atingir o seu máximo potencial, como a única, porém importante antecipação dramática da narrativa que é a participação de Ann Talbot (a sósia de Nyssa do arco Black Orchid) no plano para salvar a Trakenite. A presença de Ann no livro é revelada logo nas primeiras páginas, onde o autor lida com a armadilha que criou para si mesmo ao fazer da aristocrata parte da resolução da trama, já que suas escolhas eram gerar a antecipação pela visita do Doutor a Ann em seu casamento, ou torna-la um Deus ex Machina ao fazê-la surgir de surpresa no final de uma história em que ela não se encaixa, o que poderia ter sido bem pior. Apesar dessa escorregada, As Areias do Tempo ainda é um ótimo livro da série, trazendo uma aventura divertida que atravessa milênios e continentes; desenvolve muito bem os seus personagens e ainda traz múmias e paradoxos temporais. Justin Richards entregou uma obra que não só reverencia o passado de Doctor Who, como também parece ter antecipado o futuro que o programa seguiria.

Doctor Who: As Areias do Tempo (The Sands of Time)- Reino Unido. 16 de Maio de 1996.
Virgin Missing Adventures # 22
Autor: Justin Richards
Publicação Original: Virgin Books
256 páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.