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Crítica | Doctor Who: As Escalas da Injustiça, de Gary Russell

por Rafael Lima
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Equipe: 3º Doutor, Liz (+ UNIT, Brigadeiro Lethbridge Stewart, Sargento Benton, Capitão Mike Yates).
Era UNIT: Ano 3.
Espaço: Inglaterra.
Tempo: Anos 1970.

Liz Shaw, interpretada por Caroline John, foi introduzida na temporada de estreia do 3º Doutor, como um tipo diferente de companion para o protagonista. Não só ela era uma mulher adulta, diferente do tipo mais jovem que costumava viajar com o Time Lord (Barbara, companion do 1º Doutor sendo a exceção), como também atuava em pé de igualdade com o Doutor, se colocando mais como uma parceira e menos como uma aprendiz que precisa ser guiada.

Entretanto, embora tenha se encaixado perfeitamente na atmosfera mais sombria e calcada na realidade proposta pela 7ª Temporada, Liz não funcionou muito bem com o público, sendo valorizada somente em retrospecto. Na temporada seguinte, os produtores decidiram trocar Liz por uma companion que, segundo a visão deles, fosse mais identificável para o público jovem. Assim, Liz nunca ganhou um arco de despedida, com o público sendo rapidamente informado em Terror of the Autons que a cientista deixou a UNIT para voltar a trabalhar na Universidade de Cambridge. O autor Gary Russell quis corrigir este vácuo ao dar uma história de despedida apropriada para a personagem, resultando no romance As Escalas da Injustiça.

Na trama, quando um menino desaparece em uma cidade litorânea britânica e uma policial é encontrada em estado catatônico, desenhando pinturas rupestres na mesma região, o Doutor passa a desconfiar que os Silurianos estejam por trás desses incidentes. Temendo que o trágico desfecho ocorrido em seu primeiro encontro com as criaturas se repita, o Time Lord resolve conduzir as investigações sozinho, sem informar a UNIT. Paralelamente, Liz é abordada por um informante misterioso, que alerta sobre uma conspiração envolvendo a organização C19 e a tecnologia alienígena recolhida pela UNIT em suas missões.

As Escalas da Injustiça funciona como um momento de renovação da família UNIT, com a partida de Liz e a ascensão de Mike Yates a capitão, montando o cenário que encontramos na 8ª Temporada. Russell é competente na construção da jornada dramática de seus personagens, dando a todos um tempo para brilhar, mesmo a alguns que são geralmente relegados a segundo plano, como é o caso de Benton. Infelizmente, o romance tem problemas de estrutura que o impedem de alçar voos mais altos.

O primeiro ato dedica boa parte de seu tempo a explorar o funcionamento burocrático da UNIT, desde as interações casuais dos funcionários até as reuniões do Brigadeiro com outras agências e com membros do governo para conseguir fundos. A abordagem até é interessante por mostrar o cotidiano da UNIT, mas torna o início da obra arrastado. No entanto o maior problema do livro é a divisão do enredo em dois segmentos: a ameaça da nova tribo de Silurianos e a conspiração da C19, dois plots que só se cruzam no 3º ato, de forma forçada. Russell parece ter tido duas ideias para o romance, resolvendo utilizar as duas, mas por possuírem naturezas distintas elas se sabotam, não deixando que o leitor se concentre em qualquer uma delas.

A trama envolvendo os Silurianos funciona tanto como uma sequência para Doctor Who and the Silurians, como um prequel de Warriors of the Deep, ao incluir elementos daquele arco. Como a maioria das histórias envolvendo os Silurianos depois de sua estreia, o desenvolvimento do plot é bem previsível, embora guarde algumas surpresas, e o desfecho acabe sendo um pouco mais otimista do que normalmente se espera.

Já a trama envolvendo a conspiração da C19 tem seus bons momentos, colocando Liz em um cenário envolvendo informantes misteriosos, matadores de aluguel, e jogos políticos. Temos também a introdução do vilão Martyn Townsend, o maquiavélico líder da C19, que é chamado aqui apenas de “O Homem Pálido”, e que voltaria a aparecer em outros livros da série, como Negócios Incomuns (que é uma sequência direta de As Escalas da Injustiça). Mas embora contenha boas ideias, os trechos envolvendo a conspiração não vão tão longe quanto poderiam, faltando uma construção mais bem cuidada da atmosfera paranoica proposta.

Mas se Russell tem problemas em estruturar a trama, ele acerta em cheio no desenvolvimento dos personagens. O Brigadeiro possui uma jornada dramática tocante ao ser confrontado com o fim iminente de seu casamento, devido aos segredos e ausências que a liderança da UNIT lhe impõem. Russell entende o personagem (algo que ele voltaria a demonstrar em Negócios Incomuns), transmitindo toda a angústia de Lethbridge Stewart por sentir que falhou como marido, e que está falhando como um pai para a sua filha Kate, sem com isso trair a natureza reservada do Brigadeiro.

O principal chamariz do romance, entretanto, é a despedida de Liz Shaw, o que torna a construção da partida da cientista um ponto vital para o sucesso ou fracasso do livro. Felizmente, Russell consegue explorar Liz, seus dilemas, e sua relação com a UNIT e o Doutor como a série nunca conseguiu fazer. Embora passe por dilemas parecidos com os do Brigadeiro no que diz respeito ao dano que o trabalho na UNIT causa a sua “vida normal”, o conflito de Liz vai muito mais de encontro ao desejo de realização pessoal. A cientista não só sabe que, na UNIT, ela sempre estaria na sombra do Doutor, como também sabe que qualquer descoberta que faça que tenha o potencial de ajudar a humanidade, nunca será divulgada, devido a política de sigilo da organização.

Por fim, Russell também faz uma leve crítica a forma como a relação da companion e do Doutor foi pouco explorada na série (o que eu não discordo), ao colocar a cientista e o Time Lord percebendo o quão pouco sabem um do outro, mesmo após todo o tempo em que trabalharam juntos. A cena que fecha o livro, onde tanto Liz quanto o Terceiro Doutor mostram um ao outro a “pessoa por trás do cientista” é muito bonita, mostrando dois iguais intelectuais que tem um grande respeito um pelo outro, percebendo que chegou a hora de seus caminhos se separarem.

As Escalas da Injustiça é um livro que peca pela falta de um foco narrativo, não permitindo que o leitor consiga realmente se envolver com a história contada. Mas se a obra é problemática em articular seu enredo, ela acerta em cheio naquilo que mais parece lhe interessar, que é lançar um olhar para os dramas e conflitos mais íntimos da formação original da família UNIT, pois não é a narrativa e sim as questões pessoais que pavimentam a decisão de Liz de deixar a organização. Assim sendo, mesmo ficando bem longe de estar entre os livros mais bem escritos de Doctor Who, o romance de Gary Russell finalmente dá a Liz Shaw a despedida que a companion merecia ter tido na TV, desenvolvendo a personagem e sua relação com o Doutor de forma delicada e certeira.

Doctor Who: As Escalas da Injustiça (The Scales of Injustice)- Reino Unido: 18 de Julho de 1996.
Virgin Missing Adventures #24.
Autor: Gary Russell.
Editora: Virgin Books
262 páginas

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