Crítica | Doctor Who: As Escalas da Injustiça, de Gary Russell

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Equipe: 3º Doutor, Liz (+ UNIT, Brigadeiro Lethbridge Stewart, Sargento Benton, Capitão Mike Yates).
Era UNIT: Ano 3.
Espaço: Inglaterra.
Tempo: Anos 1970.

Liz Shaw, interpretada por Caroline John, foi introduzida na temporada de estreia do 3º Doutor, como um tipo diferente de companion para o protagonista. Não só ela era uma mulher adulta, diferente do tipo mais jovem que costumava viajar com o Time Lord (Barbara, companion do 1º Doutor sendo a exceção), como também atuava em pé de igualdade com o Doutor, se colocando mais como uma parceira e menos como uma aprendiz que precisa ser guiada.

Entretanto, embora tenha se encaixado perfeitamente na atmosfera mais sombria e calcada na realidade proposta pela 7ª Temporada, Liz não funcionou muito bem com o público, sendo valorizada somente em retrospecto. Na temporada seguinte, os produtores decidiram trocar Liz por uma companion que, segundo a visão deles, fosse mais identificável para o público jovem. Assim, Liz nunca ganhou um arco de despedida, com o público sendo rapidamente informado em Terror of the Autons que a cientista deixou a UNIT para voltar a trabalhar na Universidade de Cambridge. O autor Gary Russell quis corrigir este vácuo ao dar uma história de despedida apropriada para a personagem, resultando no romance As Escalas da Injustiça.

Na trama, quando um menino desaparece em uma cidade litorânea britânica e uma policial é encontrada em estado catatônico, desenhando pinturas rupestres na mesma região, o Doutor passa a desconfiar que os Silurianos estejam por trás desses incidentes. Temendo que o trágico desfecho ocorrido em seu primeiro encontro com as criaturas se repita, o Time Lord resolve conduzir as investigações sozinho, sem informar a UNIT. Paralelamente, Liz é abordada por um informante misterioso, que alerta sobre uma conspiração envolvendo a organização C19 e a tecnologia alienígena recolhida pela UNIT em suas missões.

As Escalas da Injustiça funciona como um momento de renovação da família UNIT, com a partida de Liz e a ascensão de Mike Yates a capitão, montando o cenário que encontramos na 8ª Temporada. Russell é competente na construção da jornada dramática de seus personagens, dando a todos um tempo para brilhar, mesmo a alguns que são geralmente relegados a segundo plano, como é o caso de Benton. Infelizmente, o romance tem problemas de estrutura que o impedem de alçar voos mais altos.

O primeiro ato dedica boa parte de seu tempo a explorar o funcionamento burocrático da UNIT, desde as interações casuais dos funcionários até as reuniões do Brigadeiro com outras agências e com membros do governo para conseguir fundos. A abordagem até é interessante por mostrar o cotidiano da UNIT, mas torna o início da obra arrastado. No entanto o maior problema do livro é a divisão do enredo em dois segmentos: a ameaça da nova tribo de Silurianos e a conspiração da C19, dois plots que só se cruzam no 3º ato, de forma forçada. Russell parece ter tido duas ideias para o romance, resolvendo utilizar as duas, mas por possuírem naturezas distintas elas se sabotam, não deixando que o leitor se concentre em qualquer uma delas.

A trama envolvendo os Silurianos funciona tanto como uma sequência para Doctor Who and the Silurians, como um prequel de Warriors of the Deep, ao incluir elementos daquele arco. Como a maioria das histórias envolvendo os Silurianos depois de sua estreia, o desenvolvimento do plot é bem previsível, embora guarde algumas surpresas, e o desfecho acabe sendo um pouco mais otimista do que normalmente se espera.

Já a trama envolvendo a conspiração da C19 tem seus bons momentos, colocando Liz em um cenário envolvendo informantes misteriosos, matadores de aluguel, e jogos políticos. Temos também a introdução do vilão Martyn Townsend, o maquiavélico líder da C19, que é chamado aqui apenas de “O Homem Pálido”, e que voltaria a aparecer em outros livros da série, como Negócios Incomuns (que é uma sequência direta de As Escalas da Injustiça). Mas embora contenha boas ideias, os trechos envolvendo a conspiração não vão tão longe quanto poderiam, faltando uma construção mais bem cuidada da atmosfera paranoica proposta.

Mas se Russell tem problemas em estruturar a trama, ele acerta em cheio no desenvolvimento dos personagens. O Brigadeiro possui uma jornada dramática tocante ao ser confrontado com o fim iminente de seu casamento, devido aos segredos e ausências que a liderança da UNIT lhe impõem. Russell entende o personagem (algo que ele voltaria a demonstrar em Negócios Incomuns), transmitindo toda a angústia de Lethbridge Stewart por sentir que falhou como marido, e que está falhando como um pai para a sua filha Kate, sem com isso trair a natureza reservada do Brigadeiro.

O principal chamariz do romance, entretanto, é a despedida de Liz Shaw, o que torna a construção da partida da cientista um ponto vital para o sucesso ou fracasso do livro. Felizmente, Russell consegue explorar Liz, seus dilemas, e sua relação com a UNIT e o Doutor como a série nunca conseguiu fazer. Embora passe por dilemas parecidos com os do Brigadeiro no que diz respeito ao dano que o trabalho na UNIT causa a sua “vida normal”, o conflito de Liz vai muito mais de encontro ao desejo de realização pessoal. A cientista não só sabe que, na UNIT, ela sempre estaria na sombra do Doutor, como também sabe que qualquer descoberta que faça que tenha o potencial de ajudar a humanidade, nunca será divulgada, devido a política de sigilo da organização.

Por fim, Russell também faz uma leve crítica a forma como a relação da companion e do Doutor foi pouco explorada na série (o que eu não discordo), ao colocar a cientista e o Time Lord percebendo o quão pouco sabem um do outro, mesmo após todo o tempo em que trabalharam juntos. A cena que fecha o livro, onde tanto Liz quanto o Terceiro Doutor mostram um ao outro a “pessoa por trás do cientista” é muito bonita, mostrando dois iguais intelectuais que tem um grande respeito um pelo outro, percebendo que chegou a hora de seus caminhos se separarem.

As Escalas da Injustiça é um livro que peca pela falta de um foco narrativo, não permitindo que o leitor consiga realmente se envolver com a história contada. Mas se a obra é problemática em articular seu enredo, ela acerta em cheio naquilo que mais parece lhe interessar, que é lançar um olhar para os dramas e conflitos mais íntimos da formação original da família UNIT, pois não é a narrativa e sim as questões pessoais que pavimentam a decisão de Liz de deixar a organização. Assim sendo, mesmo ficando bem longe de estar entre os livros mais bem escritos de Doctor Who, o romance de Gary Russell finalmente dá a Liz Shaw a despedida que a companion merecia ter tido na TV, desenvolvendo a personagem e sua relação com o Doutor de forma delicada e certeira.

Doctor Who: As Escalas da Injustiça (The Scales of Injustice)- Reino Unido: 18 de Julho de 1996.
Virgin Missing Adventures #24.
Autor: Gary Russell.
Editora: Virgin Books
262 páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.