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Crítica | Doctor Who: Bunker Soldiers, de Martin Day

Um drama histórico terrivelmente contemporâneo.

por Rafael Lima
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Equipe: 1º Doutor, Steven, Dodo
Espaço: Kiev
Tempo: 1240

Um livro que trata de temas históricos pode se tornar contemporâneo dependendo de quando se lê. Terminei Bunker Soldiers, de Martin Day, em fevereiro de 2022; um livro da linha Past Doctor Adventures, situado durante a invasão mongol a Kiev, então território da Rússia, em 1240. O romance trata em parte da resiliência do povo de Kiev diante da invasão; o que tornou a obra uma leitura intrigante, já que enquanto eu a finalizava, a Rússia iniciou uma ofensiva contra a região. Ainda que as duas invasões tenham ocorrido em momentos históricos distintos, ler a obra enquanto a História parecia se repetir, me causou grande impacto. Na trama, situada entre The Gunfighters e The Savages, a TARDIS chega à Kiev de 1240, ameaçada por uma invasão mongol. O 1º Doutor, Steven, e Dodo são capturados, e não podendo explicar como entraram na cidade, são proibidos pelo governador de partirem ou de se aproximarem da TARDIS, pois este acredita que eles conhecem segredos que podem salvar Kiev. Agora, o Doutor e seus companions se veem novamente diante de um trágico ponto fixo da história, pois o Time Lord sabe que Kiev irá cair diante dos Mongóis, resultando em milhares de mortes. Para piorar a situação, uma antiga força é libertada das catacumbas de Kiev, fazendo com que a cidade enfrente ameaças dentro e fora de seus muros.

Bunker Soldiers traz um tipo de trama característica da era do 1º Doutor, onde os protagonistas se veem diante de uma tragédia histórica e devem lidar com a sua inevitabilidade. Tal cenário poderia soar derivativo, já que o Doutor e Steven passaram por conflito parecido na TV, no arco The Massacre Of St. Bartholomew’s Eve, onde a política de não interferência do Time Lord quase resultou no fim da amizade dos dois. Martin Day faz do livro uma evolução daquele conflito, onde a dupla agora tem a chance de entender as perspectivas um do outro. Parte da força do conflito central da obra se deve à forma eficiente como o escritor realiza a construção de mundo. A Kiev descrita aqui surge como uma sociedade vibrante, que se recusa a parar, mesmo diante da iminência da destruição, para o espanto dos companions, estranhamento esse que permite ao autor fazer uma breve, mas interessante reflexão sobre como a sociedade é muito mais sensível à ideia da morte do que era séculos atrás. Além disso, o autor emprega à narrativa uma instigante aura de intriga palaciana que é tradicional nas aventuras históricas do 1º Doutor, ao trazer elementos do governo de Kiev conspirando contra o governador para lidar com a crise da forma como acham melhor, e ainda tirar proveito político da situação.

O livro constrói os mongóis como uma ameaça aterradora, de modo que os invasores são vistos quase como criaturas sobrenaturais pelo povo de Kiev. O interessante é que quando o Doutor lidera uma comitiva até o exército mongol em busca de uma rendição pacífica, encontra um povo que está longe de ser os selvagens animalescos temidos por Kiev, mas que propositalmente cultivam essa reputação, pois o medo que ela gera em seus adversários faz com que parte da batalha já esteja ganha antes mesmo dos mongóis aparecerem. De forma acertada, o autor opta por não retratar os mongóis como vilões tradicionais, e sim como uma força antagônica inevitável, que é justamente um dos temas da narrativa.

Martin Day é hábil em captar a natureza desta tripulação da TARDIS, especialmente a relação entre o Doutor e Steven. Como colocado acima, o autor propõe um ponto de equilíbrio nas visões do Time Lord e do astronauta sobre a questão de Kiev. Neste equilíbrio, Steven aceita que eles não têm o direito de provocar grandes mudanças na História, (por mais horrível que ela seja), mas o Doutor também entende que não pode ser apático a essas tragédias se ele tem a chance de salvar o máximo de vidas possíveis dentro do que as leis do tempo permitem, em um desenvolvimento que seria replicado alguns anos depois na Nova Série. Quanto a Dodo Chaplet, ela acaba sendo surpreendentemente bem utilizada, tendo em vista que foi uma companheira que nunca encontrou uma identidade própria na televisão. Estranhamente, na literatura da série, diferentes autores tentaram desenvolver a garota através de traumas envolvendo agressões sexuais, vide Salvação, e Quem Matou Kennedy. Assim, é bom ver a jovem sendo trabalhada de forma simples e sem grandes traumas, em um arco que não tenta nenhuma grande reinvenção da personagem, mas que consegue torná-la simpática e útil através de uma subtrama simples envolvendo a sua amizade com a filha de um dos conselheiros do governador.

Apesar de ter um evento real como principal catalisador de seus dramas, Bunker Soldiers não pode ser considerado um histórico puro, pois existe uma trama sci-fi envolvendo a criatura alienígena aprisionada nas catacumbas de Kiev. Esse aspecto da narrativa não é ruim, gerando até algumas passagens bem angustiantes, como a que vê Steven perdido em meio a escuridão das catacumbas com um monstro sanguinário á solta. Entretanto, não há como negar que os aspectos históricos do romance são muito mais interessantes, e acabam não se comunicando bem tematicamente com o plot Sci-Fi, deixando o leitor com a impressão de que ele poderia ter sido dispensado.

Dentro de toda a sua trama envolvendo dilemas de viagem no tempo e monstros alienígenas, Bunker Soldiers conta uma história sobre o horror da guerra, e como os mais vulneráveis são os que mais sofrem com ela. Mas o livro mostra o quão resiliente as pessoas podem ser para encontrar a esperança diante do caos da guerra, terminando com uma nota positiva que não desmerece a jornada emocional que a antecede. Na ficção, na invasão ocorrida há quase oitocentos anos onde hoje é a Ucrânia, essa esperança perseverou, e torço que ela volte a perseverar na realidade de 2022 no mesmo lugar.

Doctor Who: Bunker Soldiers – Reino Unido, 5 de Fevereiro de 2001
BBC Past Doctor Adventures  #38
Autor: Martin Day
Publicação: BBC Books
230 Páginas

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