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Crítica | Doctor Who: Caixa Azul, de Kate Orman

por Rafael Lima
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Equipe: 6º Doutor, Peri
Espaço: Washington
Tempo: 1985

A cultura Hacker traz um mundo que é ao mesmo tempo próximo e distante de nós. Afinal, grande parte de nossas vidas está atrelada ao mundo virtual, mas a maioria de nós consegue apenas arranhar a superfície, tendo somente uma vaga ideia da vastidão das redes. Ainda que situe a sua trama nos anos 80, em um mundo ainda essencialmente analógico, Caixa Azul (não a caixa azul do Doutor) de Kate Orman traz a noção dos membros da cultura Hacker como indivíduos que desbravam o desconhecido em busca de aventura e conhecimento, associando tais figuras com o próprio Doutor, que nada mais é do que um explorador em busca de aventura e conhecimento.

Na trama, o Sexto Doutor e Peri estão na Washington de 1985, quando ele é contatado pelos Eridani, alienígenas que tentam recuperar as partes de um computador tecno orgânico que se perdeu na Terra. Sabendo das consequências catastróficas que podem ocorrer caso as máquinas sejam ativadas, o Time Lord concorda em ajudar os Eridani a recuperar as peças. Enquanto Sarah Swan, uma proprietária de uma empresa de tecnologia e Hacker perigosa, tenta obter as peças da tecnologia Eridani, o 6º Doutor e Peri recrutam um jovem Hacker e um jornalista especializado em tecnologia para parar os planos de Swan. 

Caixa Azul é um Techno Thriller de espionagem virtual, articulado com os elementos Sci-Fi típicos da série, que desenvolve a sua trama focando-se mais nos duelos virtuais do que na ação propriamente dita. A ação ainda existe, mas boa parte dos eventos principais da obra gira em torno de duelos Hackers, ou do Doutor e seus aliados instalando escutas em linhas telefônicas ou programas espiões em computadores, o que poderia sugerir uma narrativa monótona para o livro. Felizmente, Orman percebe isso, e entrega um romance guiado muito mais pelos personagens do que pela trama, o que é alimentado pela natureza Road Trip do livro, com os protagonistas viajando pelo estado de Washington em um furgão e pernoitando em hotéis. Mas apesar do foco nos personagens, a trama ainda é bem cuidada e traz conceitos fascinantes (e assustadores) de boa ficção científica através do Savant, que é o grande McGuffin aqui.

A obra é estruturada como um livro de relato, onde a narração em primeira pessoa de Chick Peters descreve as experiências “reais” do jornalista, chegando a alertar o leitor sobre o fato dos nomes fornecidos serem fictícios para proteger os envolvidos (Peri é rebatizada como Peri Smith). É um estilo que pode trazer uma proposta narrativa um pouco diferente para os livros da série, entretanto, Kate Orman nunca se compromete realmente com o formato. O narrador muitas vezes descreve situações em que ele não estava presente, e sequer teria como saber que ocorreram. Da mesma maneira, Peters parece quase um telepata ao poder descrever com detalhes sentimentos e pensamentos de certos personagens. Tais escolhas, portanto, nunca permitem que o leitor compre completamente o formato de relato verídico proposto pela autora, o que atrapalha a imersão.

O romance traz ótimos personagens originais, como Chick Peters, o jornalista que ao narrar boa parte do livro, traz o ponto de vista do “homem comum”, mas não se limita a tal arquétipo. Além disso, Chick protagoniza uma grande reviravolta, que debate um assunto que hoje está em voga, mas que praticamente não era discutido em 2003, ano de publicação do livro. Já Bob Salmon, o Hacker que auxilia o Doutor, é usado para jogar uma luz mais positiva sobre a cultura Hacker, que não necessariamente é formada por bandidos querendo espionar a sua vida e esvaziar as suas contas (mas que ainda envolve invasão). Se Bob traz o lado fascinante da cultura Hacker, Sarah Swan traz o aspecto perigoso e invasivo dos desbravadores virtuais. Swam é uma vilã que desperta o ódio do leitor, como uma boa vilã deve fazer, mas que ainda é muito humanizada. 

Algo que sempre me incomodou na dinâmica da dupla na TV é como ela se aproximava de uma relação tóxica, sem que Peri nunca cogitasse deixar a TARDIS. Caixa Azul dá à Companion essa opção ao situar a trama tanto no tempo natal dela, quanto em seu país, fazendo-a considerar deixar o Doutor após a crise dos Eridani. Ao dar tal conflito para Peri, Kate Orman analisa a dinâmica da dupla e a forma como a moça encara as suas viagens ao lado do Doutor. O romance captura bem a Companion, deixando claro que embora ela não seja tão destemida quanto outras Companions, Peri está disposta a superar seus medos por lealdade ao seu amigo; lealdade que só existe pela jovem saber que o sentimento é recíproco.

O 6º Doutor já é trabalhado de forma mais genérica, faltando uma caracterização mais forte e específica desta encarnação. Começamos pela escolha da autora de retratar este Doutor sem o seu característico traje multicolorido, substituído aqui por um terno preto. Ame ou odeie, o casaco multicolorido diz muito sobre a personalidade deste Doutor, uma representação visual da famigerada frase do personagem Eu sou o Doutor, quer você goste ou não. Portanto, não parece condizer com o 6º acatar o pedido de Peri de manter o traje colorido no armário, especialmente com o 6º Doutor da 22ª Temporada. E se elogiei a compreensão da autora sobre a relação deste time da TARDIS, é um pouco decepcionante que o livro opte por fazer os personagens discutirem sobre essa dinâmica ao invés de mostrá-la de fato. 

Caixa Azul é um romance com muitas qualidades, que opta por ser movido mais por seus personagens do que pela trama, mas que ainda consegue manter a sua narrativa interessante e coesa, trazendo uma boa exploração dos primórdios da cultura Hacker. Apesar de pecar por não se manter fiel ao formato narrativo que se propôs a seguir e apresentar uma visão genérica de seu protagonista, o livro de Kate Orman ainda é uma leitura envolvente com personagens cativantes e uma ambientação bem construída.

Doctor Who: Caixa Azul (Blue Box)- Reino Unido, 03 de Maio de 2003
Autora: Kate Orman
BBC Past Doctor Adventures #59
Publicação: BBC Books
231 Páginas

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