Crítica | Doctor Who: Choque no Sistema, de Justin Richards

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Equipe: 4º Doutor, Sarah Jane, Harry.
Espaço: Londres.
Tempo: 1998.

O Tecnho Thriller é um subgênero problemático de se trabalhar, devido a rapidez com que pode se tornar datado. Afinal, embora possa trazer muitos elementos de ficção científica, uma das principais características do subgênero é utilizar a tecnologia contemporânea à produção da obra como um dos fios condutores da narrativa, e aí mora o perigo do subgênero. Claro, temos mestres do Techno Thriller como Tom Clancy e Michael Crichton, que criaram histórias que mesmo sendo claramente um produto típico de seu tempo, escapavam da armadilha de soarem datadas. Infelizmente, embora tenha ótimos momentos, é essa armadilha do subgênero que se torna o grande calcanhar de Aquiles de Choque no Sistema, primeiro romance de Justin Richards para as Missing Adventures.

Na trama, situada entre a 13ª e 14ª Temporadas da série, o 4º Doutor e Sarah Jane Smith se materializam na Londres de 1998, em pleno advento da internet e da era digital. Enquanto isso, a diretora do MI5 é assassinada, uma organização terrorista assusta a capital britânica; e a empresa de softwares, I2, parece estar ligada a todos esses eventos. Quando o Doutor e Sarah são acidentalmente envolvidos nos acontecimentos depois que um homem fugindo por sua vida coloca um CD-ROM no bolso do Time Lord, a dupla precisa se unir ao MI5 e a seu antigo companheiro Harry Sullivan para enfrentar a conspiração que oculta um ataque alienígena pelas vias digitais.

Como dito no começo do texto, Justin Richards constrói Choque no Sistema como um típico Techno thriller, trazendo a tecnologia contemporânea — no caso, a informática — para a obra, e o boom da era digital que veio com a internet, para o centro da narrativa (ainda que o romance se passe três anos após a sua data de publicação). Percebe-se que o autor fez um trabalho de pesquisa acurado, dando ao leitor uma descrição detalhada do funcionamento desta tecnologia, sem com isso parecer um manual técnico. Mas a tecnologia digital evoluiu de forma tão rápida, que o livro acaba denunciando a sua idade pela forma com que os personagens (mesmo os vilões alienígenas, os Voracianos) parecem impressionados com ela. Há quem possa argumentar que tal reclamação não faz sentido, pois qualquer obra de ficção que aborde a tecnologia digital tende a ficar datada, mas a forma como Richards exalta o quão avançada ela é acaba sendo o que torna o romance datado, tirando o leitor levemente da inserção.

Apesar deste calcanhar de Aquiles, Choque no Sistema está longe de ser um livro ruim da série. Richards entende os personagens do time da TARDIS e sua dinâmica, assim como é hábil em apresentar uma versão madura de Harry Sullivan, que se mantém fiel ao personagem que conhecemos da televisão. Infelizmente nem os regulares e nem os coadjuvantes ganham grande aprofundamento, mas são funcionais dentro da narrativa. Vilões da história, os Voracianos já ganham uma abordagem mais interessante ao serem retratados como vilões corporativistas, sendo que todas as suas ações são realizadas deste ponto de vista. Esta característica da espécie funciona não só como uma crítica ao corporativismo selvagem, como também gera um embate ideológico com o Doutor em torno do velho duelo lógica contra instinto, uma questão recorrente em Doctor Who, mas que é tratada de forma relativamente distinta aqui, especialmente por algumas reviravoltas ligadas diretamente ao tal embate.

O autor estrutura o livro em duas metades. A primeira, mais investigativa, mostrando as articulações da conspiração Voraciana e as investigações do Doutor e do MI5 para desvendá-la. A segunda, ocorrida lá pela metade da obra, é quase toda voltada para uma ocupação terrorista com reféns em um prédio, em uma premissa que me remeteu ao clássico oitentista Duro de Matar, com o Quarto Doutor no lugar de John McClane. A primeira parte tem seus pontos de interesse. É curioso, por exemplo, observar a nova perspectiva que Sarah Jane passa a ter sobre a viagem no tempo, já que ao viajar para um futuro relativamente próximo ao dela, não só vemos o espanto da jornalista diante da evolução dos computadores (os Desktops e o conceito da internet a deixam impressionada), mas pelo próprio fato de encontrar um Harry vinte anos mais velho, sendo que ela o havia visto jovem somente alguns meses atrás. A estrutura de comando e o modo como os Voracianos pensam são igualmente bem apresentados. Por outro lado, não se pode negar que essa primeira metade da obra apresenta certos problemas de ritmo, tornando a história um pouco arrastada.

A metade final do livro já é muito mais dinâmica, ao focar completamente no cerco do MI5 ao prédio tomado pelos vilões. A tensão e as sequências de ação dessas passagens são muito bem escritas por Richards, algumas realmente inventivas, como aquelas onde todos os itens do prédio que são de alguma forma, eletrônicos, caem sob o controle dos vilões. Assim, temos o Doutor correndo pelo prédio, tendo que escapar de armadilhas mortais feitas com elementos triviais, como computadores que superaquecem e explodem, portas automáticas que tentam prensar a vítima, sprinklers que despejam água fervente e até mesmo impressoras que disparam papéis afiados; trechos carregados de tensão mas que também divertem pelo absurdo.

Choque No Sistema é um livro que tem seus bons momentos, mas que não consegue galgar degraus muito altos entre os livros de Doctor Who. Isso não só devido aos tão citados elementos datados, mas também pela falta de personagens originais mais carismáticos, por apresentar certa falta de ritmo em sua primeira metade, além de uma exploração rasa em torno do encontro do Quarto Doutor e Sarah Jane, com um Harry do futuro. A obra tem bons vilões na figura dos Voracianos e cresce bastante em sua segunda metade. Apesar de ser um livro relativamente divertido, torna-se um trabalho esquecível de Justin Richards, que faria trabalhos muito melhores para Doctor Who em outras ocasiões.

Doctor Who: Choque no Sistema (System Shock)- Reino Unido. 15 de Junho de 1995.
Virgin Missing Adventures #11
Autor: Justin Richards
Publicação original: Virgin Books.
293 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.