Crítica | Doctor Who: Coração Derretido, de Una McCormack

Equipe: 13ª Doutora, Graham, Yaz, Ryan
Espaço: Planeta Adamantine
Tempo: Futuro Distante

Apesar dos problemas que eu tenho com as duas primeiras temporadas da Era da 13ª Doutora na TV, achei The Good Doctorestreia da fase da personagem à frente da Linha New Series Adventures espetacular, e o melhor romance da linha que li até então. O livro de Juno Dawson não só foi fiel à proposta e aos personagens que a série apresentou em sua 11ª Temporada, como trabalhou a Doutora e seus  Companions  de forma muito mais dinâmica e funcional do que o show. Assim, foi com expectativa que comecei a ler Coração Derretido,  segundo livro estrelado pela 13ª Doutora, curioso para saber se Una McCormack conseguiria manter o  nível do livro anterior

A trama situada entre os episódios It Takes You Away e The Battle Of Ranskoor Av Kolos, começa com a chegada da TARDIS ao planeta Adamantine, um mundo aparentemente inabitado e sem grandes atrativos. Mas quando a TARDIS detecta que o planeta possui um núcleo oco, a Doutora e seus companheiros resolvem explorar as entranhas de Adamantine. O que o time da TARDIS encontra é um maravilhoso mundo subterrâneo, habitado por uma fascinante civilização de seres feitos de minerais. Mas esta civilização está ameaçada por devastadores tremores e vazamentos de águas ferventes da superfície, que ameaçam destruir tudo o que conhecem. Separada da TARDIS, a Doutora deve liderar uma expedição à superfície de Adamantine para tentar salvar os habitantes do planeta, enquanto Yaz e Graham precisam convencer o governo local de que a ameaça é real.

Com Coração Derretido, McCormack entrega uma aventura que lembra muito as histórias iniciais da Série Clássica, onde o time da TARDIS é colocado mais como um grupo de exploradores que se envolvem em uma crise por força das circunstâncias e menos como uma linha de defesa contra ameaças alienígenas. Chama a atenção, por exemplo, a opção da autora por evitar estabelecer personagens propriamente vilanescos em sua história. Temos sim figuras antagônicas, representadas principalmente por Esmeralda, a governante de Adamantine, cuja postura negacionista, que prefere encobrir incidentes da população para “evitar o pânico” do que encarar o fato de que o seu mundo está literalmente desabando põe em risco toda a sua civilização. Mas nem Esmeralda e nem os seus aliados são pintados por McCormack como vilões, e sim como pessoas mal orientadas.

Por focar mais no aspecto de exploração da série, o romance investe fortemente na construção do mundo de Adamantine, e tem aí os seus maiores méritos. McCormack nos dá uma descrição  rica das paisagens subterrâneas do planeta, com suas florestas de pedras preciosas, rios de lava e o teto cravejado de rubis e diamantes que criam um artificial “céu estrelado”. A autora também povoa esse ambiente com um ecossistema fascinante, habitado por animais como os ratos de rubi (que conseguem roer minerais) e os tubarões de lava. Os próprios Adamantinos também são muito interessantes, com seu visual petrificado (mas surpreendentemente expressivo, segundo Yaz), apresentando uma civilização e um ambiente verdadeiramente alienígena, que a série de TV vem devendo há algum tempo. Há quem possa questionar a escolha da escritora em nomear quase todos os adamantinos com nomes de minerais como Esmeralda, Basalto, Quartzo, Onix e assim por diante, mas combina com a atmosfera fantástica e quase fantasiosa construída pela obra.

Após o 1º ato apresentar o cenário e o conflito central, o time da TARDIS é dividido em duplas, formando assim dois núcleos narrativos. O primeiro (e mais interessante) é formado pela Doutora, Ryan e a jovem Ash, uma Diamantina cujo pai cientista desapareceu há anos após viajar para provar as suas teorias de que existia um mundo além das luzes do céu acima deles. Este núcleo funciona melhor não só por explorar a maior força do livro, que é a sua boa construção de mundo, mas por trazer uma dinâmica mais leve e fluída entre os personagens. Sendo basicamente uma inversão do clássico Viagem Ao Centro da Terra, ao apresentar os exploradores subindo em direção à uma superfície desconhecida, este núcleo parece estar em constante movimento pela mudança de cenário e pela bela jornada de amadurecimento que Ash tem ao lado de Ryan e da Doutora.

Já o núcleo que acompanha Yaz e Graham na cidade dos Diamantinos não funciona tão bem, apresentando uma série de antecipações dramáticas que tornam os eventos deste segmento do enredo previsível, vide o personagem apontado repetidas vezes como não confiável, que sem grandes surpresas, trai Yaz e Graham em determinado ponto. Além dessa previsibilidade, a trama em torno deste núcleo parece um pouco repetitiva a partir de certo ponto, por basicamente mostrar os Companions na velha dinâmica de captura, fuga e correria que parece mais esticada do que precisava ser. Claro, aqui estão as principais críticas da obra ao negacionismo científico vindo de certos governos, que se negam a ver que o mundo desaba ao seu redor (algo extremamente relevante nos tempos em que vivemos), mas isso não isenta estes trechos da narrativa de parecerem andar em círculos.

McCormack captura relativamente bem o time da TARDIS. A 13ª Doutora surge nas páginas com a alegria e energia que Jodie Whitaker concedeu à personagem na TV, bastando observar o quão empolgada a Time Lady parece estar pelo crescimento do conhecimento científico de Ash.  A autora até mesmo reproduz de maneira orgânica os característicos desvios de foco que esta encarnação da Time Lady tem durante as discussões. Graham e Ryan também estão fiéis ao que conhecemos dos dois Companions, e Ryan em especial tem um momento de brilho durante o 3º ato, quando suas habilidades como gamer são evocadas. 

Já Yaz, justamente a companheira a quem a obra mais se dedica (e não Ryan, como a capa pode dar a entender), acaba sendo a que gera estranhamento ao leitor. Percebe-se que a romancista dá destaque para a policial ao assumir o seu ponto de vista em todas as passagens onde ela está presente. Não é que a personagem esteja em desacordo com o que é visto no programa, mas a sua caracterização não faz muito para desenvolver a Companion, que ela passa mais tempo pensando no que a Doutora faria ou não do que o que Yazmin Khan faria, o que resulta em uma exposição bem chata. O fato da garota também não possuir um arco dramático claro ao longo da obra nos deixa indagando por que a autora lhe dedicou tanta atenção.

Entre os personagens originais da obra, o grande destaque acaba indo para Ash, que tem o arco dramático mais bem desenvolvido pelo romance ao superar o seu medo e seguir os passos do pai na exploração científica. Os outros personagens originais até funcionam dentro de suas propostas, ainda que o comportamento de alguns varie de acordo com as necessidades da narrativa, com a autora até tentando justificar algum inconstante personagem ao escrever que ele é simplesmente complicado. Mas o grande problema de Coração Derretido é que McCormack não consegue conferir urgência à sua narrativa, o que é um problema quando estamos falando de uma história envolvendo o fim iminente de uma civilização. As críticas presentes no texto da autora não só ao já citado negacionismo científico, mas também à exploração dos grandes conglomerados sem considerar os impactos ambientais (crítica que surge em uma reviravolta interessante do 3º ato) são contundentes, mas falta certa força dramática para que tais críticas pudessem ser ainda mais profundas.

Coração Derretido resulta em uma leitura rápida, que conversa muito bem com o período da série que retrata, ao trabalhar com as temáticas ecológicas que são especialmente caras para a era da 13ª Doutora. O livro tem um ritmo competente e faz um ótimo trabalho de construção de mundo com o Planeta Adamantine. É um bom livro da série, mas a conveniência narrativa na construção de alguns personagens, a falta de um aprofundamento maior para os Companions que em tese estão em destaque, como Yaz, e a falta de urgência da narrativa em uma trama que exige isso torna o romance menos fascinante do que o mundo que ele constrói.

Doctor Who: Coração Derretido (Molten Heart) – Reino Unido, 08 de Novembro de 2018
Autora: Una McCormack
BBC New Series Adventures #64
Publicação: BBC Books
136 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.