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Crítica | Doctor Who: Flux – 13X03: Once, Upon Time

No começo, a gente não entende nada. No final, parece que está no começo.

por Luiz Santiago
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Depois de um episódio de estreia excelente (The Halloween Apocalypse) e de um segundo episódio medíocre, onde metade de todo o roteiro não faz sentido para o enredo como unidade dramática em si mesmo (War of the Sontarans), a 13ª Temporada de Doctor Who terminou cravando a sua face histriônica em Once, Upon Time (a brincadeirinha com o tempo já começa no título), deixando-nos na metade da temporada com uma quantidade quase inacreditável de eventos acontecendo ao tempo tempo e (essa é a parte que enfraquece a construção narrativa aqui), investindo esse tsunami de informações em uma montagem não-linear, escolha de organização de um texto que exige no mínimo uma boa base de informações, algo que Flux tem apenas parcialmente.

Se o segundo episódio da temporada peca por inutilizar metade de todas as suas ações (perdendo, inclusive, a oportunidade de trabalhar compassadamente o que vimos aos borbotões aqui), este terceiro é progressivamente minado pela histeria de construção de Universo que Chris Chibnall vem acalentando desde Spyfall – Part One, a despeito de resultados aplaudíveis em alguns capítulos ao longo desse processo. O resultado é uma temporada que começa com um objetivo claro, mas que se bifurca ad infinitum numa história que tem todos os ingredientes de uma brilhante aventura em Doctor Who, mas que inseridas inadvertidamente num único capítulo, faz com que certos personagens, com que a cogitação de certas teorias e o próprio andamento da história percam muito de seu impacto sobre o espectador.

Por um lado, temos boas informações sobre a vida passada de Vinder e conhecemos o seu interesse amoroso, Bel (Thaddea Graham), que com um bichinho virtual do amor, sai pela Galáxia procurando o parceiro. Tanto a busca quanto o propósito e as reflexões da personagens são excelentes, e cada espaço visitado por ela é um verdadeiro deleite para os olhos. Aliás, como eu disse também no episódio passado e já havia citado no primeiro, DW tem tido uma boa sequência de capítulos com direção de fotografia e um desenho de produção praticamente impecáveis. O orçamento e o cuidado na construção dos planetas e de como essa “luta temporal” acontece tem seu poder visual em todos os elementos surpresas, com destaque para Ruth — oficialmente creditada nesse episódio como “Doutora Fugitiva” — e também a personagem creditada como Awsok (Barbara Flynn), que tem ingredientes para ser um monte de personalidade dentro da série: uma versão da Doutora, do Mestre, de Omega, do Guardião Branco, de Rassilon… a lista é grande.

O que nós sabemos é que esse estilo de plot barroco é a essência de Chibnall como escritor. E como acontece em qualquer apreciação de arte, há quem goste e há quem não goste desse estilo. Nada de novo sob o Sol até aí. Ocorre que questões de estilo tornam-se um problema quando não fazem bem à narrativa, de forma isolada. E para ser sincero, mesmo que fizesse, tenho sérias dúvidas de que a unidade de Flux seja perfeita quando for vista em sua totalidade. Se já estamos no meio da temporada lidando com um episódio que tem tanta coisa minando o impacto narrativo das coisas verdadeiramente importantes, a tendência de esperar por algo bom vai diminuindo cada vez mais. Milagres podem acontecer, é verdade. Mas meu otimismo se dissipou com os Sontarans inúteis. Por enquanto, sigo entre o cético e o que se preparara psicologicamente para o pior. Assim, o baque não terá tantas consequências.

A relação entre a direção de arte, trilha sonora, figurino e fotografia desse episódio com aquilo que o texto nos conta parece não se conectar bem. A multiplicidade de tempos e espaços do enredo poderia dar um episódio só para si, com tudo bem explorado. Aqui, com tantas outras coisas acontecendo e novas perguntas sendo colocadas em pauta, o sentido geral do episódio vai se tornando cada vez menor. Me lembrou o famoso artigo de André Bazin, Evolução da Linguagem Cinematográfica, quando ele faz a costura entre imagem e roteiro, apontando para os muitos perigos e buracos dramáticos (faltas, perdas, diminuição de força) que um texto e uma direção podem acabar cavando. Dizia o Mestre Bazin: “Assim, entre o roteiro propriamente dito, objeto último do relato, e a imagem bruta, se intercala uma etapa suplementar, um ‘transformador’ estético. O sentido não está na imagem, ele é a sombra projetada pela montagem, no plano da consciência do espectador. Resumindo: tanto pelo conteúdo plástico da imagem quanto pelos recursos da montagem, o cinema dispõe de todo um arsenal de procedimentos para impor aos espectadores sua interpretação do acontecimento representado“.

Não adianta dispor de um altíssimo orçamento ou ter uma “assinatura épica e vibrante” como estilo, se essas duas coisas não se aliam para contar uma história com seus dois caminhos básicos de lógica textual. Do lado positivo da coisa, tudo o que tem a ver com o Templo, com a Doutora e com a busca por sua identidade parece-me interessante até o último frame. Lamento o fato de toda essa história não conseguir a atenção que merece, sendo entregue de maneira quase displicente por ter que ceder espaço para mais meia dúzia de eventos com peso similar.

É como diz uma das linhas de análise da Teoria da Recepção que nos ronda desde os anos 1960: se você quer fazer uma massa pensar e verdadeiramente analisar algo, ou você dá uma quantidade média e simples ou… pequena e complexa de algo para que o público digira bem essas informações. Se você quer confundir, distrair, encobrir problemas ou tornar superlativo algo que de superlativo só tem a superfície, seja o mais exagerado possível na quantidade de conteúdo solto depositado sobre o público. E infelizmente é isso que tivemos no presente episódio. Como já disse anteriormente: o estilo barroco de Chris Chibnall já funcionou algumas vezes em seu run, com o exagero servindo bem ao episódio. Aqui, porém, ele só serviu mesmo para nos fazer cara de interrogação a cada 5 minutos. Com três episódios para o fim da temporada, resta saber como ele irá trabalhar o tempo para dar conta de tudo isso que, como um néscio, jogou de maneira despropositada sobre nós. Deus salve o Whoniverse.

Doctor Who: Flux – 13X03: Once, Upon Time (Reino Unido, 14 de novembro de 2021)
Direção: Azhur Saleem
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: Jodie Whittaker, Mandip Gill, John Bishop, Jacob Anderson, Nadia Albina, Nicholas Briggs, Craige Els, Nigel Lambert, Steve Oram, Craig Parkinson, Bhavnisha Parmar, Rochenda Sandall, Sam Spruell
Duração: 50 min.

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