Crítica | Doctor Who: Jogadores, de Terrance Dicks

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Equipe: 6º Doutor, Peri (Participação do 2º Doutor em flashback)
Espaço: Africa do Sul, França, Londres.
Tempo: 1899, 1915, 1936

A presença de figuras históricas em Doctor Who sempre foi um elemento curioso da série. A maioria das tramas envolvendo celebridades históricas mostram o Doutor conhecendo esta personalidades; mas algumas delas sugerem uma relação prévia entre o Time Lord e estas figuras. Victory Of The Daleks, episódio da 5ª Temporada da Nova Série, apresentava Winston Churchill, o mais famoso Primeiro Ministro Britânico, tendo uma longa amizade com o Doutor, estando inclusive ciente de suas outras encarnações. Anos antes do episódio ir ao ar, o livro Jogadores mostrava o início desta parceria. Na trama, situada entre The Mark of The Rani e The Two Doctors, o Sexto Doutor, tentando levar Peri para uma noite de elegância londrina em 1899, desembarca no meio de uma batalha da guerra dos Boêres, na Africa do Sul. No caos que se segue, a dupla salva a vida de um jovem e impetuoso correspondente estrangeiro de um misterioso assassino cujos esforços pareciam concentrados no jornalista, que vem a ser ninguém menos que Winston Churchill. o 6º Doutor liga o incidente a um encontro anterior com o futuro primeiro ministro durante a sua 2ª encarnação (mas que ainda iria ocorrer na linha do tempo de Winston), e passa a acreditar que alguém estão tentando alterar a história tirando Churchill da equação. 

Escrito por Terrance Dicks, Jogadores é estruturado em três blocos, cada um focado em um momento diferente da vida de Churchill, e em um cenário histórico específico. O primeiro bloco, como dito antes, é situado durante a Guerra dos Boêres. O segundo bloco ocorre na França durante a I Guerra Mundial, sendo contado em forma de flashback, funcionando como uma espécie de epílogo do arco The War Games. A participação do 2º Doutor (pouco antes de se tornar um agente forçado da CIA) é maior do que o esperado e sua viagem supervisionada pelos Time Lords para garantir que eles devolveram os humanos sequestrados pelos War Lords ao seu tempo funciona quase como um conto dentro do romance. O terceiro bloco, que ocupa a maior parte do livro, se passa na Inglaterra durante a Crise Da Abdicação de 1936, quando o Rei Eduardo VIII tentou fazer de Wallis Simpson, uma americana divorciada (e simpatizante do nazismo), a sua rainha.

Dicks retrata momentos da vida de Churchill onde ele vinha de algum tipo de fracasso; seja o desastroso início de sua vida política nos anos de 1890, ou a falha de seu plano militar para tomar Constantinopla na I Guerra. Assim, o autor constrói o político como alguém de determinação de aço, que mantém a força para lutar mesmo em tempos difíceis, sinalizando o papel que ele iria desempenhar na 2ª Guerra Mundial. Mas apesar da inteligência de Winston, seu orgulho e senso de auto importância acabam muitas vezes sendo o seu ponto fraco (especialmente em sua fase jovem); não muito diferente de um certo Time Lord de roupa colorida, criando um paralelo interessante entre os dois homens. Dicks capta o 6º Doutor de forma competente, reproduzindo a postura ácida e enérgica do personagem. Ao mesmo tempo, o autor crítica certas decisões criativas em torno desta encarnação, ao livrá-lo das roupas de palhaço, nas palavras de Peri, e vesti-lo com trajes da época até o desfecho. Jogadores é também uma ótima história para Peri, onde ela tem a chance de realmente apreciar as suas viagens com o Doutor e se divertir; como a passagem onde ela curte o conforto de um luxuoso hotel de Londres onde ela e o 6ª Doutor se hospedam. Ao mesmo tempo, a obra põe a moça em situações onde precisa demonstrar uma força que raramente teve a chance de exibir na era do 6º Doutor, mas mantendo-se fiel à personagem da TV.

 O romance faz uma dobradinha interessante com Timewyrm: Êxodo, outro livro de Dicks situado em um cenário pré II Guerra, mas desta vez inserindo o Time Lord dentro do contexto político britânico do entre-guerras ao invés do alemão. Além de Churchill, o autor traz uma série de outros personagens verídicos, como o Rei Eduardo VIII e Wallis Simpson, duas das figuras mais controversas da família real britânica. Dicks não esconde a sua opinião sobre o polêmico casal, ao estabelecer sem sombra de dúvidas a relação de Simpson com o regime nazista, inclusive assumindo como fato os rumores de que a amada do rei teria um caso com Joachim Von Ribbentrop, o ministro das relações exteriores de Hitler. A forma como o livro retrata o Rei como um idiota apaixonado facilmente manipulável apenas reforça a opinião do autor sobre o casal.

Os personagens não históricos também são muito bem construídos pela obra. Dicks tem um domínio ainda maior sobre o 2º Doutor do que sobre o 6º, e explora de forma interessante a melancolia do Time Lord após perder a sua liberdade e companheiros para o seu provo, nessa que é basicamente a primeira aventura da Temporada 6B. Os vilões da obra, os tais ‘Jogadores’ do título, não são muito explorados, se envolvendo muito pouco no conflito de fato. Retratados como seres cósmicos, que mexem e alteram o tempo manipulando eventos como se fossem jogos, simplesmente para se divertirem. São dadas pequenas provocações sobre as regras que regem esses jogos e do funcionamento da hierarquia desses jogadores, mas nada muito claro. Jogadores, entretanto, é o primeiro livro de uma trilogia de Dicks envolvendo esses vilões, que retornariam em Jogo Mundial (que traz a reação dos Time Lords ao encontro do 2º Doutor com esses seres neste livro.) e Fim de Jogo.

Terrance Dicks é acusados por alguns de ser um autor autoindulgente, o que não chega a ser uma mentira. Ele traz de volta vários de seus antigos personagens, como o Tenente Carstairs e Lady Jennifer vistos em The War Games, e Tom Dekker, um detetive durão de Chicago, apresentado pela primeira vez em outro romance de Dicks, Colheita de Sangue, onde Dekker conheceu o 7º Doutor. Em Jogadores, Dekker surge mais velho, vivendo em Londres, e acaba sendo contratado como guarda-costas de Peri e do 6º Doutor. Mas apesar de fazer sim um fan service, Dicks nunca torna estas auto-referências centrais na trama ao ponto de tornar a narrativa incompreensível ou mesmo distrativa para quem não as conhece.

Sendo uma leitura rápida e agradável, Jogadores é um livro que consegue manter o leitor sempre interessado, com um ritmo ágil e nunca atropelado. Com esta obra, Dicks entrega uma trama simples e envolvente, que explora um importante momento da História britânica e seu impacto na 2ª Guerra mundial, além de trazer o início da amizade do Doutor com uma das figuras políticas mais importantes do século XX. Uma aventura que diverte e ainda atiça a nossa curiosidade histórica é decididamente o que eu chamo de Doctor Who raiz, e é isso que Jogadores entrega.

Doctor Who: Jogadores (Players)- Reino Unido, 06 de Abril de 1999
Autor: Terrance Dicks
BBC Past Doctor Adventures #21
Publicação: BBC Books
225 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.