Crítica | Doctor Who: Lealdades Divididas, de Gary Russell

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estrelas 2

Equipe: 5º Doutor, Adric, Nyssa, Tegan / 1º Doutor
Espaço: Planeta Dymok (fictício, no Sistema Solar) / Gallifrey
Tempo: 2408 / Indeterminado

Lealdades Divididas é uma lição para todo futuro escritor. Ou para leitores que gostam de pensar sobre o processo da escrita. A representação de como ter uma boa ideia e não executá-la. Ou estragá-la com terríveis representações de seus personagens — especialmente se eles já são conhecidos –, muita chatice pseudo-científica para validar o invalidável e, por fim, uma bagunça que quer ser espertinha mas só consegue mesmo irritar o leitor por ser muito confusa e não concluir, de fato, o drama que começou. Como é que um livro com um personagem sensacional como o Celestial Toymaker, o 5º Doutor (a despeito desse trio-chatice que o acompanha) e o 1º Doutor em seu tempo de Academia, em Gallifrey, pode ser ruim? Pois é. Gary Russell conseguiu.

A primeira coisa que podemos considerar, do lado positivo, é o cenário imaginativo e as brincadeiras do Toymaker, como aquelas que viemos em sua apresentação, no arco #24. Isso é sempre divertido, porque coloca um nível de maldade diferente, algo que Russell consegue trabalhar bem, convenhamos. A linha que ele desenha para Tegan, a “deusa”, é um bom momento do livro, apesar da própria Tegan. De outro lado, o menino do pijama amarelo Adric e Nyssa não conseguem ter um momento na obra em que o leitor pense: “certo, isso é muito bom. Que diálogos maravilhosos! Que iniciativa genial!“. Esqueçam isso. A única diferença é que aqui Adric é mais arrogante que mimado e Nyssa tem um efeito de luto retardatário, incoerente com esse momento de suas viagens com o Doutor (essa história acontece pouco depois de The Visitation) e que acaba dando em um contentamento fácil demais até para a personagem. Em três palavras: muito mal escrito.

Eu realmente não sei o que é mais negativamente impressionante aqui. Se o fato de falarmos da mesma pessoa que escreveu o episódio Mirror, Signal, Manoeuvre para a série de Sarah Jane na Big Finish (ele escreveu a primeira temporada inteira, mas esse é o melhor episódio); ou a fantástica série I, Davros. Ou se o fato de termos os mesmos cacoetes do autor no livro A Invasão dos Homens-Gato (2º Doutor) se repetindo aqui: fuga súbita do tema, abandono de plots interessantes ou personagens, bagunça narrativa, especialmente no final. Escolham seu veneno.

O fato é que a história de Lealdades Divididas passa de uma enorme potencialidade de impressionar para uma real capacidade de irritar. Até o longo flashback que temos em Gallifrey, com explicações até válidas sobre o passado do Doutor (parece que roubar TARDISes era seu passatempo desde jovenzinho); sobre o famigerado The Deca — os dez rebeldes da Prydonian Academy: Drax, Theta Sigma (1º Doutor), Jelpax, Koschei (Mestre), Magnus (War Chief), Millennia, Mortimus (Monge / Time Meddler), Rallon, Ushas (Rani) e Vansell –; e sobre quem realmente é o Celestial Toymaker, acaba se perdendo em meio a divagações e interrupções desnecessárias da narrativa. Chega um momento que a leitura trava. Precisa ter muito boa vontade para continuar.

Devido aos momentos em Gallifrey, é impossível não validar como importante essa aventura. Não que obras melhores do Universo Expandido de DW não possam suprir essas informações, mas mesmo com as idiossincrasias de Gary Russell, há coisas aqui que só ele saberia criar ou expandir. O leitor precisa, no entanto, estar preparado para um livro que contradiz algumas informações anteriores e posteriores da série (nada grave, além de ser perfeitamente explicado, afinal, é o mundo do Toymaker, as coisas lá funcionam de maneira diferente, inclusive a memória ou até os fatos passados, como se fossem uma linha alternativa) e para engolir dezenas e dezenas de referências por capítulo. Não digo que é um livro execrável. Mas é definitivamente um livro ruim.

Doctor Who: Lealdades Divididas (Divided Loyalties) — Reino Unido, 4 de outubro de 1999
Autor: Gary Russell
Publicação original: BBC Books
252 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.