Crítica | Doctor Who: Matrix, de Robert Perry e Mike Tucker

Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Londres
Tempo: 1888, 1963 (alternativo)

Jack, O Estripador, serial killer que aterrorizou Londres em 1888, entrou para a História quando seus crimes se tornaram os primeiros assassinatos em série a serem amplamente cobertos pela mídia. O fato de o criminoso nunca ter sido pego ou identificado só aumentou a mítica em torno dos crimes, tornando Jack um  ícone cultural.  O maníaco inspirou uma série de filmes, livros e HQs, muitas vezes dividiu histórias com personagens fictícios, como Drácula, Sherlock Holmes e Batman,  só para citar alguns. Assim, não é de se surpreender que Doctor Who também use os homicídios do Estripador para uma de suas histórias, mas a abordagem de Robert Perry e Mike Tucker é bem diferente do que geralmente é tratado na ficção envolvendo o psicopata, tanto pelo ângulo que escolhe observar os crimes, quanto pela forma como amarra Jack com a mitologia da série.

Na trama, o Sétimo Doutor e Ace são atacados por um misterioso inimigo, que não só está sempre um passo à frente do Doutor, como é poderoso o suficiente para hackear a TARDIS. Tomando a decisão extrema de deixar sua companheira sob a proteção de sua primeira encarnação e enfrentar o seu adversário sozinho, o Doutor retorna a 1963, somente para descobrir que a história foi radicalmente alterada: ele e Susan nunca viveram em Londres e a Inglaterra está em estado de sítio devido aos altos índices de violência urbana e pelas criaturas demoníacas que vagam pelo país. Rastreando a alteração até 1888, onde os crimes de Jack se estenderam muito além dos cinco assassinatos originais, Ace e o Doutor partem para rastrear o maníaco e detê-lo.

Matrix é sobre demônios internos, e sobre a forma que nós; seja como sociedade ou como indivíduos, lidamos com eles. Ao longo da obra, tal temática é abordada de diferentes ângulos, através dos conflitos internos da dupla protagonista ou pelo próprio ambiente de Londres, que, segundo teoriza um personagem, não seria capaz de gerar Jack, se não possuísse uma natureza tão sombria quanto. O 1º ato, situado em uma Inglaterra alternativa em que o fato de o Estripador ter feito mais vítimas provocou uma reação em cadeia que fez com que o país fosse anexado como um Estado norte-americano após a 2ª Guerra Mundial é interessante pelo clima apocalíptico que os autores imprimem.

A participação de Ian e Barbara, que neste mundo nunca ouviram falar de  Susan, dá ao conflito um aspecto pessoal para o Doutor, não só pelo seu carinho pelos professores, mas por suas viagens com eles terem sido vitais para tornar o Time Lord quem ele é. Quando a trama chega a 1888, onde se passa a ação principal, Perry e Tucker optam por separar Ace e o Doutor pela maior parte da obra. Tal recurso é necessário pela proposta de levar os dois personagens aos seus limites, que têm início justamente com uma violenta ruptura entre a dupla. Quem ficou chocado ao ver o 6º Doutor tentando estrangular sua companion Peri na TV, ficara aterrorizado ao ler a passagem onde o 7º Doutor, parecendo possuído, tenta estripar Ace com uma garrafa quebrada; uma situação perturbadora que os autores transmite com perfeição.

Embora seja um dos cenários mais visitados pela série, a Inglaterra vitoriana de Matrix é um  lugar longe do romantismo com que normalmente a época é mostrada, focando-se na violência e na miséria dos guetos de Whitechapel. É curioso observar como Ace, deixada sozinha para sobreviver neste ambiente, vê a cidade como um lugar mais alienígena do que muitos dos planetas que ela visitou. Além de ter que encontrar recursos como dinheiro, comida e abrigo, a jovem de Perivale deve lidar com o retorno dos sintomas do Vírus Cheetah, que ela contraiu em Survival, o que força a moça a lutar para literalmente conter a sua fera interior, que ameaça se soltar quando a Companion se vê sob grande tensão. São nos trechos estrelados por Ace que a obra inclui o carismático núcleo da trupe circense, assim como o sádico Malacroix, o dono do circo, que comanda uma rede de chantagem e extorsão em Londres, e torna-se obcecado em capturar o Estripador para exibi-lo em seu Freak Show. Após ser vista quase se transformando, a própria Ace é capturada e presa em uma jaula por Malacroix, que planeja forçá-la a se transformar, para incluí-la entre seus freaks. Falando nos freaks, o livro apresenta um grupo bem heterogêneo deles, cada um com uma personalidade bem definida, em um núcleo fortemente inspirado no clássico filme Freaks (1932), inclusive no que diz respeito ao senso de comunidade que partilham. 

O Doutor, por sua vez, sem lembrar de quem é (sim, de novo), e atendendo pelo nome de Johnny, vaga desorientado por Whitechapel com as roupas manchadas de sangue, o que o faz ser acusado pela comunidade de ser o Estripador. Nestas passagens, em que o próprio “Johnny” duvida de sua inocência, os autores exploram o que realmente lhes interessa no caso do Estripador. Perry e Tucker não estão interessados na investigação policial ou no trágico destino das vítimas do psicopatas, e sim nos males sociais que os crimes causaram a Whitechapel; com o antissemitismo e a xenofobia da região aflorando violentamente devido às suspeitas de que um membro destes grupos possa ser o assassino. Tais trechos não são tão empolgantes ou movimentados quanto os do núcleo de Ace, mas trazem os momentos mais reflexivos do livro, entregues principalmente por Joseph Liebermann, um velho judeu que abriga “Johnny” e que possivelmente é o lendário Judeu Errante.

A Obra traz bons personagens e tem um ótimo ritmo, mas o seu maior trunfo é a  ambientação, que mantém uma atmosfera, tensa, sombria, e na maior parte do tempo, desesperançosa. O romance não perde a chance de homenagear a literatura gótica, através do clímax situado em uma catedral castigada por uma tempestade, onde enfim o Doutor confronta o Estripador. Mas apesar do clima opressivo, a obra não se entrega ao niilismo, ao defender que mesmo nos lugares mais sombrios, há pessoas dispostas a fazer o bem e a se redimir por erros passados.

SPOILERS

O título, entretanto, entrega um spoiler, ao expor o envolvimento da tecnologia dos Time Lords na trama; algo que teria sido facilmente evitado. Dito isso, a revelação do Valeyard como o grande vilão da história e a real identidade de Jack, O Estripador, se comunica diretamente com o tema central do livro. Ao apresentar o conceito da Matrix Negra, uma versão distorcida da Matrix que armazena os pensamentos malignos não realizados que Time Lords mortos tiveram em vida e que está sendo alimentada pelo medo gerado pelos crimes de Jack, Perry e Tucker não apenas fazem uma adição assustadora à mitologia de Gallifrey, mas encontram novas formas de abordar o vilão.

As passagens onde o Valeyard revela ao 7º Doutor como usou a Matrix Negra para  transformar cada uma das encarnações passadas e futuras do Doutor em espectros infernais ao corrompê-los momentos-chave de suas vidas, como um 4º Doutor que foi em frente em sua missão de destruir os Daleks no momento de sua criação, ou um 5º Doutor que optou por salvar a própria vida ao invés da de Peri em The Caves Of Androzani são perturbadoras, e posta de forma extremamente evocativa pelos autores, ao descrever essas doze figuras espectrais formando em circulo em torno do Time Lord e de sua contraparte maligna. O fato do vilão ter escolhido o 7º Doutor como a última encarnação para atacar por este ser o Doutor que mais se aproximou de sua natureza sombria traz um desenvolvimento interessante para o personagem em seu confronto final com o Estripador, levando a um final dúbio e instigante para o duelo.

FIM DOS SPOILERS

Mais interessado nas consequências dos assassinatos do Estripador em Londres do que nos crimes em si, Matrix é um ótimo Thriller de suspense, que constrói uma atmosfera de tensão magnética, trazendo uma série de personagens carismáticos e vilões assustadores. Articulando com competência a mitologia da série com situações mais terrenas, a obra de Perry e Tucker ainda consegue terminar com uma nota positiva, deixando o leitor com um sorriso de satisfação no rosto, encerrando essa inusitada abordagem de Doctor Who do macabro mundo de Jack, O Estripador.

Doctor Who: Matrix – Reino Unido, 05 de Outubro de 1998
Autores: Robert Perry, Mike Tucker
BBC Past Doctor Adventures #16
Publicação: BBC Books
235 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.