Crítica | Doctor Who: Medo do Escuro, de Trevor Baxendale

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Equipe: 5º Doutor, Nyssa, Tegan
Espaço: Lua de Akoshemon
Tempo: 2382

Um dos temores que melhor representam a natureza do terror é o universal medo do escuro. O escuro guarda o desconhecido, e o desconhecido, aquilo que nos é estranho, o que é justamente uma das condições basilares do medo. As boas histórias de terror são justamente aquelas que sabem reconhecer e se aproveitar deste sentimento, e mesmo possuindo alguns trechos derivativos, o livro Medo do Escuro, de Trevor Baxendale, aproveita-se muito bem da natureza aterrorizante do desconhecido presente na escuridão para construir não só a sua atmosfera, mas também a sua narrativa.

Na trama, situada entre os arcos Arc of Infinity e Snakedance, após Nyssa sofrer um ataque telepático de uma entidade desconhecida enquanto está a bordo da TARDIS, o Quinto Doutor resolve investigar, e segue o rastro psíquico da misteriosa criatura até a Lua de Akoshemon, um planeta inabitável com um dos passados mais hediondos da história do Universo. Materializando-se no ano de 2382, o Doutor, acompanhado de Tegan e Nyssa encontra na Lua do planeta uma equipe de arqueólogos comandada pela irascível Jyl Stoker, explorando as cavernas do satélite natural. Mas a presença dos exploradores parece apenas fortalecer uma entidade tão antiga quanto o próprio Universo, presa nas profundezas dessa Lua, que irá levar o Time Lord e suas companions a encararem alguns de seus piores medos, enquanto um monstro sanguinário ronda as cavernas da Lua de Akoshemon.

Possuindo uma configuração inicial que lembra o arco da Série Clássica The Tomb Of The Cybermen, o romance de Trevor Baxendale parece buscar inspiração tanto na obra de H.P Lovecraft, sendo claramente influenciado por Nas Montanhas da Loucura, quanto por trabalhos inspirados nesta obra, como o clássico filme de horror espacial Alien – O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. O autor é extremamente competente em construir uma atmosfera claustrofóbica, que vai se tornando cada vez mais sufocante à medida em que a história avança. A forma como o escritor descreve o visual e constrói os ataques do brutal Bloodhunter, uma criatura vampiresca que começa a dizimar os membros da escavação, consegue ser assustadora, sem ser apelativa.

A prosa de Baxendale é muito direta e focada na ação, em alguns pontos se assemelhando mais a um roteiro muito bem escrito do que propriamente um trabalho literário, o que se revela uma pena, pois o autor mostra-se muito bom em construir momentos que basicamente só podem ser traduzidos pela palavra escrita, como o angustiante ponto em que descreve as sensações e pensamentos de Tegan presa em uma capsula de vidro, tendo uma pequena lanterna como única fonte de luz em um ambiente completamente escuro.

O romance também é bem estruturado narrativamente, conseguindo desenvolver bem os seus personagens dentro do fluxo contínuo da narrativa, que felizmente nunca soa apressada. Baxendale conduz o crescendo de tensão de forma muito competente, inserindo bem-vindos momentos de respiro (como a festa que ocorre após a equipe de escavação fazer uma importante descoberta), mas que vão se tornando cada vez mais raros, enquanto a ameaça representada pela entidade que atraiu o time da TARDIS torna-se mais presente e os corpos começam a se acumular. A trama também conta com algumas reviravoltas, que mesmo longe de serem surpreendentes, por serem até um pouco derivativas de outras histórias de Doctor Who, funcionam de forma orgânica dentro da estrutura narrativa, tensionando a relação entre os personagens.

Aliás, a construção de seus personagens é um dos grandes méritos de Medo do Escuro, pois percebemos como a crescente situação desesperadora em que se encontram e as chances cada vez menores de sobrevivência vão começando a afetá-los. Personagens como Jyl Stoker e Bunny Cheung, o enorme chefe de mineração, surgem inicialmente como arquétipos muito bem definidos, a primeira como a endurecida mulher de negócios que pensa apenas em cumprir o seu objetivo profissional, e o segundo em voltar para a sua família na Terra, mas estes personagens logo são desenvolvidos para além dos arquétipos em arcos dramáticos satisfatórios.

A caracterização do 5º Doutor no livro também é muito bem realizada, conseguindo captar com perfeição a vulnerabilidade da versão de Peter Davison para o personagem, sem fazê-la soar inepta, como alguns roteiros do tempo em que o ator esteve á frente da série faziam parecer. De fato, o clima de terror da história e a ameaça representada pela entidade conhecida simplesmente como “The Dark” são tão bem construídos pelo fato do autor conseguir transmitir com grande habilidade o medo crescente do Doutor, especialmente quando a misteriosa entidade começa a influenciar a sua mente. Quanto a Tegan e Nyssa, elas funcionam bem dentro da narrativa, cada uma tendo o seu momento para brilhar, especialmente Tegan, que tem um pouco de sua psique explorada, ao relembrar o ano que passou separada do time da TARDIS, e o que viajar com seus amigos alienígenas realmente significa para ela.

Medo Do Escuro funciona como uma ótima história de horror cósmico, que ainda consegue ser fiel ao período de Doctor Who que está representando, ao adotar um tom sombrio e muitas vezes distópico, apesar dos bem inseridos momentos de esperança. Um livro capaz de provocar alguns arrepios e que ainda humaniza o 5º Doutro dentro de um contexto horrorífico através de suas fraquezas e falhas, mas sem sacrificar a sua natureza heroica. Com certeza, vale a leitura.

Doctor Who: Medo Do Escuro (Fear of The Dark) Reino Unido. 06 de Janeiro de 2003.
Autor: Trevor Baxendale
BBC Past Doctor Adventures #58
Publicação: BBC Books
278 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.