Crítica | Doctor Who: Navio Fantasma, de Keith Topping

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Equipe: 4º Doutor
Espaço: Navio Queen Mary
Tempo: 1963

O caráter enigmático do Doutor é uma das bases de Doctor Who. Tal caráter não se refere só ao nebuloso passado do personagem, mas à sua natureza muitas vezes imprevisível. Claro, há encarnações do protagonista mais transparentes do que outras, mas nenhuma é completamente aberta com seus companheiros e aliados a respeito de seus sentimentos, ou mesmo sobre os seus planos. Por isso, contar uma história completamente do ponto de vista do Doutor é um desafio, já que tal abordagem joga mais luz sobre a persona nebulosa do Time Lord, algo que se torna ainda mais complexo quando o Doutor escolhido para protagonizar esta aventura é o 4º Doutor, que fica facilmente entre as versões mais enigmáticas do personagem. Essa é a proposta apresentada por Keith Topping em Navio Fantasma, sua contribuição para a linha de Noveletas da Telos.

A trama, situada entre os arcos The Deadly Assassin e The Face of Evil, tem inícico com a TARDIS materializando-se a bordo do navio Queen Mary, em 1963, rumando para Nova York. O 4º Doutor, que está viajando sozinho, está aflito, pois conhece a fama do Queen Mary de ser um navio fantasma e sente uma estranha presença no local. Quando uma série de eventos fantasmagóricos começam a acontecer e a segurança dos passageiros é posta em risco, o Doutor precisa enfrentar os seus temores e descobrir o que há por trás das forças misteriosas que assombram o navio.

Indo pelo caminho oposto de obras como Tempo e Afins e País das Maravilhas, que retratavam o Doutor como uma figura distante, Navio Fantasma tenta humanizar o Time Lord o máximo possível ao colocá-lo como narrador, explorando assim seus medos e melancolias. Além disso, o autor opta por não colocar nenhum personagem para desempenhar o papel de “Companion de ocasião”, deixando o 4º Doutor sozinho por boa parte da trama, com as suas interações com os outros passageiros do navio sendo bastante pontuais.

Como o título sugere, Topping usa a ambientação do Queen Mary (que de fato existiu, e que tinha a fama de ser assombrado) para construir uma típica história de fantasma. O autor compreende o gênero que está emulando e usa os elementos narrativos tradicionais desse tipo de história, como o passado violento que cerca o navio e a existência de uma cabine maldita que todos temem (que surge como o coração de todo o mal do lugar) de forma eficiente. A construção da atmosfera do livro é fantástica, já que Topping consegue transmitir ao leitor uma sensação de isolamento e desconforto que é extremamente importante para atingir o terror que a obra parece aspirar.

A noveleta se preocupa mais com a atmosfera do que com o enredo; o que não é necessariamente um problema quando estamos falando de obras de terror. Mas para a proposta que o autor apresenta para o protagonista, um cuidado maior com a construção da história se fazia necessário, pois o terror acaba não convencendo justamente por que nosso narrador é o Doutor, cujo background não condiz com o personagem retratado nas páginas. Referenciando os personagens da literatura gótica ao qual o livro paga tributo, o 4º Doutor é retratado como um homem melancólico, que sente-se mais sozinho do que nunca, estando mergulhado em reflexões soturnas após a sua última visita a Gallifrey, onde mais uma vez, percebe o quão deslocado ele se sente entre o seu povo. Até aí, nada incoerente com o Senhor do Tempo apresentado por Tom Baker, já que o 4º Doutor demonstrou muitas vezes melancolia que era logo mascarada pelo sorriso gigante e que poderia ser explorada pela obra através da narrativa em primeira pessoa.

Os problemas surgem quando Topping passa a explorar as inseguranças do Doutor através do terror causado pela possível presença de forças sobrenaturais no navio. O livro descreve o Doutor como estando absolutamente perturbado pelas aparições fantasmagóricas que testemunha, repetindo desesperadamente para si mesmo que “fantasmas não existem” justamente por que está começando a acreditar que existem. Esse desespero diante dos fantasmas parece terrivelmente fora do personagem, já que esta não é a primeira vez que o Time Lord se vê diante de uma situação aparentemente sobrenatural (algo que a obra faz questão de nos lembrar ao citar aventuras anteriores com teor parecido), e ele nunca reagiu da forma como reage nesta trama.

Claro, por se tratar de uma narrativa em primeira pessoa, poderia se alegar que o 4º Doutor simplesmente guarda os seus temores e dúvidas para si mesmo, exibindo uma fachada de segurança para os seus Companions (e para o público). Mas o momento em que o autor bota o Doutor tendo um surto de pânico após um ataque particularmente intenso das entidades do navio, o que o leva a tentar fugir na TARDIS, me perdeu completamente. Não é que o Doutor não possa ser colocado em uma posição vulnerável ou de desespero. Um dos melhores episódios da série, Heaven Sent trabalha com essa premissa de levar o Doutor ao limite, enquanto o romance Medo do Escuro construía de forma crível e angustiante a ideia de que por um breve instante, o 5º Doutor considerou a hipótese de matar outra pessoa e se matar em seguida para poupá-los de um destino terrível diante do desespero de uma situação extrema e macabra. Ou seja, o autor pode colocar o Doutor para tomar uma atitude que possa soar um pouco fora do personagem, desde que ele construa a situação para nos convencer desta mudança de comportamento, o que infelizmente Topping não consegue executar.

Essa descaracterização acaba ganhando peso pelo Doutor ser o único personagem que de fato tem um arco dramático ao longo do livro, e a maior parte deste arco está justamente baseada no elemento problemático, que é a relação do protagonista com os fatores de terror da narrativa. Em defesa do autor, a conclusão da obra é satisfatória, com o desfecho em torno do mistério dos fantasmas do Queen Mary indo por um caminho um pouco diferente daquele que eu estava esperando, aonde finalmente Topping parece conseguir captar os maneirismos do 4º Doutor.

Navio Fantasma é um livro ousado dentro da série por tentar lançar um olhar mais intimo e humano para o Doutor. Infelizmente a obra perde muitos pontos por não conseguir convencer o leitor que este Doutor, que nas próprias palavras anda na eternidade, esteja realmente desesperado e questionando as suas crenças e noções de realidade, já que o livro não nos dá elementos suficientes para tornar essa crise coerente com o personagem que conhecemos. Mas o forte flerte com a literatura gótica através da ambientação do navio assombrado e da narração melancólica do Doutor tornam a noveleta de Keith Topping uma leitura no mínimo interessante, ainda que o enredo falhe em atingir o seu principal objetivo, que é a humanização do Doutor.

Doctor Who: Navio Fantasma (Ghost Ship)- Reino Unido, 22 de Agosto de 2002
Autor: Keith Topping
Publicação: Telos Publishing
112 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.