Crítica | Doctor Who – O 6º Doutor: A Última Aventura

Last_adventure sexto doutor plano critico big finish

Equipe: 6º Doutor, 7º Doutor, Constance, Charley, Flip, Jago, Litefoot, Ellie, Mel, Genesta
Espaço: Realidade Nexus, Planeta não nomeado, Londres, Matrix, Estação Espacial da CIA (Celestial Intervention Agency)
Tempo: Indeterminado, Século XXXI, Anos 1890, Futuro

Em dezembro de 1986 foi ao ar o último episódio do arco The Ultimate Foe, parte da saga-temporada final do 6º Doutor, intitulada The Trial Of A Time Lord. Como vocês sabem, este foi o momento da História de Doctor Who onde a BBC pisou na bola e apunhalou pelas costas o ator Colin Baker, que acabou não retornando (com total razão) para filmar a cena de regeneração em seu corpo seguinte, logo no início de Time and the Rani. Só depois de 28 anos Colin Baker retornou àquele momento de sua jornada, na antologia produzida pela Big Finish que agora analiso: O 6º Doutor: A Última Aventura. Lançado em agosto de 2015, o projeto traz quatro histórias, três delas localizadas no que genericamente podemos chamar de “reta final das aventuras do 6º Doutor” (e digo ‘genericamente’ porque nem são assim tão perto do final) e uma que realmente traz o motivo da regeneração, mostrando o que aconteceu antes de Time and the Rani e por que o Doutor se regenerou.

Eu estou plenamente ciente que existem outras versões para o fim da vida dessa encarnação do Senhor do Tempo. Há a versão em que ele comete suicídio, influenciado pela 7ª encarnação, segundo Jogos Mentais, de Steve Lyons. Há a versão em que ele já estava morrendo por inanição cronológica (Arranhão Espiral, de Gary Russell), após uma batalha contra os Lamprey, num final de trama que se alinha com os eventos de Jogos Mentais. Numa visão superficial, se a gente considerar essas duas entradas iniciais, os eventos do presente audiodrama estariam em completo desalinho. Mas vocês sabem… em viagens no tempo, tudo dá-se um jeito. Chegaremos lá.

The End of the Line é a primeira aventura da tetralogia. Acompanhado de Constance, o Doutor luta contra uma versão do Mestre e também contra o Valeyard (este aparece em todas as histórias), numa trama que daria um excelente episódio de terror para a série, se fosse adaptado. Aqui, o team TARDIS investiga um trem que descarrilou. Para ser sincero, esta é a única história que eu realmente gosto de toda a antologia, mesmo que traga alguns problemas na finalização. O nevoeiro, onde o Time Lord e Constance estão perdidos, no início, serve de ótimo estabelecimento de cenário e também de degrau para o que realmente importa: a abertura de outras realidades na Terra e o primeiro contato direto do Doutor com coisas que, ao longo de muito tempo (do seu ponto de vista, claro) iriam levá-lo a se regenerar.

plano critico doctor who end of the line e red house

A segunda história, The Red House, tem uma boa premissa, mas não um bom desenvolvimento. Agora ao lado de Charlotte Pollard, o Doutor se vê diante de um assustador toque de recolher. Existem lobisomens (ou uma variação dessa espécie) no local. Separada do Doutor, Charley vai parar numa mansão onde um cientista diz que “vai curá-la de sua natureza bestial“. O que é interessante aqui é a forma como o Doutor lida com a situação estranha de encontrar “lobisomens ao contrário” e de como pistas colocadas pelo Sr. Jardim do Vale (eu nunca vou me esquecer disso, viu TV Cultura!) serão retomadas no futuro, algo que também veríamos na aventura seguinte, Stage Fright.

De todas as quatro histórias, Stage Fright é a que eu menos gosto. Com Flip ao lado do Doutor e a dupla Jago & Litefoot como encontro casual na saga, temos uma verdadeira piscina de fan service da Série Clássica, com referências diretas aos arcos de regeneração do Doutor até aquele momento, a saber The Tenth Planet (1º Doutor), The War Games (2º Doutor), Planet of the Spiders (3º Doutor), Logopolis (4º Doutor) e The Caves of Androzani (5º Doutor). Claro que é muito interessante ver esse tipo de ligação sendo feita numa produção da série, mas a ideia que o Valeyard segue aqui quase me fez dormir. Simplesmente não consegui me conectar com essa história e ainda acredito que, pela forma como o encerramento da antologia foi escrito, a gente nem precisava dela, pois poderíamos retrabalhar esses eventos em outro espaço e de maneira mais curta.

E então chegamos a The Brink of Death, que é de fato “a última aventura” do 6º Doutor, segundo a Big Finish. Como deu para perceber, o caminho até esse final não foi exatamente maravilhoso e é por isso que minha tendência foi olhar com desconfiança para o que o roteiro apresentou no começo dessa história, onde o Doutor, acompanhado por Mel, enfrenta o seu último obstáculo na batalha contra ele mesmo. Toda a ideia pensada pela versão sombria do Time Lord é interessante, assim como o plano de controle que ele engendra. Depois de tantos anos com cientistas e outros personagens malucos revirando mundos e fundos para controlar o Universo é bom ver quando isso parte de um personagem interessante e perfeitamente capaz de fazer o que diz que irá fazer.

doctor who plano crítico stage fright brink of death

Lembram que no início eu comentei sobre um possível desalinho na linha do tempo do 6º Doutor se a gente comparasse essa história com as outras que falam sobre o final de sua vida? Pois muito bem. Nicholas Briggs, que escreveu essa última aventura, fez uma excelente ligação entre o momento próximo à regeneração do 6º Doutor e o por quê o 7º Doutor tentou fazer com que ele se suicidasse, em Arranhão Espiral. A explicação é convincente e ainda traz um bom pensamento do por quê o Time Lord foi ficando, em tese, mais sombrio com o passar de suas regenerações, podendo ter alguns “pulos” de delicadeza numa encarnação ou outra, mas retornando na seguinte com um pouquinho mais de sombras em seu olhar. Nesse final, temos direito a roubo de identidade pelo Valeyard, cenas em Gallifrey, cenas na Matrix e a ajuda de uma “companion de ocasião“, Genesta, uma Time Lady inconformada com seu trabalho de reparos na Matrix. Todas as atuações aqui são aplaudíveis, seguindo o padrão da antologia, até mesmo em Stage Fright.

Podemos dizer que as contradições se dão porque estamos falando de pontos de vista diferentes: nos livros, o de Mel; nos áudios, o do Doutor. Aliás, o fato de, segundo o livro, o Doutor já estar morrendo quando saiu da Câmera Espiral pode ser explicado pelas bagunças que o Valeyard estava fazendo na linha do tempo, roubando as vidas anteriores do Doutor; e também nas fraturas no tecido do Universo, que permitem essas sobreposições de estágios de vida para o mesmo Senhor do Tempo. Claro que esta é apenas uma forma de olhar as coisas, mas pelo menos para mim, ajuda a organizar melhor o pensamento para este final. Demorou bastante, mas conhecemos o caminho que fez o 6º Doutor se regenerar. Não foi um dos melhores caminhos da série, convenhamos, mas certamente foi bastante divertido conferir. Como ele mesmo diz, o futuro estaria em boas mãos.

Doctor Who – The Sixth Doctor: The Last Adventure (17 de agosto de 2015)
Direção: Nicholas Briggs
Roteiro: Nicholas Briggs, Alan Barnes, Matt Fitton, Simon Barnard, Paul Morris
Elenco: Colin Baker, Miranda Raison, Anthony Howell, Chris Finney, Ony Uhiara, Hamish Clark, Maggie Service, India Fisher, Michael Jayston, Ashley McGuire, Andree Bernard, Rory Keenan, Jessie Buckley, Kieran Hodgson, Lisa Greenwood, Christopher Benjamin, Trevor Baxter, Lisa Bowerman, Andree Bernard, Lizzie Roper, Bonnie Langford, Liz White, Robbie Stevens, Susan Earnshaw, Sylvester McCoy
Duração: 4 episódios de 1 hora cada

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.