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Crítica | Doctor Who: O Exército Esquecido, de Brian Minchin

por Rafael Lima
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Equipe: 11º Doutor, Amy
Espaço: Nova York
Tempo: 2010

O Humor e a comédia sempre foram uma parte importante de Doctor Who. Claro, houveram períodos da série que foram mais bem humorados do que outros, mas em menor ou maior grau, o humor sempre esteve presente, ao ponto de termos histórias onde a comédia era central na narrativa. Esse último tipo de trama mostra-se sempre muito desafiador para o escritor que escolhe seguir este caminho, pois ao mesmo tempo em que a comédia não pode nos desconectar dos personagens ou da história que está sendo contada, ela ainda precisa ser engraçada. Esse é o desafio que o autor Brian Minchin resolveu assumir em O Exército Esquecido, seu único livro (até o momento, 2019) para a linha New Series Adventures.

Na trama, situada entre os episódios Victory of The Daleks e The Time of The Angels, o 11º Doutor leva Amy para a Nova York contemporânea onde, segundo ele, é feito “o melhor hambúrguer do tempo e espaço”. Mas antes que possam desfrutar de seus hambúrgueres, os dois acabam se envolvendo em uma situação caótica no Museu de História Natural, quando um mamute polar recentemente descongelado volta à vida e começa a provocar destruição. O mamute, entretanto, é apenas o começo de uma onda de caos liderada pelos Vykoids, um poderoso exército alienígena que mesmo medindo apenas sete centímetros de altura, planeja escravizar toda a população da cidade de Nova York.

Em O Exército Esquecido, Brian Minchin cria uma narrativa bastante ágil, que vai de um ponto a outro com pouquíssimos respiros. O livro entende o absurdo e o potencial cômico da premissa de vilões minúsculos tentando escravizar uma das maiores cidades do mundo, ao mesmo tempo em que consegue manter a ameaça do exército Vykoid minimamente crível e ainda assim divertida, ao dar aos invasores uma tecnologia de distorção temporal que permite que eles se movam extremamente rápido, compensando o seu tamanho diminuto. Além disso, o romance merece crédito por conseguir construir uma atmosfera interessante que explora cenários famosos da cidade de Nova York, ao mesmo tempo em que mexe com a imaginação do leitor ao situar a maior parte da trama em uma noite de blecaute.

Entretanto, O Exército Esquecido falha em dois aspectos cruciais. O primeiro é em apresentar personagens originais minimamente interessantes. Alguns dos integrantes da trama vêm e vão conforme a história precisa deles, além de possuírem arcos narrativos bem mal construídos e encerrados de forma descuidada. O romancista mal parece se incomodar em distinguir o arco de alguns destes personagens, já que tanto Sam Horwitz, cientista responsável por trazer o mamute para Nova York, quanto o Policial Oscar Henderson, que forma uma inusitada parceria com Amy em certo ponto da narrativa, são retratados como dois homens inseguros, que acabam ganhando mais confiança durante a crise.

Mas o grande calcanhar de Aquiles da obra de Brian Michin é a sua total falta de timing cômico, esticando piadas à exaustão, praticamente implorando uma risada do leitor. Se a reação inicial de Amy ao ver os Sykoids (descritos como pequenos ogros) é divertida, logo se torna irritante, perdendo o timing. O mesmo pode ser dito da passagem onde os vilões humilham Oscar usando a sua velocidade para trocar as roupas do policial, vestindo-o com um biquíni, uma fantasia de bailarina e por aí vai, em mais uma piada repetida à exaustão.

A dinâmica do time da TARDIS, por sua vez, é divertida, rendendo as melhores passagens do romance. O Doutor de Matt Smith é perfeitamente traduzido para as páginas, com toda a energia infantil desta encarnação do Time Lord estando presente desde o começo da obra. Por ser um personagem que tende naturalmente para o humor desde a sua concepção, o Décimo Primeiro Doutor acaba se encaixando facilmente na proposta do livro e ganhando alguns momentos brilhantes, como aquele em que convence uma turma de crianças da quarta série a agirem como seus olheiros em Nova York.

Entretanto, a forma como Amy Pond é retratada já é um caso a ser observado com mais atenção. A companion descrita por Brian Minchin possui as características de Amy, sim, mas não com as particularidades concedidas pela atuação de Karen Gillan. Os três primeiros romances estrelados pelo 11º Doutor foram escritos antes de sua estreia na TV, com os autores tendo apenas os roteiros dos três primeiros episódios da 5ª Temporada e um corte preliminar de The Eleventh Hour para basear o seu trabalho. Assim, temos uma Amy que mantém o atrevimento juvenil e quase sexual apresentado pela personagem em suas primeiras aventuras na televisão, mas parece faltar os contornos de vulnerabilidade, que pareciam vir muito mais da interpretação de Gillan do que dos roteiros. Esta diferença torna-se evidente, pois passamos uma grande parte da obra acompanhando Amy tendo que lidar com a ameaça em Nova York sozinha a partir do momento em que o Doutor é sequestrado pelos vilões. A Amy vista aqui ainda é uma companion cativante, mais Minchin parece escrever uma personagem que poderia ter sido Amy Pond, em vez da personagem da TV de fato, embora não possa atribuir isso completamente ao trabalho do autor.

O Exército Esquecido não chega a ser um desastre. É uma leitura rápida e direta, cumprindo o seu objetivo de entreter. Entretanto, o leitor irá perceber a falta de personagens originais mais fortes e a insegurança do autor ao trabalhar com o humor da obra, minando assim a qualidade do gênero. No fim das contas, o romance de Brian Minchin é divertido, mas tão esquecível quanto o exército do título.

Doctor Who: O Exército Esquecido (The Forgotten Army)- Reino Unido, 22 de Abril de 2010
Autor: Brian Minchin
BBC New Series Adventures # 39
Publicação: BBC Books
248 Páginas

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