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Crítica | Big Finish Mensal #47: Omega

por Rafael Lima
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No aniversário de 40 anos de Doctor Who, a Big Finish lançou uma quadrilogia de dramas de áudio focados nos vilões, e na relação de antagonismo que mantém com o Doutor. Os dois primeiros exemplares da série, Omega e Davros, destacam-se justamente por explorarem a psique dos vilões titulo, ambientando as histórias em momentos em que o Doutor está viajando sozinho, podendo assim se concentrar na dinâmica entre o Time Lord e seus inimigos.

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Omega

Equipe: 5º Doutor
Espaço: Setor das Almas Esquecidas, Nave Eurydice.
Tempo: Futuro Distante.

Sempre acreditei que Omega nunca foi um vilão explorado da maneira que deveria em suas participações na TV. Omega, afinal de contas, não é só mais um Time Lord psicótico que cruzou o caminho do Doutor. Ele é aquele que tornou possível a existência dos Time Lords tais como os conhecemos. O fato de o Doutor ter crescido ouvindo histórias sobre Omega cria toda uma mítica em torno do personagem, mítica que pode inclusive não ser real, já que o vilão sempre afirmou que seu povo não foi completamente honesto com ele durante o experimento que deu aos Time Lords o segredo da viagem no tempo, e condenou Omega ao universo de anti matéria. É justamente na oposição existente entre lenda e fato, e no valor de cada um destes fatores que se baseia o roteiro de Nev Fountain.

Na trama situada após Arc Of Infinity, o Quinto Doutor, atendendo um pedido de ajuda telepático, deixa Nyssa e Tegan em Amsterdã cuidando do traumatizado primo desta última, e embarca em um ônibus espacial da Jolly Chronolidays, empresa de turismo que dá á seus clientes encenações realistas de grandes fatos históricos. O ônibus cruza o Setor das Almas Esquecidas, o mesmo lugar onde milhares de anos antes, a nave de Omega desapareceu. O Doutor e os turistas assistem a encenação dos últimos momentos do Time Lord, antes de desaparecer no universo anti matéria. É quando a nave de Omega, a lendária Eurydice, se materializa diante do ônibus. A partir de então, mortes misteriosas começam a acontecer, enquanto o próprio Omega, preso entre o universo de matéria e anti-matéria solicita a ajuda do Doutor para voltar ao universo de anti-matéria. Mas se em sua forma atual, Omega é completamente intangível, quem está matando os passageiros do ônibus?

Se apresentando inicialmente como um thriller de assassinato e isolamento, na linha de E Não Sobrou Nenhum, o roteiro de Fountain começa a expor os temas dos quais quer tratar desde o cenário inicial envolvendo o serviço de turismo da Jolly Chronolidays. A empresa possui a tecnologia de viagem no tempo, mas descobriu que seu público muitas vezes se decepcionavam com os fatos históricos que pagavam pra testemunhar, passando então a investir em encenações. O público parece preferir a lenda aos fatos, o que o roteiro não aponta como algo totalmente negativo, defendendo que lendas têm a sua função, o que se reflete na própria relação entre o Doutor e Omega.

Tendo que trabalhar ao lado do vilão para ajudá-lo a voltar para o universo de anti-matéria, o Doutor e Omega travam um diálogo fantástico sobre como a lenda de Omega inspirou o protagonista a dar início á suas viagens e se tornar quem é, e a ironia do fato de o Doutor ter colaborado para destruir a mesma lenda que o inspirou quando deteve Omega em The Three Doctors, onde Omega deixou de ser visto como um herói e passou a ser visto como um monstro pela história de Gallifrey.
Através de uma série de flashbacks, ficamos conhecendo um pouco mais sobre o passado do vilão do título, desde seus tempos na Academia, onde foi ridicularizado por suas teorias sobre viagem no tempo, passando por sua relação com Rassilon, até a derradeira viagem que permitiu o surgimento dos Time Lords. Entretanto, as memórias de Omega não são confiáveis, o que mais uma vez toca no principal tema do roteiro de Nev Fountain, o passado tal como aconteceu é praticamente inapreensível. Seja uma lenda, um fato histórico, ou mesmo uma memória, algo sempre se perde, o que inclui mesmo a natureza do Doutor e Omega, sendo o primeiro não tão heroico quanto o mito criado em torno dele dá a entender, e o segundo não tão vilanesco quanto a sua fama de monstro vende.

Além de trabalhar bem a dinâmica entre o 5º Doutor e Omega, a trama ainda traz algumas ótimas reviravoltas (do tipo de deixar o publico embasbacado mesmo) que não só surpreendem o ouvinte, mas que conversam diretamente com os temas da história, e ainda soam coerentes com a última aparição de Omega em The Arc Of Infinity. O áudio, entretanto, carece de bons coadjuvantes e, se possui boas reviravoltas, também possui algumas que soam bastante desnecessárias, como aquela que fecha a história.

Omega felizmente tem sucesso naquilo que mais lhe interessa, que é desenvolver melhor o vilão do título, conferindo-lhe humanidade, além de se aprofundar em sua dinâmica com o Doutor. No trabalho de voz, o destaque acaba indo para Peter Davison, que tem a oportunidade de realizar coisas bem interessantes com o Quinto Doutor. Por fim, destaco novamente a boa condução do roteiro de Fountain á respeito da discussão que levanta á respeito de verdade, mito e história. Em resumo, um começo com o pé direito para a quadrilogia sobre vilões da Big Finish.

Omega (Reino Unido, Agosto de 2003)
Direção: Gary Russell
Roteiro: Nev Fountain
Elenco: Peter Davison, Ian Collier, Caroline Munro, Patrick Duggan, Hugo Myatt, Conrad Westmas, Jim Sangster, Faith Kent, Anita Elias, Gary Russell
Duração: 4 episódios de 35 Min.

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