Crítica | Doctor Who: Os Cabeças Redondas, de Mark Gatiss

Equipe: 2º Doutor, Ben, Polly, Jamie
Espaço: Londres. Amsterdã. Navio Teazer. Navio Demeter.
Tempo: 1648

Os arcos históricos em Doctor Who — narrativas situadas no passado, onde os únicos elementos de ficção científica são a TARDIS e seus passageiros — são um gênero basicamente extinto da série. Em seus anos iniciais, essas tramas representaram metade dos arcos transmitidos, e parecia que a tradição seria mantida quando Patrick Troughton substituiu William Hartnell, pois ele ganhou uma aventura histórica já em seu segundo arco, The Highlanders. Mas o que não se sabia é que este seria o último histórico do show, excetuando um breve retorno em Black Orchid, da 19ª Temporada. Desde então, a série foi cancelada e revivida, mas os históricos nunca mais voltaram. O universo expandido seguiu uma lógica semelhante, pois embora seja fácil encontrar livros e áudios que tragam históricos protagonizados pelo 1º Doutor, já que são grandes representantes de sua era, é mais raro encontrar tramas do tipo com os Doutores restantes. Por isso, foi com grata surpresa que comecei a ler Os Cabeças Redondas, de Mark Gatiss, que traz uma trama histórica estrelado justamente pelo time da TARDIS que deu fim a era dos históricos do show.

A trama, situada entre The Macra Terror e The Faceless Ones, tem início em 1648, onde a Inglaterra vive o rescaldo da Guerra Cívil Britânica. Os parlamentaristas de Oliver Cromwell preparam o julgamento (e execução) do Rei Carlos I. É nesse cenário que a TARDIS aterrissa. O Segundo Doutor acredita que será instrutivo para seus companions passar um dia observando a História, mas as coisas saem de controle quando Ben é sequestrado por piratas, Jamie e o Doutor são presos, suspeitos de serem espiões monarquistas, e Polly se vê involuntariamente envolvida em um plano para libertar o rei.

Mark Gatiss foi um dos escritores mais nostálgicos da Nova Série, que apesar de alguns defeitos como roteirista, soube como poucos reproduzir narrativas muito específicas da Série Clássica com uma nova roupagem. Estas características se repetem na literatura, pois Os Cabeças Redondas replica em grande parte a atmosfera e os elementos narrativos dos arcos históricos dos primórdios do show, desde o time da TARDIS involuntariamente botando a História em risco, até os conflitos históricos e as intrigas palacianas que circulavam as figuras centrais destes conflitos.

O romance possui um bom ritmo é é bem estruturado, com os diferentes plots trabalhados pela obra convergindo de modo natural durante o 3º ato. A maneira neutra como Gatiss aborda o conflito entre monarquistas e parlamentaristas é bastante acertada, ao mostrar que nenhum dos lados era formado por bonzinhos ou bichos-papões, e que todos tinham as mãos sujas. O livro conversa de forma adequada com a polarização da sociedade atual, ao mostrar como as divergências políticas podem arruinar as relações interpessoais; o que é simbolizado aqui pelo drama da família Kemp, cujo patriarca monarquista mergulhou no alcoolismo após a morte do filho na guerra, e passou a negligenciar a esposa e a filha ao se voltar totalmente para a política.

A obra possui um elenco de apoio carismático e bem desenvolvido, como a citada Família Kemp, cuja filha Frances vive um romance proibido com um militar Cabeça Redonda (como eram chamados os parlamentaristas, por se recusarem a usarem as perucas típicas da época). Outros personagens, como Scroope, o fedorento limpador de fossa que faz amizade com Jamie e o Doutor e que serve como alívio cômico e a pirata Sal Winter, que desenvolve uma forte relação de companheirismo com Ben, são igualmente dignos de nota. O retrato de figuras histórias como as de Oliver Cromwell e o Rei Carlos I também é excelente por humanizar essas figuras, e ainda mantê-las coerentes com o seu papel histórico.

Embora o retrato do 2º Doutor poderia ser um mais enérgico, é coerente com o personagem da TV, especialmente a partir da segunda metade, quando o Doutor passa a tomar providências para que a História permaneça nos trilhos. A dinâmica de Jamie com o Time Lord também é fielmente replicada, embora o escocês acabe não tendo grande função na trama. Ben e Polly já são melhor servidos, ganhando tramas que permitem que destaquem. Gatiss coloca Ben em uma típica aventura pirata, com direito a noitadas de rum e uma batalha marítima muito bem descrita pelo livro. A trama de Polly, por sua vez, começa com ares cômicos, onde uma série de mal entendidos coloca a jovem no meio da conspiração para libertar o rei, depois que ela é separada de Ben. Mas a jornada da companion passa a ganhar um peso dramático maior quando ela passa a perceber as consequências de suas ações, que levam a sempre otimista personagem a um grande dilema moral. É uma pena, entretanto, que Gatiss apenas arranhe o potencial dramático de certas passagens, parecendo temer deixar o seu livro pesado demais. E é por ficar muitas vezes no meio termo, que Os Cabeças Redondas deixa de ser um excelente livro, pra ser “apenas” bom.

Quando olhamos para os melhores históricos da Série Clássica, percebemos que eram narrativas de extremos; que ou abraçavam o drama pungente de se confrontar a inevitabilidade da História, ou se assumiam como farsas divertidas e descompromissadas. O romance acaba ficando no meio do caminho, nunca se entregando verdadeiramente a um tom. E ainda que o autor tenha conseguido estruturar muito bem todas as linhas narrativas, a trama do Doutor e Jamie no parlamento de Cromwell, tentando recuperar um livro infantil sobre a História da Guerra Civil, enquanto se passam por médiuns, parece ter sido criada apenas para dar algo para a dupla fazer até o retorno de Ben e Polly. Esse segmento mais cômico não seria um problema, mas assim como Gatiss nunca explora de maneira mais profunda o pesado dilema moral em que Polly se encontra, também parece temer utilizar todo o potencial cômico presente no plot do livro infantil.

Os Cabeças Redondas funciona como uma competente homenagem aos saudosos arcos históricos, trazendo uma aventura empolgante, com bons personagens, e que ainda desperta a curiosidade no leitor para saber mais sobre a Guerra Civil Britânica. É um ótimo livro, mas acaba deixando a impressão de que poderia ter sido excelente se Gatiss permitisse que alguns aspectos mais dramáticos (ou cômicos) da narrativa fossem um pouco mais longe.

Doctor Who: Os Cabeças Redondas (The Roundheads)- Reino Unido. 24 de Novembro de 1997
Autor: Mark Gatiss
BBC Past Doctor Adventures # 06
Publicação: BBC Books
282 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.