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Crítica | Doctor Who: Os Conspiradores, de Gareth Roberts

por Rafael Lima
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Equipe: 1º Doutor, Vicki, Ian e Barbara
Espaço: Londres
Tempo: 1605

No início do Século XVII, a Inglaterra passava por um momento de grande tensão social, devido as rivalidades existentes entre os católicos e os protestantes. Essa tensão atingiu o seu ápice em 1605, quando Robert Catesby conspirou para assassinar o Rei James I e toda a câmara dos Lordes, ao explodir o Parlamento em 5 de Novembro, pelas ofensas que o governo teria cometido contra o catolicismo. Ainda que o atentado que ficou conhecido como a Conspiração da Pólvora tenha sido evitado quando Guy Fawkes (o responsável por acender os barris de pólvora sob o parlamento) foi capturado, o evento se tornou um marco da história britânica, com o 5 de Novembro se tornando  um feriado não oficial no país. E é justamente em torno deste evento que gira o romance Os Conspiradores de Gareth Roberts, que  homenageia os arcos históricos da era do Primeiro Doutor.

Na trama, situada entre The Space Museum e The Chase, a TARDIS se materializa na Londres de 1605, após mais uma tentativa fracassada do 1º Doutor de levar Ian e Barbara para casa. Enquanto os professores decidem aproveitar a oportunidade para conhecer a Londres do período, o Doutor afirma que vai permanecer na TARDIS fazendo reparos. Mas o Time Lord na verdade tem outros planos, e juntamente com Vicki, se infiltra na corte do Rei James I para (supostamente) conferir o processo de tradução da Bíblia para o inglês. Entretanto, Ian e Barbara se envolvem acidentalmente com um grupo de católicos com planos explosivos para o parlamento, ao mesmo tempo em que o Doutor e Vicki descobrem que pessoas próximas ao rei estão envolvidas na conspiração.

No prefácio do livro, o autor declara o seu amor pelos arcos históricos da série, mas avisa que se o leitor quer saber mais sobre os fatos em torno da Conspiração da Pólvora, deve fechar o livro e ir ler um livro de História; o que é uma postura honesta, pois embora como nos históricos clássicos, não haja elementos sci-fi, excetuando a TARDIS e seus tripulantes, Roberts toma muitas liberdades em relação aos eventos que giraram em torno da Conspiração, colocando o plano de Guy Fawkes e seus aliados como uma sub-conspiração dentro de uma conspiração ainda maior. De fato, Roberts constrói a narrativa de modo a surpreender o leitor pela subversão total de fatos bem conhecidos, um artifício perigoso, mas que o romancista manipula muito bem.

O autor homenageia os históricos ao evocar elementos dos arcos que trabalharam com o gênero na série. Vicki volta a se disfarçar de menino tal como em The Crusade; a cena onde Barbara é perseguida por um lascivo Imperador Nero em The Romans é reeditada com o Rei James correndo atrás de “Victor” pelos corredores de seu palácio; e é claro, Barbara volta a enfrentar o dilema de reescrever ou não a História que foi o cerne de The Aztecs, o que  funciona como o fecho de um ciclo na jornada dramática da professora. Todas estas homenagens, felizmente, não são gratuitas, desempenhando funções muito claras no livro. Em termos de estrutura, o livro segue o padrão da 2ª Temporada, ao dividir o time da TARDIS em diferentes núcleos, mas Roberts articula estes núcleos de forma a que nenhum soe solto, já que todos se conectam com a linha central da narrativa.

Roberts tensiona alguns relacionamentos vistos na TV, como o do Doutor e Vicki, que tem a sua fé no Time Lord testada, depois que ele abusa da lealdade dela ao ocultar informações importantes, inclusive colocando os seus outros Companions em risco, o que resulta em um momento de rebeldia da menina. O 1º Doutor é bem transposto para as páginas, ainda que a postura irresponsável e até insensível que o Time Lord assume lembra mais o 1º Doutor da 1ª Temporada, do que o Doutor mais protetor e compreensível da 2ª. Barbara, por sua vez, tem em Guy Fawkes o seu único amigo no cativeiro, já que ele se recusa a permitir que ela seja ferida. A relação de confiança que a professora estabelece com Fawkes a coloca sob grande angústia, pois ela conhece o trágico destino dele; em uma subtrama que ilustra o amadurecimento da personagem desde The Aztecs. Por fim, embora o núcleo de Ian seja o menos interessante, está longe de ser ruim, já que os momentos de maior ação se encontram aqui, além de contar com a divertida parceria do professor com dois sapateiros protestantes atrapalhados.

Eu gosto muito da forma como Roberts escolhe trabalhar os personagens históricos da obra. Em sua grande maioria, eles são tratados de forma multifacetada, possuindo grandes virtudes, mas também graves defeitos, algo alcançado também pelo autor evitar uma abordagem maniqueísta das disputas entre católicos e protestantes. Fawkes, por exemplo, pode ser um sujeito essencialmente bom e decente cujas queixas contra o governo parecem muito justas e que salva Barbara de um destino horrível por que é a coisa certa a se fazer, mas como um enciumado Ian a lembra, ele ainda estava disposto a explodir um prédio cheio de gente. Robert Cecil, o brilhante conselheiro do Rei surge como uma figura ainda mais ambígua, já que embora aja sempre com o bem do seu país em mente, seus métodos são no mínimo amorais, especialmente pela visão hostil que tem em relação aos católicos. A rivalidade que o autor estabelece entre Cecil e o Doutor é um dos pontos altos do livro, especialmente devido as constantes provocações que o Time Lord direciona ao conselheiro.

James I, tal como em The Witchfinders com a 13ª Doutora, é construído de forma caricatural, o que não foge muito de como os registros históricos o descreviam, embora o livro retrate o rei mais como um Bon Vivant pouco interessado nos assuntos reais. Tal como na TV, o Rei passa um tempo dando em cima de um Companion, mas se na série, as investidas de James eram respeitosas, aqui a forma como ele aborda “Victor” é mais próxima do assédio, o que é ainda mais incômodo quando colocado no prisma da pedofilia que a obra sugere (o rei diz que seu amante de 21 anos não lhe atrai mais por estar velho demais). Não é que o autor vá longe demais nas descrições ou mesmo que coloque a situação como algo normal, vide a clara inspiração á situação semelhante em The Romans, ainda que naquela história, o roteiro claramente tratava Nero como o vilão, o que não é o caso com James aqui. A ironia da situação, é claro, é que Vicki não é Victor,  mas mesmo tendo em vista a época da trama e o período de publicação, tais trechos podem ser um pouco desconfortáveis. Entretanto, a obra sugere que James, apesar de não ser um estadista, foi de grande importância para que as tensões religiosas não destroçassem a Inglaterra, indicando que James é muito mais esperto do que parece, e que diferente de Cecil ou Fawkes, quer  uma saída pacífica para o conflito.

Roberts apresenta alguns personagens originais muito divertidos, valendo-se da sua sempre confiável habilidade de lidar com a comédia. A já citada dupla de sapateiros que oferece ajuda a Ian para encontrar Barbara traz momentos muito divertidos, assim como Otley e Haldann, dois velhos padres acadêmicos responsáveis pela tradução da Bíblia, que parecem mais interessados em discutir detalhes sem importância de pontos interpretativos da bíblia do que de fato em realizar a tradução. Por fim, o livro entrega um vilão bastante intrigante através do Espanhol, uma figura misteriosa que secretamente está manipulando Cecil e os homens de Catesby para os seus próprios fins. Embora esteja longe de ser um personagem profundo, há uma série de reviravoltas fantásticas em torno do vilão. Reconheço que é daquele tipo ame ou odeie, mas pessoalmente, eu adorei.

Enquanto na TV, geralmente os Históricos transitavam entre tramas satíricas como The Romans e histórias de cunho mais dramático como The Aztecs, Os Conspiradores consegue articular estes dois tons na maior parte do tempo. O romance acaba se inclinando para o espectro mais leve a partir do 3º ato, mas isso ocorre de forma natural, mostrando um autor com o controle do tom de sua narrativa. Outro ponto a favor é que o romancista mantém a obra em constante movimento, surpreendendo o leitor mais de uma vez através de reviravoltas bem inteligentes.

Para aqueles, que como eu, apreciam os Históricos puros, Os Conspiradores é um prato cheio, brincando com habilidade e sem vergonha alguma com os personagens e eventos históricos em torno da Conspiração da Pólvora. Talvez fosse uma história melhor servida com a equipe original da TARDIS, e um pouco mais de tato em torno das lascívias do Rei James não teria feito mal algum também. Mas apesar dos percalços, o romance de Gareth Roberts ainda é uma aventura empolgante cheia de mistério, e é claro, conspirações.

Doctor Who: Os Conspiradores (The Plotters) – Reino Unido. 21 de Novembro de 1996.
Virgin Missing Adventures # 28
Autor: Gareth Roberts
Publicação Original: Virgin Books
275 Páginas

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