Crítica | Doctor Who: Os Últimos Dias, de Lance Parkins

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Equipe: 8º Doutor, Bernice, Brigadeiro Lethbridge Stewart.
Espaço: Inglaterra
Tempo: 1997

Durante a primeira metade dos anos 90, Doctor Who estava longe de ressurgir na TV, e a Big Finish ainda não tinha dado início aos seus bem-sucedidos audiodramas. Assim, os livros da Editora Virgin se tornaram a casa da série, com noventa e cinco romances tendo sido publicados de 1991 a 1997. Mas com o lançamento de Doctor Who: The Movie em uma tentativa de revitalizar a série, a BBC optou por passar a publicar ela mesma as novas aventuras literárias do Doutor, não renovando a licença da Virgin.

A Virgin, entretanto, ainda tinha direito a um ultimo romance, que foi usado para apresentar a primeira e última aventura do Oitavo Doutor no selo New Adventures. O escolhido para escrever a derradeira NA foi Lance Parkins, que teve que trabalhar com uma série de demandas. O livro precisava funcionar como uma apresentação para o 8º Doutor, uma última homenagem aos anos de DW na Virgin, e como uma espécie de Backdoor Pilot para os livros solo da ex-companion Bernice Summerfield. Parkins conseguiu cumprir esses objetivos com relativo sucesso, entregando uma aventura simples, de caráter grandioso, mas que contém sua cota de equívocos.

A trama começa em 1997, com Bernice na Mansão do Doutor, em Kent, após ter se divorciado. A arqueóloga espera a chegada do 7º Doutor, mas quem materializa a TARDIS nos jardins da mansão é um Doutor bem diferente. Enquanto Benny tenta se acostumar à nova persona de seu velho amigo, um astronauta acusado de assassinato trinta anos antes escapa da custódia e, uma missão espacial britânica, se prepara para aterrissar em Marte. Quando algo dá errado durante a missão, o Time Lord percebe a existência de uma conspiração que visa tomar o controle da Inglaterra, ao mesmo tempo em que põe em risco todo o planeta.

Os Últimos Dias traz um cenário comum para quem conheceu Doctor Who pela Nova Série, com uma invasão alienígena nos dias atuais, capitaneada por vilões clássicos (aqui, os Ice Warriors), que expõe (por um curto período) a existência de vida extraterrestre para o mundo. A diferença é que o ataque dos marcianos é mais um golpe de Estado articulado do que uma invasão bélica. Durante a maior parte do tempo, o autor conduz a trama como um thriller político, onde a nave marciana pairando sobre Londres é só mais uma peça de uma conspiração arquitetada por humanos e marcianos.

Um mérito do autor é a forma como ele introduz o então novo Doutor com todas as suas particularidades, ao mesmo tempo em que paga tributo ao Time Lord de Silvester McCoy (algo em que o filme falhou miseravelmente), atingindo esse equilíbrio ao dar foco ao ponto de vista de Bernice. A arqueóloga demora a se habituar ao mais alegre e passional 8º Doutor, que é um grande contraste em relação ao Time Lord mais cínico e reservado ao qual ela estava acostumada. Acertadamente, o autor retrata Benny guardando certo luto pelo 7º Doutor, pois mesmo sabendo que o Gallifreyano está vivo, o seu Doutor se foi. Nesse sentido, o livro funciona quase como uma reapresentação do Doutor de McGann, sendo muito bem sucedido nesse intento, já que á medida em que o personagem vai recuperando a confiança de sua antiga companion, também conquista a simpatia do leitor.

Ao configurar o romance como um thriller de espionagem, a presença da UNIT tornou-se quase obrigatória. O Brigadeiro Lethbridge Stewart é muito bem utilizado, com a amizade e a lealdade existente entre ele e o Doutor sendo perfeitamente transmitidas pelo autor. Quanto aos vilões, os Ice Warriors desempenham bem o papel de antagonismo, mas quem realmente desperta o ódio do leitor são os vilões humanos, encabeçados pelo manipulador Lord Greyhaven.

Parkins constrói bem a progressão narrativa de seu livro, que se inicia fortemente aterrada na realidade, com conspirações políticas ocorrendo nos bastidores da missão britânica a marte, para então ampliar o escopo para uma ficção científica mais tradicional com a presença dos marcianos depois do primeiro terço da obra. Por fim, o autor beira o Sci-Fi nonsense, no momento em que traz um Ice Warrior sendo coroado como Rei da Inglaterra, em uma passagem que reconhece o absurdo da situação, tratando-a com um humor sutil, que não arranca o leitor da imersão da narrativa.

O autor, porém, exagera na quantidade de núcleos do romance. Lex Christian, o astronauta fugitivo que teria matado a sua tripulação no passado, tem certa importância no começo da obra, já que é ele quem trás o Doutor e o Brigadeiro para a trama, mas é esquecido á certa altura da narrativa, reaparecendo no clímax de forma apressada, como se só então, Parkins tivesse se lembrado de escrevê-lo. Algo pior ocorre com o núcleo envolvendo um grupo de Hackers que investigam a história da UNIT, mas que não possuem importância alguma na história, ganhando uma desnecessária participação no 3º ato que em nada acrescenta ao desenvolvimento prático ou dramático do enredo. Há ainda uma equivocada troca no estilo da prosa, que passa a adotar o formato de diário nas passagens protagonizadas por Bernice no momento em que o Doutor é dado como morto, e a arqueóloga assume o protagonismo do livro. Essa decisão não só surge de forma mal encaixada, por atrapalhar a coesão da obra, mas também desnecessária, pois reforça didaticamente o que já estava claro na prosa em 3ª pessoa, o ponto de vista de Bernice.

Apesar desses deslizes, Os Últimos Dias fecha com dignidade a era Virgin para Doctor Who, com uma aventura empolgante que lança sutis homenagens à jornada do Doutor na Editora, sem alienar o leitor casual, e que ainda faz a passagem de bastão para Bernice como a nova protagonista das New Adventures de forma elegante. Está longe de ser uma obra-prima de DW, mas é uma aventura de apresentação e transição do Oitavo Doutor infinitamente mais competente do que o filme de 1996, encerrando um importante capítulo da história da série.

Doctor Who: Os Últimos Dias (The Dying Days)- Reino Unido, 18 de Abril de 1997.
Autor: Lance Parkins.
Editora: Virgin.
Virgin New Adventures # 61
298 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.