Crítica | Doctor Who: Scratchman, de Tom Baker e James Goss

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Em 28 de dezembro de 1974, Tom Baker fez a sua estreia oficial em Doctor Who, no arco Robot. Ao longo de sua temporada de estreia (a 12ª da Série Clássica) ele e o ator e escritor Ian Marter — que interpretava o Doutor Harry Sullivan — planejaram o roteiro de um filme que nunca iria acontecer: Doctor Who Meets Scratchman. A ideia, segundo reportagem da Doctor Who Magazine publicada quase 40 anos depois de concebido o primeiro tratamento desse roteiro, era levar aos cinemas algo diferente de Dr. Who e a Guerra dos Daleks (1965), filme com Peter Cushing que deu o pontapé inicial às produções whovians nos cinemas. O roteiro inicial também tinha James Hill como colaborador e Vincent Price cotado para interpretar o vilão. A grande questão aí é que Tom Baker fazia parte do time de roteiristas. E com Tom Baker escrevendo… bem, era mais do que óbvio que o projeto não iria para frente.

Performando de maneira gloriosa o renegado de Gallifrey, Tom Baker foi o rosto da fase de maior sucesso da Série Clássica, tempo onde se combinaram grandes roteiros, um Doutor maluco, cativante e que sempre trazia algo novo para o personagem, sem falar nos bons companions. A questão é que tudo isso tinha um “preço”. Baker defendia com unhas e dentes as maluquices de sua encarnação para o Time Lord, mesmo que tivesse que brigar, gritar, jogar objetos e bater o pé diante de diretores, fotógrafos, escritores… não importava. A cada novo episódio ele inventada um gesto diferente, um maneirismo estranho, um olhar, uma caminhada para o lado (diferente do que tinha sido estabelecido pelo diretor)… os relatos de que ele ele era “impossível nos sets” são muitos. Mas foi justamente essa obstinação maluca do ator que fez com que a sua versão do Doutor fosse tão incrível e durasse tanto tempo. Aquila grandeza que vemos na tela era também uma batalha nos bastidores para que saísse daquele jeito. Sim, Tom Baker foi o maior responsável pela configuração do 4º Doutor como… “O” 4º Doutor.

Lançado pela BBC Books em 24 de janeiro de 2019, Scratchman é a versão novelizada do roteiro dos anos 70. Escrito por Tom Baker e James Goss, o livro é uma aventura do 4º Doutor ao lado de Harry e Sarah Jane Smith, que começa com uma tentativa de fazer um piquenique e descansar mas termina… bem… em vários lugares. O difícil de escrever sobre esse livro é justamente a enorme quantidade de surpresas que ele tem e eu jamais estragaria as maravilhosas coisas que a obra traz para o público. Aqui, trabalharei totalmente sem spoilers, com informações da sinopse e com elementos narrativos gerais, diante dos quais eu possa construir uma rápida argumentação e dizer o porquê, para mim, este livro foi uma experiência divertidíssima.

Algo que eu posso contar é que o Doutor está (de novo!) em julgamento. Entretanto, isso é apenas uma linha de conexão entre os dois grandes blocos em que o livro se divide, ou seja, uma ponte eficiente que, exceto pela parte final, funciona que é uma beleza. Aliás, as falas do Doutor para os Time Lords durante esse julgamento são incríveis. Existem momentos profundos, de grande enfrentamento, de ironia, de cinismo, de comportamento de “gente que gosta de provocar“, algo que eu me regozijei lendo. Meu lamento vem apenas pelo final, porque o julgamento se encerra de uma maneira que não faz jus à forma como foi desenvolvido, o que nos frustra um pouco. Por outro lado, a narrativa em primeira pessoa e as quebras (moderadas ou intensas) de quarta parede ajudam a gente a passar de maneira mais fácil por esse tropeço, o mesmo valendo para três outros momentos da obra: o desenvolvimento de parte da primeira metade (tem horas que é chato demais acompanhar toda a ambientação macabra), a passagem do chocante miolo para o segundo bloco e os “pingos nos is” que os autores colocam, gastando tempo demais com personagens que a gente já nem se lembrava mais. Só uma confirmação do que já havia ficado parcialmente estabelecido na Fase 1 poderia funcionar para encerrar o ciclo, não era necessário toda uma “nova abordagem” para os “pobres habitantes da ilha”, por exemplo.

O leitor irá fazer aqui algumas relações com Human Nature (principalmente na primeira parte, com os espantalhos zumbis), mas em pouco tempo perceberá que Scratchman é um livro sobre o medo e, em última instância, um livro sobre a natureza íntima de todo ser inteligente diante de algo que desconhece. Um longo teste de reações em extremos e ameaças, por assim dizer. Dessa forma, a leitura nos parecerá um tsunami de emoções: há passagens imensamente engraçadas; passagens que nos deixam com (mais!) raiva dos Time Lords; que nos fazem admirar (mais!) o Doutor e Sarah — eu colocaria Harry, mas eu não o admirava antes, só passei a admirá-lo aqui –; que nos fazem ter um pouquinho de medo; que nos imprimem algumas caretas diante da violência detalhada em determinadas páginas; que nos deixam de boca aberta pela revelação de QUEM são algumas pessoas e de ONDE o Doutor realmente está. E acreditem: ele está em muitos lugares aqui. A estadia numa ilha remota da Escócia, no começo do livro, é só a primeira parada.

Criativo, divertido e reflexivo também, Scratchman está localizado entre os arcos The Android InvasionThe Brain of Morbius, trazendo ainda um posfácio que está localizado imediatamente após The Masque of Mandragora. De muitas formas, o final nos surpreende. Primeiro, existem alguns incômodos no desfecho de alguns personagens e “passagens entre lugares”, mas o que realmente chama a atenção é a parte boa, com mais algumas quebras de quarta parede e uma certa “nota realista” que me fez lacrimejar um pouco mais do que deveria… Pela fama caótica de Tom Baker, eu confesso que esperava bem pouco desse livro. Imaginava que seria uma aventura cheia de boas referências, mas muito confusa e muito maluca. Em partes, eu não estava errado. O livro tem sim os seus momentos de confusão e é inteiramente maluco, mas o maluco bom, aquele maluco que a gente lê, fica surpreso, ri, faz cara de nojo, sua e termina pensando: isso é simplesmente sensacional! Como é bom se fã de Doctor Who!

  • Aqui, um vídeo promocional do Doutor-Autor em pessoa lendo um trechinho do livro… Divirtam-se. 

Doctor Who: Scratchman (Reino Unido, 24 de janeiro de 2019)
Autores: Tom Baker, James Goss
Editora original: BBC Books
352 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.