Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Doctor Who and the Silurians (Arco #52)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Doctor Who and the Silurians (Arco #52)

por Luiz Santiago
113 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Equipe: 3º Doutor, Liz (+ UNIT e Brigadeiro Lethbridge-Stewart)
Era: UNIT — Ano 2
Espaço: Centro de Pesquisas Nucleares, Wenley Moor, Condado de Derbyshire (Inglaterra)
Tempo: Anos 70
.
Doctor Who and the Silurians, segundo arco da 7ª Temporada clássica de Doctor Who e também o segundo arco estrelando o 3º Doutor, apresenta um novo vilão para a galeria da série (os Silurians do título) e traz Bessie, o calhambeque amarelo, pela primeira primeira vez. Com uma trama ameaçadora e grande exploração de questões científicas, o arco chama atenção pelo caráter cinematográfico em termos narrativos e por uma escolha que caracteriza a fase do novo Doutor, que é o uso da violência e grande número de mortes.

Diferente de Spearhead From Space, onde, apesar de uma história tenebrosa o humor se fazia presente, não há riso nessa história dos Silurians. Aliás, o genuíno alívio cômico vem apenas no início do Episódio 1, quando o Doutor está fazendo reparos em Bessie e musicalizando a primeira estrofe do poema Jaguardarte, de Lewis Carroll:

Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

Depois desse momento, a investigação no Centro de Pesquisas Nucleares em Wenley Moor é iniciada e toda a história vai se tornando cada vez mais séria, até chegar ao ponto em que uma epidemia criada pelos cientistas silurianos (sim, temos uma guerra biológica!) afeta os humanos e as pessoas começam a adoecer e morrer em grande quantidade. É simplesmente aterrador. Malcolm Hulke constrói a percepção de perigo constante e paranoia e não se furta em trazer discussões morais para os dois lados em conflito, ou seja, da mesma forma que existem humanos bons e ruins, também existiam silurians bons e ruins. Todavia, o término da aventura deixa claro que certas atitudes nunca mudam. Novamente, um conceito aterrador para uma série familiar cujo público-alvo eram crianças e adolescentes.

O local dos eventos é basicamente a região de Wenley Moor e a trama acontece em parte nas cavernas onde os Silurians estão e em parte na superfície. O encadeamento dos fatos é bastante modulado no início do arco, mas nos episódios 3, 4 e 5 há um número muito grande de cenas inúteis e enrolações que não beneficiam em nada a história. Talvez a necessidade de ter que fazer o enredo durar 7 episódios tenha obrigado Malcolm Hulke a fazer diversos jogos de gato e rato ou de teimosia e encontros/desencontros entre os personagens. Em parte, essas idas e vindas possuem algum charme, mas na maioria das vezes são irritantes.

No entanto, o verdadeiro ponto fraco está no desenvolvimento dos vilões, e com isso não estou trazendo à tona os itens de produção (efeitos visuais e especiais). Coisas como a quantidade de espécimes, o inútil e inexplicável dinossauro e a junção entre a “história dos silurians” e a dos humanos são a pedra no sapato do roteiro. Nesse ponto, a salvação está na potente ameaça da doença e na curiosidade que o espectador tem de descobrir o que será feito deste ou daquele personagem, ou que rumo a história irá tomar.

Há uma curiosa e interessante exploração do relacionamento entre o Doutor e o Brigadeiro Lethbridge-Stewart, algo entre a amizade e a birra que é simplesmente adorável. Também a presença de Liz ganha destaque, especialmente porque a personagem foi inserida na trama como uma espécie de Zoe, especialista em algo e não apenas acompanhante observadora do Doutor.

Apesar dos tropeços na construção dos bad guys e a já comum (porém charmosa) bizarrice dos efeitos e vilões da série clássica — a roupa dos Silurians é risível, assim como o sensor que eles possuem no alto da cabeça; mas a máscara é muito boa — o arco tem sua graça e traz bons momentos para o público, além de um final extremamente crítico e que nos faz perguntar como fica a relação entre o Doutor e o Brigadeiro depois de todas aquelas explosões nas cavernas silurianas.

NOTA 1: Em uma linha do tempo paralela, apresentada em Blood Heat, livro de Jim Mortimore, lançado pela Virgin Books em 1993, o Doutor é capturado e morto pelos Silurians antes que conseguisse encontrar um antídoto para a praga. Milhões de pessoas morreram ao redor do mundo. Esse período ficou conhecido como “o Pesadelo”.

NOTA 2: Não dê muita atenção à veracidade geológica e nem tente classificar os Silurians na linha das eras geológicas da Terra porque simplesmente irá enlouquecer. Veja o pequeno esquema abaixo:

  • O nome “Silurians” implica que eles são do Período Siluriano ou Silúrico (443 milhões a cerca de 418 milhões de anos atrás), o que é impossível, já que a única vida animal que tínhamos nesse período era, basicamente, as primeiras formas de anfíbios.
  • Em The Sea Devils, o Doutor fala que eles provavelmente deveriam ser do Período Eoceno, o que de certa forma é uma data aceitável, se bem que os primatas que surgiram no final desse período não são em nada parecidos com o que os Silurians poderiam chamar de “macacos”. Também tem o problema do dinossauro, que a esta época já estavam extintos a milhões de anos.
  • O mapa da Pangeia que os Silurians mostram nesse arco é o formato que o supercontinente tinha há 200 milhões de anos, ou seja, no Período Triássico, exatamente no meio entre o Silúrico e o Eoceno. Nada combina. Como disse, não tentem classificar essa espécie de forma correta pela Paleontologia porque não dá.

NOTA 3: Os Silurinas também são chamados na série de Eocenes (olha aí o Período Eoceno de novo!); Homo Reptilia (para serem chamados de “Homo”, eles deveriam ser, pelo menos, do Período Plioceno); Earth Reptiles (bem genérico e funcional, não?); Lizard Men e, por último e não menos complicado, Psionosauropodomorpha.

Doctor Who and the Silurians (Arco #52) — 7ª Temporada
Direção: Timothy Combe
Roteiro: Malcolm Hulke
Elenco: Jon Pertwee, Caroline John, Nicholas Courtney, Fulton Mackay, Geoffrey Palmer, Peter Miles

Audiência média: 7,71 milhões

7 episódios (exibidos entre 31 de janeiro a 14 de março de 1970)

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11 comentários

Rafael Lima 9 de fevereiro de 2017 - 10:12

Acho este arco fantástico. Sim, ele decididamente não precisava ter inacreditáveis sete episódios. E as fantasias e vozes dos Silurianos exigirem muita suspensão de descrença, isso pra não falar do dinossauro.

Mas como você bem disse na resenha, todo o dilema moral levantado pelo arco é muito bem conduzido, e é digno de nota tamém a busca por relativizar os dois lados do conflito, e o clima de suspense construído. Pra não falar naquele final absolutamente pessimista. O olhar de decepção no rosto do Doutor é de dar um aperto no peito. E o pior é que nem dá pra condenar o Brigadeiro completamente pela sua atitude.

No final, é um arco bastante importante, não só por introduzir os Silurianos, mas por marcar de certa forma uma grande derrota para o Doutor, que voltaria para assombra-lo de tempos em tempos

Engraçado que enquanto a maioria das das encarnações do Doutor tornam-se mais sombrios ou tem aventuras mais sombrias no final de suas respectivas eras, o Terceiro Doutor parece ter seguido o caminho oposto, e as histórias mais tensas se encontram justamente neste início do mandato de John Pertwee.. Afinal, aqui o 3º Doutor ainda está muito amargurado com o seu exílio, e bastante impaciente com os humanos.

Se não me engano, embora hoje seja aclamada pela crítica, essa temporada mais sombria não foi muito bem recebida na época, certo? Tanto que suavizaram MUITO o tom na temporada seguinte (que eu também adoro).

Responder
Rafael Lima 9 de fevereiro de 2017 - 10:12

Acho este arco fantástico. Sim, ele decididamente não precisava ter inacreditáveis sete episódios. E as fantasias e vozes dos Silurianos exigirem muita suspensão de descrença, isso pra não falar do dinossauro.

Mas como você bem disse na resenha, todo o dilema moral levantado pelo arco é muito bem conduzido, e é digno de nota tamém a busca por relativizar os dois lados do conflito, e o clima de suspense construído. Pra não falar naquele final absolutamente pessimista. O olhar de decepção no rosto do Doutor é de dar um aperto no peito. E o pior é que nem dá pra condenar o Brigadeiro completamente pela sua atitude.

No final, é um arco bastante importante, não só por introduzir os Silurianos, mas por marcar de certa forma uma grande derrota para o Doutor, que voltaria para assombra-lo de tempos em tempos

Engraçado que enquanto a maioria das das encarnações do Doutor tornam-se mais sombrios ou tem aventuras mais sombrias no final de suas respectivas eras, o Terceiro Doutor parece ter seguido o caminho oposto, e as histórias mais tensas se encontram justamente neste início do mandato de John Pertwee.. Afinal, aqui o 3º Doutor ainda está muito amargurado com o seu exílio, e bastante impaciente com os humanos.

Se não me engano, embora hoje seja aclamada pela crítica, essa temporada mais sombria não foi muito bem recebida na época, certo? Tanto que suavizaram MUITO o tom na temporada seguinte (que eu também adoro).

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Luiz Santiago 9 de fevereiro de 2017 - 20:10

É sempre aquela história da violência que o púbico de cada época reclama por motivos de… tradição. Acho que várias fases de DW acabaram sendo marcadas por esse reflexo social.

E cara, a tristeza do Doutor é mesmo de doer. A forma como essa arco termina é uma pequena lição de guerra e tem uma baita mensagem por trás. Mesmo com todos os impasses, uma baita aventura.

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Carlindo José 8 de outubro de 2016 - 17:23

Outro arco bastante divertido, todos esses conceitos como Guerra Biológica e o Dilema moral, algo bem pesado numa série voltada pra crianças, que permeia bastante a série atual me fizeram gostar muito dele, embora realmente tenha um roteiro bastante arrastado que chega a cansar em alguns momentos. Sobre a caracterização dos vilões, nem tem muito o que comentar, são coisas da série clássica, mas não deixa de ser uma marca bem divertida da série.

Todos os personagens tiveram uma melhora neste arco, as relações se aprofundaram e deu pra sentir mais entrosamento entre os protagonistas, o Doutor foi muito bem, embora eu tenha estranhado o tom bem mais sério que o arco assumiu, sem muitas piadas e brincadeiras, que era sempre perceptível na era do 2° Doutor e até na do 1°. Só posso dizer que meio que concordei com a ação do Brigadeiro, ainda que tenha sido cruel, foi uma medida de segurança contra aqueles Silurians que tentaram exterminar a humanidade.

Cara, você pensou exatamente no que eu pensei, gosto bastante de Paleontologia e fiquei muito confuso com as informações dos Silurianos sobre si mesmos, é algo que não faz o menor sentido, decidi relevar tudo e só me divertir, não queria parecer chato criticando o arco por isso, mas bem que eles poderiam ter consultado um geólogo ou biólogo na hora de produzir a história.

Responder
Luiz Santiago 8 de outubro de 2016 - 19:59

Essa era do 3º Doutor é muito marcada pela seriedade das tramas. Espere só até chegar em Inferno.

Eu gosto desse novo rumo, sabe. É a cara das tramas de ficção científica na década de 70. Não que não haja mais em DW alguma pegada de humor. Você vai ver que isso existe sim. Mas serão bem menos do que na era do 2º.

Eu fiquei loucão quando começaram a sugerir a classificação dos Silurians. Também resolvi ignorar tudo e só me divertir. hahahahhahah

Responder
Luiz Santiago 8 de outubro de 2016 - 19:59

Essa era do 3º Doutor é muito marcada pela seriedade das tramas. Espere só até chegar em Inferno.

Eu gosto desse novo rumo, sabe. É a cara das tramas de ficção científica na década de 70. Não que não haja mais em DW alguma pegada de humor. Você vai ver que isso existe sim. Mas serão bem menos do que na era do 2º.

Eu fiquei loucão quando começaram a sugerir a classificação dos Silurians. Também resolvi ignorar tudo e só me divertir. hahahahhahah

Responder
Carlindo José 8 de outubro de 2016 - 17:23

Outro arco bastante divertido, todos esses conceitos como Guerra Biológica e o Dilema moral, algo bem pesado numa série voltada pra crianças, que permeia bastante a série atual me fizeram gostar muito dele, embora realmente tenha um roteiro bastante arrastado que chega a cansar em alguns momentos. Sobre a caracterização dos vilões, nem tem muito o que comentar, são coisas da série clássica, mas não deixa de ser uma marca bem divertida da série.

Todos os personagens tiveram uma melhora neste arco, as relações se aprofundaram e deu pra sentir mais entrosamento entre os protagonistas, o Doutor foi muito bem, embora eu tenha estranhado o tom bem mais sério que o arco assumiu, sem muitas piadas e brincadeiras, que era sempre perceptível na era do 2° Doutor e até na do 1°. Só posso dizer que meio que concordei com a ação do Brigadeiro, ainda que tenha sido cruel, foi uma medida de segurança contra aqueles Silurians que tentaram exterminar a humanidade.

Cara, você pensou exatamente no que eu pensei, gosto bastante de Paleontologia e fiquei muito confuso com as informações dos Silurianos sobre si mesmos, é algo que não faz o menor sentido, decidi relevar tudo e só me divertir, não queria parecer chato criticando o arco por isso, mas bem que eles poderiam ter consultado um geólogo ou biólogo na hora de produzir a história.

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André Moura 7 de março de 2015 - 13:45

Luiz,Tá sabendo que o Terceiro vai ganhar série própria na Big Finish? E meus párabens ótima crítica.

Responder
Luiz Santiago 7 de março de 2015 - 16:05

Sim, sim, estou sabendo! Vai sair no segundo semestre. Vi o anúncio pela página da BF no meio da semana. Fiquei mega feliz!.

Fico feliz que tenha gostado da crítica!

Responder
Augusto 7 de março de 2015 - 13:29

Esse arco é muito bom, eu daria meia estrela a mais, mas eu concordo que é um pouco cansativo, podiam ter diminuido o número de episódios, mesmo assim a guerra biológica e o final são muito bons (além do Pertwee e do Brigadeiro, claro).

Sobre a Liz, eu acho ela uma Zoe melhorada, a Zoe era muito legal, mas a Liz é incrível, de igual pra igual com o Doutor (a Zoe também era, mas o Jamie ofuscava ela um pouco, na verdade eu simplesmente gosto mais da Liz, com gosto mais do Pertwee em relação ao Throughton, hehehe).

Eu só uma pena que mais pra frente todos os outros episódios com os Silurians são ruins (além do arco com os Sea Devils, que não é ruim, mas é uma cópia desse aqui só que com o Mestre).

Só mais duas coisas, parabéns pelas imagens escolhidas para ilustrar as críticas, elas são lindas, e o pessoal de Doctor Who nessa época tinha vários problemas com tempo, né? Primeiro a UNIT e agora esse aqui, eles tinham que chamar o Doutor pra ajudar.

Responder
Luiz Santiago 7 de março de 2015 - 16:16

Desta temporada, eu achei o mais fraco, mas isso não quer dizer que ele é ruim. É muito bom sim. Mas em comparação aos outros 3, achei menos interessante.

Sobre a Liz, eu gosto tanto dela! Juro que fiquei chateado quando comecei a 8ª Temporada e ela não estava lá! Foi bem triste.

Eu vi os Sea Devils recentemente. Achei melhor trabalhado em termos de dinâmica de roteiro, mas é bem isso mesmo, é uma cópia desse roteiro, só que com o Mestre…

Que bom que está curtindo as imagens!

E sobre a questão dos roteiros e coisas relacionadas ao tempo, é engraçao como isso aparece na série. Pra falar a verdade, só vejo uma REAL preocupação com cronologias na Nova Série. De forma sutil, ela começou a aparecer no fim da era do 2º Doutor, mas isso não impediu de um montãoooooo de coisas desencontradas no meio do caminho!

Abraços! E semana que vem tem Ambassadors!

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