Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Inferno (Arco #54)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Inferno (Arco #54)

por Luiz Santiago
164 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

__ I keep telling you, Brigade Leader, I don’t exist here!

__ Then you won’t feel the bullets when we shoot you.
.

Equipe: 3º Doutor, Liz (+ UNIT, Brigadeiro Lethbridge-Stewart e Sargento Benton)
Era: UNIT — Ano 2
Espaço: Reino Unido / Terra paralela
Tempo: Anos 1970
.
Inferno finaliza a excelente 7ª Temporada Clássica de Doctor Who, trazendo também a triste saída de Caroline John do elenco da série, infelizmente, sem a necessária despedida que a personagem deveria e merecia ter tido. Aliás, o público sequer tinha ideia de que Liz Shaw não seria mais companion. Apenas o aparecimento de Jo Grant em Terror of the Autons e algumas colocações posteriores sobre o destino de Liz trariam a triste constatação. Embora a saída dela (que deixou o Doutor porque perdeu o interesse pelo tipo de trabalho que ela tinha ao lado dele e voltou para suas pesquisas em Cambridge) não tenha sido ingrata como foi a de Dodo em The War Machines, o público realmente lamenta que a oficialização, o abraço, a conversa sobre a partida não tenham acontecido.

O lado bom da coisa é que Inferno é uma excelente história e Caroline John interpreta dois ótimos papeis. Em um, ela é a Liz Shaw que conhecemos, cientista e companion do Doutor. Em outro, ela é oficial de um governo “fascista e republicano” instalado em 1943 no Reino Unido e que assassinou toda a família real para se estabelecer no poder. Ver personagens tão humanos como Liz e o Brigadeiro (este, sem bigode, com uma grande cicatriz e um tapa-olho) atuarem como militares burocratas e “cegos” a serviço de um governo ditatorial é um verdadeiro atrativo e um ótimo exercício dramatúrgico para os atores envolvidos.

O roteiro de Inferno foi escrito por Don Houghton (que voltaria à série em The Mind of Evil), e traz mais uma uma linha de acontecimentos cujo motor é uma empresa cujo objetivo é conseguir fornecer energia barata para as ilhas britânicas. Já tínhamos visto esse mote em Doctor Who and the Silurians, com a exploração de energia atômica; e agora, com a tentativa de perfurar a crosta terrestre e ter acesso a um cinturão de gás preservado desde as primeiras eras geológicas do planeta.

O que mais chama atenção em Inferno não é a presença de uma ameaça alienígena. Existe sim uma substância gosmenta e verde (sempre verde!) que escapa de um dos canos da principal broca de perfuração e contamina qualquer pessoa que a toca, transformando-a em um Primord (humanoides criados por tocar na substância conhecida como Lodo de Stahlman). No entanto, a ameaça não está em cena o tempo inteiro. Alguns funcionários do ‘Inferno Project‘ são contaminados e assumem o fator de ameaça-monstro da aventura, mas o texto de Houghton coloca maior peso em outro núcleo dramático, o fator geológico, que poderá trazer o fim da humanidade. Plenamente científico e plenamente possível.

Assim como em The Ambassadors of Death, existe ação o tempo inteiro e, nesse caso, eu diria que a ação aqui é ainda maior. Existem uma série de coisas acontecendo ao mesmo tempo e o espectador tem uma boa dose de surpresas em cada um desses eventos. Há o Doutor com o console da TARDIS fora da nave –- como ele conseguiu tirar o console de lá é outra história –-, trabalhando em testes num lugar próximo às instalações do “Projeto Inferno”; a ameaça apocalíptica relacionada à perfuração da crosta; a contaminação e a realidade paralela com todo o seu caráter político e danação iminente. O espectador praticamente não consegue piscar ou respirar direito durante 7 episódios.

As locações em externas voltam a impressionar e ressaltam o realismo da história. Até os efeitos especiais são interessantes, especialmente o fatal destino da Terra paralela, cujo tratamento estético é exemplar: quando a situação alcança um ponto crítico, há saturação de cor e filtro amarelo na fotografia para as tomadas externas, dando a inquietante sensação de calor (o espectador realmente é convencido de que aquele lugar está um inferno) e o cataclísmico avanço da lava em direção ao galpão onde o Doutor está com alguns indivíduos desse mundo paralelo, em torno da TARDIS e Bessie, esperando o fim. Aquela é certamente uma das cenas mais marcantes da série – Clássica ou Nova – porque, além de muito bem feita, teve uma preparação dramática tremenda e conseguiu nos mostrar a amedrontadora possibilidade de destruição do planeta (o paralelo imediato que vem à mente é dos filmes O Núcleo, O Inferno de Dante, ou, num ramo sci-fi espacial, Melancolia).

O final do arco tem um amigável tom de humor e birra, ingrediente principal da relação entre o Brigadeiro e o Doutor. O espectador ri com muito gosto da situação e se sente aliviado pelo tom cômico após a densidade mortal que acompanhou durante sete episódios. A 7ª Temporada termina com um lamento, claro (a saída sem despedida de Liz), mas termina muitíssimo bem, em um dos melhores arcos que eu já tive o prazer de assistir em Doctor Who.

Inferno (Arco #54) — 7ª Temporada
Direção: Douglas Camfield
Roteiro: Don Houghton
Elenco: Jon Pertwee, Caroline John, Nicholas Courtney, Olaf Pooley, Christopher Benjamin, Derek Newark, John Levene, Sheila Dunn

Audiência média: 5,71 milhões

7 episódios (exibidos entre 09 de maio a 20 de junho de 1970)

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18 comentários

Bruno 3 de abril de 2020 - 21:57

Adorei esse arco! Tão bom quanto o primeiro da temporada! Teve treta da atriz, por isso a Liz saiu sem se despedir, ou as coisas ainda eram meio loucas em relação ao elenco da série, como nos anos 60?

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de abril de 2020 - 22:47

O culpado disso é o Barry Letts, que assinava a produção da série na época. Ele achava a Liz “inteligente demais para estar ao lado do Doutor” e aí não renovou o contrato com a atriz para outra temporada. É machismo que fala, né?

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Bruno 4 de abril de 2020 - 10:04

Nossa, que merda! Assisti o primeiro arco da oitava e já vi que Jo é bem diferente da Liz, e não curti haha, muito bobinha. E ah, adorei a estreia do Mestre na série.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de abril de 2020 - 15:28

Eu gosto da Jo, acho ela muito fofa. Mas é verdade: é imensamente diferente da Liz. Choque real.

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Luiz Santiago 11 de julho de 2017 - 19:38

Concordamos em tudo em relação a esses episódios e essa temporada. Também acho que esta é a melhor temporada da Clássica, mas eu ainda tenho a desvantagem de ainda estar vendo os arcos do 7º Doutor, então talvez venha algo por aí, vai saber… De qualquer forma, Inferno é, sem dúvidas, um dos meus arcos favoritos, não só da Clássica mas de toda a série mesmo.

E assim como você eu lamento por esta saída da Liz. Muito, muito triste que ela não tenha tido um bom término na série. e nem voltou depois… 🙁

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Rafael Lima 12 de fevereiro de 2017 - 23:54

Cara, esse arco é fenomenal! Concordo com todos os pontos da resenha. Este arco encerra com chave de ouro essa sétima temporada e uma temporada de estréia brilhante (porém sombria) para o Terceiro Doutor.

Poucas vezes vimos esta encarnação tão desesperada e desolada quanto vemos aqui. Nunca me esqueci do cansaço na voz e no rosto com que esta encarnação geralmente tão impassível conta a Liz o que houve no Mundo Paralelo dizendo simplesmente ” Terrible Things Happened There. Terrible Things”. Isso pra não falar no desespero que se sucede pra impedir que a tragédia se repita no nosso mundo.

De fato, sempre achei que os eventos deste arco com certeza se estabeleceram como um dos grandes traumas da vida do Doutor (com certeza o maior até este momento). Não a toa Don Houghton colocaria a visão de um mundo em chamas como o grande medo do Doutor em “The Mind Of Evil”.

Essa é uma grande história para Caroline John e Nicholas Courtney, que ganham a chance de marcar bem as diferenças existentes entre os “nossos” Brigadeiro e Liz e suas contrapartes do Mundo Paralelo.

A forma como a despedida da Liz (não) aconteceu foi bem ruim mesmo. Confesso que não sou um grande fã da personagem. Não que eu não goste dela, mas acho que faltou química entre Caroline John e Pertwee, e no fim das contas, a relação Doutor/Liz acabou ficando ofuscada pela relação Doutor/Brigadeiro. Embora eu adore o fato que diferente das outras companions do 3º Doutor, Liz não se coloca como aprendiz ou assistente, mas praticamente uma igual para o Doutor. Com certeza ela merecia uma despedida. Essa despedida chegou a acontecer no Universo expandido, em um romance chamado “The Scales Of Injustice”, mas não cheguei a ler, embora tenha muita vontade.

Em resumo, grande arco. Liz pode não ter tido uma história de despedida na TV, mas teve uma ultima aparição brilhante.

Grande abraço!

PS: Existe um romance do Universo Expandido chamado “The Face Of The Enemy”, que funciona como sequência para este arco, e vale muito a pena conferir, pois expande de forma bem interessante o universo apresentado neste arco. O interessante é que o Doutor não aparece. O romance se passa durante os eventos de “The Curse Of Peladon”, portanto quando certas coisas começam a acontecer, a UNIT não pode contar com a ajuda do Doutor e Jo, o que leva o Brigadeiro a ter que recorrer a ajuda de ninguém mais ninguém menos do que o Mestre no melhor estilo “O Silêncio dos Inocentes”.

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Luiz Santiago 13 de fevereiro de 2017 - 00:41

É quase inacreditável que algo desse nível tenha sido feito naquela época de DW. Digo isso pelas limitações técnicas e certas ideias que a TV ainda não exploravam ou que não eram muito comuns, especialmente em um programa para crianças e adolescentes.

As mudanças das linhas temporais e o que esse evento causa na linha do 3º Doutor é algo para se considerar fortemente e de fato foi um choque que ele teve de lidar a vida toda. Um dos grandes, acho, e que só seria superado pela Time War.

Bom saber sobre esse The Face Of The Enemy. Mais um para a minha lista. E por falar nisso, estou terminando de ler “Salvation”. Ele será a minha primeira crítica de livro do 1º Doutor quando a minha sequência cronológica terminar (eu me propus fazer a crítica de um livro de cada Doutor, na sequência, para ter um pouquinho de cada… Tive que repetir 2 críticas de livros do 7º Doutor porque já estavam escritas e eu queria postar logo. Mas logo vem o 8º hehehe)

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Rafael Lima 15 de fevereiro de 2017 - 14:44

Bom saber, @luizsantiago:disqus Espero que tenha gostado. Aguardarei a resenha ansiosamente.

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Carlindo José 18 de janeiro de 2017 - 13:21

Que arco genial, meu Deus, os conceitos que ele usa e a forma com é abordado, é tudo muito bom, bota no chinelo muitas séries de ficção científica e muitos episódios de Doctor Who atuais. A atuação do elenco é muito boa, conseguiram dar um bom tom para os personagens do mundo paralelo, diferentes e ao mesmo tempo análogos aos do nosso universo, e a atuação do Doutor se mostra mais uma vez muito boa, os golpes de karatê venusiano são muito legais hahahaha.

A única ressalva que eu tenho desse arco são os monstros lá, não consigo encontrar uma explicação plausível pra que aquela gosma “involua” as pessoas, foi mais uma forma de adicionar mais perigo no arco, uma bem bizarra. Mas enfim, arco muito bom, mostrando que a era do 3° Doutor não veio pra brincadeira.

Meu top 3 da temporada ficaria assim: Inferno, Ambassadors of Death e Spearhead from Space.

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Carlindo José 18 de janeiro de 2017 - 13:21

Que arco genial, meu Deus, os conceitos que ele usa e a forma com é abordado, é tudo muito bom, bota no chinelo muitas séries de ficção científica e muitos episódios de Doctor Who atuais. A atuação do elenco é muito boa, conseguiram dar um bom tom para os personagens do mundo paralelo, diferentes e ao mesmo tempo análogos aos do nosso universo, e a atuação do Doutor se mostra mais uma vez muito boa, os golpes de karatê venusiano são muito legais hahahaha.

A única ressalva que eu tenho desse arco são os monstros lá, não consigo encontrar uma explicação plausível pra que aquela gosma “involua” as pessoas, foi mais uma forma de adicionar mais perigo no arco, uma bem bizarra. Mas enfim, arco muito bom, mostrando que a era do 3° Doutor não veio pra brincadeira.

Meu top 3 da temporada ficaria assim: Inferno, Ambassadors of Death e Spearhead from Space.

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Luiz Santiago 19 de janeiro de 2017 - 15:15

Essa temporada é porreta demais! Coisa linda mesmo! E essa arco é simplesmente maravilhoso! A gosma eu vejo como um fator de contaminação, então acaba não me incomodando, porque o que as pessoas tem é resultado dessa contaminação, não necessariamente uma “involução”. Não sei se você me entendeu.

Ah, esse mundo paralelo. Aquilo é desesperador. E aquele final??? Simplesmente incrível!

Responder
Luiz Santiago 19 de janeiro de 2017 - 15:15

Essa temporada é porreta demais! Coisa linda mesmo! E essa arco é simplesmente maravilhoso! A gosma eu vejo como um fator de contaminação, então acaba não me incomodando, porque o que as pessoas tem é resultado dessa contaminação, não necessariamente uma “involução”. Não sei se você me entendeu.

Ah, esse mundo paralelo. Aquilo é desesperador. E aquele final??? Simplesmente incrível!

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Lucas Gabriel 19 de outubro de 2015 - 18:10

putz, dificil escolher o melhor arco hein, me pegou num paradigma

Responder
Luiz Santiago 19 de outubro de 2015 - 18:44

Essa temporada é realmente sensacional. O “piorzinho” é o dos Silurians, mas mesmo assim é uma ótima história. Os outros três são um melhor que o outro. Mas mesmo assim, para mim, os melhores são “Inferno” e “Ambassadors”. Esses foram os meus votos, por sinal. 🙂
To feliz que “Inferno” esteja ganhando. É uma baita história. A melhor da era do 3º Doutor, na minha opinião.

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Gabriella Da Silva Lemos 21 de março de 2015 - 23:29

o Nick Courtney sempre falava que esse arco é o que ele mais gostou de gravar.
E os tapa olhos que tiveram durante a sexta temporada, o Moffat fez em homenagem a ele.
Recomendo ler a novelização do arco,pois explora mais o universo paralelo.

Responder
Luiz Santiago 22 de março de 2015 - 03:44

Quero muito ler a novelização. Vale a pena, porque esse arco é sensacional!!!

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Augusto 21 de março de 2015 - 20:55

Inferno merece 5 estrelas e mais um pouco, é um arco muito bom, com certeza o melhor da era Pertwee.

E, que atuações magníficas, cara, o Brigadeiro e a Liz estão geniais (o Brigadeiro é uma figura de bondade, ai mudam tudo nele – tirar o bigode foi muito inteligente – e o Nicholas Courtney foi perfeito, dá muito medo dele).

Os Primords (que foram muito bem feitos), são vilões disfarçados, eles atrapalham o Doutor, mas não são o problema principal, o Brigadeiro paralelo (na verdade todos da Terra paralela), esse sim é um vilão do mal (que agonia ver ele segurando o Doutor naquela Terra paralela, enquanto a Terra normal pode ser destruída).

O único problema é que a Liz vai embora sem despedida, isso me irrita muito, porque é uma personagem tão boa, que foi tão pouco utilizada, mas não dá para reclamar, que logo em seguida vem a Jo, a grande amiga do 3° Doutor.

Abs.

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Luiz Santiago 22 de março de 2015 - 03:45

Fiquei muito triste porque a Liz não teve a merecida despedida. Mas é verdade, a chegada da Jo é linda e ela é uma fofa, então tudo fica bem, no final. 🙂

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