Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Kinda (Arco #118)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Kinda (Arco #118)

por Luiz Santiago
86 views (a partir de agosto de 2020)

doctor-who-kinda

estrelas 3

Equipe: 5º Doutor, Adric, Nyssa, Tegan
Espaço: Planeta Deva Loka (ou S14)
Tempo: 3026 (?)

Parece ser a identidade desta 19ª Temporada de Doctor Who apresentar textos inicialmente muito criativos e propostas encantadoras para os arcos, começar executando bem essas propostas e terminar de maneira bastante questionável a história, principalmente com a introdução tenebrosa dos companions em alguns episódios, problema que mais afeta Nyssa em Kinda, já que ela é esquecida durante praticamente toda a duração da aventura (e ainda fica apressando o Doutor para ir embora no final, algo simplesmente patético), que deveria ser a continuação direta de Four to Doomsday, com o desmaio estranho de Nyssa, mas nem isso se concretiza de fato.

Quando o arco começa, o Doutor e seus companheiros já estão no planeta Deva Loka, para dar a Nyssa a oportunidade de descansar. Como este foi o motivo de finalização da aventura anterior, imaginamos que Kinda traria uma explicação para o que estava acontecendo com a trakeniana, talvez alguma intromissão de um vilão poderoso ou algo do tipo. Mas não é isso que acontece. O roteiro de Christopher Bailey traz um cenário cheio de referências bíblicas (Paraíso, maçã, serpente), religião celta (sistema de tribos matriarcais com a reencarnação da sacerdotisa), mitologia grega (Caixa de Pandora), psicologia dos anos 1930 (“não-eu”, “não-nós”) e, principalmente, conceitos, simbolismos e textos budistas mais antigos.

A história transcorre em bases diferentes, inicialmente muito interessantes, sendo um dos melhores momentos protagonizados por Tegan (vejam só!), que infelizmente volta a ter uma postura insuportável no final, juntamente com Adric, o grande manhoso dissimulado. Na sequência do sonho, a atriz Janet Fielding tem algumas das melhores cenas dessa fase de Doctor Who encabeçada por JNT. Mostrando que dentro da mente humana é possível encontrar porções de coisas boas e ruins, as quais podem ou não ser alimentadas e gerar ou não um monstro (conceitos do budismo), o roteiro realça o paradoxo da “escolha sugerida” e as consequências que isso pode ter para o que escolhe e para as pessoas que serão afetadas por esta escolha. A ideia é que o mal, em si, não existe, mas se algo ruim do homem escapar, um rastro de coisas ruins será deixado por onde passar.

A divisão de qualidade do roteiro e mesmo da direção pode ser observada também como padrão desta fase. Os dois primeiros episódios de Kinda são muito bons (embora o segundo seja inferior ao primeiro) e os dois finais transitam entre o “ok” e o “medíocre”, talvez porque desmembram demais as veias narrativas e não completam de maneira interessante, como no começo, os impasses de poder, com indícios de Dr. Fantástico, e o que pode o Doutor e seus companions fazem para salvar a si mesmos e o planeta de uma destruição cíclica iminente e outra causada por um colono louco.

Sem dúvidas, a melhor fase do arco está no mundo onírico e nos encontros de Tegan com os demônios de sua mente, ou da mente coletiva dos habitantes locais. O ambiente natural também tem um papel interessante na criação de uma atmosfera de ameaça em meio ao Paraíso. Isso funciona bem até certo ponto, mas o espectador logo se cansa da premissa que não avança e tende a revirar os olhos a cada cobrança estranha da aeromoça ou reclamação impaciente rebelde sem causa do E-Space. A ideia central e parte de sua execução são muito boas. Uma pena que isso não siga por todo o arco.

Kinda (Arco #118) — 19ª Temporada
Direção: Peter Grimwade
Roteiro: Christopher Bailey
Elenco: Peter Davison, Matthew Waterhouse, Sarah Sutton, Janet Fielding, Nerys Hughes, Richard Todd, Simon Rouse, Mary Morris, Sarah Prince, Adrian Mills, Anna Wing, Roger Milner, Jeff Stewart, Lee Cornes
Audiência média: 8,80 milhões
4 episódios (exibidos entre 1º e 9 de fevereiro de 1982)

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10 comentários

Rafael Lima 10 de dezembro de 2016 - 19:23

Primeiramente, eu gostaria de dar parabéns pelas suas resenhas da série clássica. Acompanho há algum tempo, e elas são sempre interessantes, sempre trazendo uma visão interessante em relação a série clássica.

Quanto a “Kinda”, acho que gostei mais do que você quando eu vi. Ok, ela ignora totalmente a conclusão de “Four To Doomsday”, mas pessoalmente nunca me importei muito com o que acontece com a Nyssa mesmo, então… Hehehe

Mas falando sobre o arco, acho que ele tem uma construção de universo muito interessante. Toda a mitologia de Deva Loka baseada em uma sociedade matriarcal é muito legal, e acho muito legal o detalhe de que a comunicação oral é que é a fonte da autoridade ao invés da telepatia.

Não sei quanto a você, mas foi este arco que me fez começar a gostar do Quinto Doutor e valorizar as suas particularidades em relação a seus antecessores. Este é um Doutor que come mais pelas beiradas, menos impulso e mais reativo. Ele não sai improvisando, como muitas outras encarnações.

Também tenho minhas dúvidas se o Quarto ou o Terceiro Doutor por exemplo, passariam ilesos pela abertura da Caixa como o Doutor do Davison passou. Afinal o fato de ser classificado como um “idiota” pela sacerdotisa pode indicar uma pureza maior dele. Sempre tive a impressão que essa encarnação sempre se esforçou mais pra entender sentimentos humanos e sinceramente buscava ser um cara mais humilde ao invés de apenas fingir ser, como o Doutor do Troughton. O que faz muito sentido, tendo em vista que em seus momentos finais, o 4º Doutor culpava a sua arrogância pelos desastres causados pelo Mestre em “Logopolis”. Por isso toda essa vibe espiritual presente nessa história acaba sendo um veículo perfeito pro Doutor do Davison.

Ainda assim, parece que mesmo esse “Doctor Nice Guy” tem seus momentos manipuladores. Afinal, embora nunca seja confirmado, o fim da história sugere que o Doutor deliberadamente escolhe não dizer pra Tegan que a Mara continuava no corpo dela. Doideira minha?

Quanto aos Companions dessa história, a Tegan é bem chata nessa 1ª temporada do 5º Doutor, mas eu passei a gostar mais dela ao decorrer da série. Já o Adric apesar de não ser um bom personagem, acho que ele tinha mais conteúdo do que as pessoas lhe dão créditos (acho ele bem mais válido que a Nyssa, por exemplo), e “Kinda” é um exemplo disso.

Adric sempre respeitou mais o 4º Doutor do que o 5º. E nesse arco, fico com a impressão de que vemos o Adric tentar emular o comportamento do Doutor do Tom Baker quando tenta enganar o sargento maluco, fingindo entender o que ele está dizendo. Claro, Adric não tem toda a malandragem daquele Doutor, e por isso se dá mal. Mas acho que isso diz bastante sobre o personagem. O personagem continua sendo chato, mas acho que há alguma coisa a dizer sobre ele, diferente da Nyssa, por exemplo.

Responder
Luiz Santiago 10 de dezembro de 2016 - 20:14

@disqus_wPGYD1xKX4:disqus , muito obrigado pelas visitas e pelo comentário. É muito bom quando aparece alguém para discutir sobre a Clássica, porque você sabe… pouca gente vê/viu. E já deixo o convite para comentar, perguntar, levantar discussões em críticas de outros arcos criticados aqui no PC, beleza? Temos do #1 ao 121, e contando! 😀

Gostei tanto do seu comentário que até coloquei em destaque. Sua abordagem para a personalidade do 5º Doutor é excelente, me fez pensar em algumas coisas que ainda não tinha levado em consideração sobre ele. Não sei se você acompanhou as minhas críticas desde Castrovalva, mas eu simplesmente amei a estreia do Davison no papel. Confesso que não gosto dele nos áudios da Big Finish, mas na série ele me impressionou demais.

Mesmo assim, até agora, ele é o meu Doutor menos favorito, por assim dizer. hahahahaha. Acho que na 20ª Temporada ele fica mais “largado”, as coisas acabam tendo mais um ar de “sorte”, algo que vem me incomodando bastante.

Eu até gostei do Adric no começo, mas depois foi ladeira abaixo. Acho que a morte dele foi muito boa para a série. Deu mais força ao personagem, se olharmos em retrospecto, não sei se você concorda.

E cara, ALELUIA que alguém concorda comigo sobre o Doutor não ter dito para a Tegan sobre a entidade Mara. Também acho isso. Quando levantei essa questão num grupo do FB, disseram que seria maldade do Doutor se ele não tivesse dito, mas eu não vejo por esse lado.

Seja sempre muito bem vindo para comentar, discordar, acrescentar coisas, desabafar sobre a série. É muito bom termos whovians para trocar ideias sobre esse sensacional Universo… E claro, sobre qualquer outra área que criticamos aqui no PC também.
Abraço!

Responder
Rafael Lima 11 de dezembro de 2016 - 17:12

Valeu pelo destaque Luiz Santiago!

Também acho que a morte do Adric fez bem pra série. Se tornou uma sombra interessante que apareceria de forma sútil durante toda a era do 5º Doutor.

Quanto ao lance do Doutor não contar pra Tegan sobre a Mara, pode até ser maldade, mas desde o Doutor do Hartnell, (e ainda mais com 2º Doutor do Troughton) o Doctor toma algumas decisões que podem ser vistas como um pouco sacanas de vez em quando em nome do que ele julga ser um bem maior (Na Nova Série então, isso acontece direto). O 5º Doutor pode ser a encarnação mais “boazinha” do Time Lord, mas não se escapa disso.

Responder
Luiz Santiago 11 de dezembro de 2016 - 21:58

Eu concordo que isso é percebido desde o início e tal, mas sinceramente não vejo como maldade. Até pegando um gancho que você falou sobre o 5º Doutor. Conhecendo bem o caráter de Tegan, se ele dissesse o que de fato estava acontecendo, ela ia pirar. Ia ser bem pior. hahahaa

Responder
Rafael Lima 12 de dezembro de 2016 - 22:52

Hehehe. É verdade. Acho que ela não ia aceitar muito bem.

Maldade é a palavra errada com certeza. Ele fez o que achou melhor pra ela, inclusive.

Rafael Lima 12 de dezembro de 2016 - 22:52

Hehehe. É verdade. Acho que ela não ia aceitar muito bem.

Maldade é a palavra errada com certeza. Ele fez o que achou melhor pra ela, inclusive.

Luiz Santiago 11 de dezembro de 2016 - 21:58

Eu concordo que isso é percebido desde o início e tal, mas sinceramente não vejo como maldade. Até pegando um gancho que você falou sobre o 5º Doutor. Conhecendo bem o caráter de Tegan, se ele dissesse o que de fato estava acontecendo, ela ia pirar. Ia ser bem pior. hahahaa

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Rafael Lima 11 de dezembro de 2016 - 17:12

Valeu pelo destaque Luiz Santiago!

Também acho que a morte do Adric fez bem pra série. Se tornou uma sombra interessante que apareceria de forma sútil durante toda a era do 5º Doutor.

Quanto ao lance do Doutor não contar pra Tegan sobre a Mara, pode até ser maldade, mas desde o Doutor do Hartnell, (e ainda mais com 2º Doutor do Troughton) o Doctor toma algumas decisões que podem ser vistas como um pouco sacanas de vez em quando em nome do que ele julga ser um bem maior (Na Nova Série então, isso acontece direto). O 5º Doutor pode ser a encarnação mais “boazinha” do Time Lord, mas não se escapa disso.

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Luiz Santiago 10 de dezembro de 2016 - 20:14

@disqus_wPGYD1xKX4:disqus , muito obrigado pelas visitas e pelo comentário. É muito bom quando aparece alguém para discutir sobre a Clássica, porque você sabe… pouca gente vê/viu. E já deixo o convite para comentar, perguntar, levantar discussões em críticas de outros arcos criticados aqui no PC, beleza? Temos do #1 ao 121, e contando! 😀

Gostei tanto do seu comentário que até coloquei em destaque. Sua abordagem para a personalidade do 5º Doutor é excelente, me fez pensar em algumas coisas que ainda não tinha levado em consideração sobre ele. Não sei se você acompanhou as minhas críticas desde Castrovalva, mas eu simplesmente amei a estreia do Davison no papel. Confesso que não gosto dele nos áudios da Big Finish, mas na série ele me impressionou demais.

Mesmo assim, até agora, ele é o meu Doutor menos favorito, por assim dizer. hahahahaha. Acho que na 20ª Temporada ele fica mais “largado”, as coisas acabam tendo mais um ar de “sorte”, algo que vem me incomodando bastante.

Eu até gostei do Adric no começo, mas depois foi ladeira abaixo. Acho que a morte dele foi muito boa para a série. Deu mais força ao personagem, se olharmos em retrospecto, não sei se você concorda.

E cara, ALELUIA que alguém concorda comigo sobre o Doutor não ter dito para a Tegan sobre a entidade Mara. Também acho isso. Quando levantei essa questão num grupo do FB, disseram que seria maldade do Doutor se ele não tivesse dito, mas eu não vejo por esse lado.

Seja sempre muito bem vindo para comentar, discordar, acrescentar coisas, desabafar sobre a série. É muito bom termos whovians para trocar ideias sobre esse sensacional Universo… E claro, sobre qualquer outra área que criticamos aqui no PC também.
Abraço!

Responder
Rafael Lima 10 de dezembro de 2016 - 19:23

Primeiramente, eu gostaria de dar parabéns pelas suas resenhas da série clássica. Acompanho há algum tempo, e elas são sempre interessantes, sempre trazendo uma visão interessante em relação a série clássica.

Quanto a “Kinda”, acho que gostei mais do que você quando eu vi. Ok, ela ignora totalmente a conclusão de “Four To Doomsday”, mas pessoalmente nunca me importei muito com o que acontece com a Nyssa mesmo, então… Hehehe

Mas falando sobre o arco, acho que ele tem uma construção de universo muito interessante. Toda a mitologia de Deva Loka baseada em uma sociedade matriarcal é muito legal, e acho muito legal o detalhe de que a comunicação oral é que é a fonte da autoridade ao invés da telepatia.

Não sei quanto a você, mas foi este arco que me fez começar a gostar do Quinto Doutor e valorizar as suas particularidades em relação a seus antecessores. Este é um Doutor que come mais pelas beiradas, menos impulso e mais reativo. Ele não sai improvisando, como muitas outras encarnações.

Também tenho minhas dúvidas se o Quarto ou o Terceiro Doutor por exemplo, passariam ilesos pela abertura da Caixa como o Doutor do Davison passou. Afinal o fato de ser classificado como um “idiota” pela sacerdotisa pode indicar uma pureza maior dele. Sempre tive a impressão que essa encarnação sempre se esforçou mais pra entender sentimentos humanos e sinceramente buscava ser um cara mais humilde ao invés de apenas fingir ser, como o Doutor do Troughton. O que faz muito sentido, tendo em vista que em seus momentos finais, o 4º Doutor culpava a sua arrogância pelos desastres causados pelo Mestre em “Logopolis”. Por isso toda essa vibe espiritual presente nessa história acaba sendo um veículo perfeito pro Doutor do Davison.

Ainda assim, parece que mesmo esse “Doctor Nice Guy” tem seus momentos manipuladores. Afinal, embora nunca seja confirmado, o fim da história sugere que o Doutor deliberadamente escolhe não dizer pra Tegan que a Mara continuava no corpo dela. Doideira minha?

Quanto aos Companions dessa história, a Tegan é bem chata nessa 1ª temporada do 5º Doutor, mas eu passei a gostar mais dela ao decorrer da série. Já o Adric apesar de não ser um bom personagem, acho que ele tinha mais conteúdo do que as pessoas lhe dão créditos (acho ele bem mais válido que a Nyssa, por exemplo), e “Kinda” é um exemplo disso.

Adric sempre respeitou mais o 4º Doutor do que o 5º. E nesse arco, fico com a impressão de que vemos o Adric tentar emular o comportamento do Doutor do Tom Baker quando tenta enganar o sargento maluco, fingindo entender o que ele está dizendo. Claro, Adric não tem toda a malandragem daquele Doutor, e por isso se dá mal. Mas acho que isso diz bastante sobre o personagem. O personagem continua sendo chato, mas acho que há alguma coisa a dizer sobre ele, diferente da Nyssa, por exemplo.

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