Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Mindwarp (Arco #143b: The Trial Of A Time Lord)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Mindwarp (Arco #143b: The Trial Of A Time Lord)

por Luiz Santiago
89 views (a partir de agosto de 2020)
MINDWARP PLANO CRITICO DOCTOR WHO TRIAL OF A TIME LORD PERI DEPARTURE

estrelas 3

Equipe: 6º Doutor, Peri
Saga: The Trial Of A Time Lord
Espaço: Nave Espacial dos Time Lords / Planeta Thoros Beta
Tempo: 3 de Julho de 2379

Mindwarp estabelece uma traumática partida de Peri, então companion do Doutor; uma partida que posteriormente seria reticonada em várias mídias, abrindo uma série de linhas alternativas para a vida da americana, porém, sem o cuidado de retorná-la para seu destino final, como Moffat fez/propôs para Clara em Hell Bent e, por isso mesmo, diminuindo ou descaracterizando bastante o sacrifício aqui estabelecido.

Nicola Bryant havia sido comunicada que sua personagem seria retirada da série na 23ª Temporada e a atriz gostou bastante da ideia, pois temia pelo futuro de sua carreira, ficando muito tempo em um único papel e dando a impressão estereotipada de sua forma de atuar. Ao ser perguntada por JNT como ela gostaria de partir, a atriz foi bem clara: “dramaticamente. Como em uma explosão“. Nicola disse em entrevistas que estava no estúdio quando Resurrection of the Daleks foi filmado e acompanhou a partida de Tegan, achando-a bastante fraca. Segundo a atriz, “se era pra sair da série, que fosse de forma marcante“. E foi exatamente isso que o roteiro de Philip Martin lhe deu, fazendo com que ao final da história a mente do Mentor Kiv fosse transportada para o corpo de Peri, que em seguida é morta (ou morto?) pelo selvagem rei Yrcanos.

A produção do arco trouxe farpas para relação de John Nathan-Turner com o editor de roteiros Eric Saward, mas ambos acabaram se entendendo e conseguiram dar vida ao texto de Philip Martin, que trazia o sádico Mentor Sil de volta (o vilão caiu nas graças dos produtores e, por algum motivo, parece que o público também gostara dele em Vengeance on Varos), agora em seu próprio planeta. Desde o início há uma aura pesada no episódio, talvez criada pela indicação do Valeyard, prometendo uma acusação pesada sobre o Doutor; seja pela caracterização do lugar e pela quase desesperada participação de Peri no primeiro capítulo, pedindo para ir embora o tempo todo. Particularmente, vejo essa tentativa dos roteiristas em indicar uma vontade de Peri em fugir dos lugares que apresentavam perigo uma fraca deixa de que ela partiria em breve. A rigor, esses pedidos tornam a personagem chata e atrapalham a interessante relação “morde-e-assopra” que tinha com o Doutor… mudança percebida desde The Mysterious Planet.

Com menos interrupções e ainda mantendo um humor refinado na pessoa do Doutor, seus apelidos ao Valeyard e sua forma nada comum de olhar o mundo, o arco dá um passo à frente no julgamento, investindo na raiva do Time Lord especialmente no final, quando ele percebe o que acontece com Peri. O que eu particularmente achei muito estranho foi a dubiedade desnecessária nas atitudes do Doutor após os experimentos de Crozier em seu cérebro. A mentalidade do Senhor do Tempo é alterada, mas nós ficamos em dúvida se é o Doutor tentando disfarçar ou se ele realmente está agindo de maneira semelhante ao Mentor Sil. A deixa para o “não” em relação a isso vem quando Crozier propõe usar Peri como cobaia para transferir a mente de Kiv e o Doutor faz de tudo para que isso não aconteça. Mas o caminho que nos leva até aquele momento é bastante confuso e tudo fica ainda mais problemático porque pouco tempo depois o Doutor é retirado de seu tempo e sua TARDIS levada até a nave espacial onde o julgamento aconteceria.

Apesar de alguns momentos confusos, o arco traz boas referências ao clássico A Ilha do Dr. Moreau e dramas de ficção científica com cientistas loucos e suas manias de transplante de cérebro. Visualmente, tudo funciona bem, talvez com um certo exagero na representação saturada da fotografia para o planeta Thoros Beta. Já as filmagens em interiores são ótimas, dando uma visão escura, suja e com misto de tecnologia para a sociedade dos Mentors, mantendo algo que já conhecíamos dela (a busca incessante por lucro) e adicionando a mania de experimentos, nessa ocasião, para estender a vida de Kiv, então líder de seu povo.

O final da saga nos faz ver o Doutor com grande ira, prometendo o revés a quem quer que tenha alterado a Matrix e feito sua presença em Thoros Beta uma grande tragédia para Peri. Um pouco acuado e aparentemente sem muita alternativa, o Time Lord deverá apresentar sua defesa e ela virá com uma aventura de seu próprio futuro (!), já ao lado de uma nova companion, a incrível Melanie Bush.

Mindwarp: The Trial Of A Time Lord (Arco #143b) — 23ª Temporada
Direção: Ron Jones
Roteiro: Philip Martin
Elenco: Colin Baker, Nicola Bryant, Michael Jayston, Lynda Bellingham, Brian Blessed, Nabil Shaban, Christopher Ryan, Patrick Ryecart, Alibe Parsons, Trevor Laird, Thomas Branch, Gordon Warnecke, Richard Henry
Audiência média: 4,88 milhões
4 episódios (exibidos entre 4 e 25 de outubro de 1986)

Você Também pode curtir

4 comentários

Rafael Lima 7 de agosto de 2017 - 13:51

Apesar das irregularidades, eu gosto bastante deste arco, e acredito que seja o ponto alto de “The Trial Of a Time Lord”.

Diferente do arco anterior, a trama central do julgamento parece estar mais integrada a história passada em Thoros Beta, com as interrupções não soando tão intrusivas. Diferente de você, gostei do visual do planeta também, com os filtros de cor colaborando para o aspecto alienígena do ambiente.

Gostei de ver o retorno do repelente Sil. Acho que o personagem tem um tom que cômico e ao mesmo tempo ameaçador que é bem interessante, e que ainda ganha novos aspectos através da relação de submissão dele com o Kiv. E adoro o fato de ele achar a Peri “ofensivamente feia”. Hehehe. Frisa bem o caráter alienígena do personagem, pois só assim pra achar Nicola Bryant feia.

Gosto muito da troca de farpas entre o Doutor e o Valeyard nas cenas passadas no tribunal. Colin Baker e Michael Jayston tem uma ótima química em cena. Já o Rei Yrcanos é um daqueles personagens que de tão exagerado, e sim, mal atuado, acaba ficando bom. Hehehe

Essa duvida sobre as ações do Doutor após sofrer a lavagem cerebral de Crozier é bem pertinente, Luis. De fato, o próprio Colin Baker tinha essa dúvida. Hehehe. O ator não sabia dizer se o Doutor realmente teve a mente afetada pelo aparelho, se ele estava só fingindo, ou se a Matrix estava mostrando uma versão alterada dos eventos, e quando Baker perguntou ao diretor, ele teria respondido que “era o que Baker quisesse que fosse”, situação que mostra a desorganização que estavam os bastidores da série naquele momento. Pessoalmente, eu penso como você, que o Doutor estava apenas fingindo e manipulando os eventos, como forma de ganhar tempo e resolver a situação.

Quanto a Peri, entendo por que você a acha irritante neste arco, mas acho que faz sentido com o que conhecíamos da personagem na série, e com a própria história deste arco. Peri nunca foi exatamente o tipo de companion que abraça o perigo sem problemas. Desde a temporada passada, a garota se mostrava bastante cautelosa, e mais de uma vez questionou o Doutor por escolher determinados destinos que os levavam de encontro as ameaças. Então, faz sentido pra mim que ela queira sair de Thoros Beta o mais rápido possível ao perceber que aquele é o planeta do Sil, tendo em vista que seu encontro anterior não foi nada agradável para a americana.

Mas falando do evento principal, a morte de Peri, é de fato a saída mais trágica de uma companion na história da série. Por que Peri não apenas morre nesta história, mas é despojada de sua fé no Doutor, e por fim, de tudo que ela era, perdendo sua mente e sua própria identidade. Diferente de Adric e Clara que morrem através de atos heroicos, seguindo a filosofia do Doutor (mesmo que suas mortes não tenham tido finalidade prática nas situações em que estavam envolvidos) Peri morre por que o Doutor falhou em salva-la.

O mais trágico, é que Peri é colocada nesta situação indiretamente pelas ações do Doutor, fazendo com que a culpa do Time Lord seja muito maior do que no caso de Adric, por exemplo. Claro, o Doutor provavelmente a teria salvo se não fosse a interferência dos Time Lords, mas isso não muda o fato de ele ter jogado com a vida dela e perdido. Não é de se estranhar que após estes eventos, o Sexto Doutor tenha adotado uma postura mais branda e (levemente) mais humilde em histórias posteriores.

Não posso terminar sem falar da atuação soberba de Colin Baker neste episódio. Ele controla com incrível habilidade todas as facetas do Sexto Doutor aqui, seja seu lado mais sarcástico em suas conversas com o Valeyard, como sua faceta mais arrogante e cruel quando quebra completamente a fé que Peri tem nele. Mas o que foi a reação do Doutor ao descobrir o que os Time Lords fizeram? A tristeza e incredulidade que Baker transmite ao dizer “You…. Killed Peri”? é simplesmente fantástica. E quando o Valeyard o acusa de ter abandonado Peri, percebemos o quanto aquelas palavras machucam o Doutor, pois ele sabe que não é completamente uma mentira.

Apesar dos defeitos, “Mindwarp” é um dos arcos mais trágicos da Série Clássica, ao trazer um dos golpes mais duros que os Time Lords já desferiram contra o Doutor, e também dar a Colin Baker a chance de mostrar o quão brilhante ele era como o Sexto Doutor.

Ah, ótima resenha como sempre, Luis!

PS:É impressão minha ou você não gosta muito do Sil?

PS 2: Fiquei muito curioso pra ler a sua resenha do próximo arco. Estava jurando que você ia odiar a Mel (Hehehe). Eu gosto dela também, mas sei que ela não é exatamente popular entre a maioria dos Whovians.

Responder
Luiz Santiago 7 de agosto de 2017 - 15:02

Rapaz eu gosto do Sil, mas não nesse arco. Ou não tanto quanto eu acabai gostando depois do personagem, quando ouvi Mission to Magnus, que mesmo não sendo um bom arco, a presença de Sil ali me agradou muuuuuuito, o que não acontece exatamente aqui. Não que eu desgoste dele, mas também não o acho ótimo na história.

A dúvida sobre as ações do Doutor me matou. Era algo para ter um impacto diferente na história, mas é como você colocou, isso mostra a falta de organização da série nesse momento e controle do corte final para o roteiro.

Sua visão sobre Peri aqui me fez repensar a história. E repensando, acho que gosto um pouquinho mais dela e de toda a situação aqui. Obrigado por me dar um outro lado pra pensar sobre. Mesmo ainda tendo o estranhamento em pauta, eu consigo ver essa relutância da companion para com a permanência no planeta e tudo o que acaba acontecendo com ela em seguida, marcando um ponto moral muito denso para o Doutor. E sim, a atuação de Colin Baker é sensacional. Por quê esse homem pegou roteiros e uma fase tão complicada na série? Um ator tão sensacional!

Ah, Mel é sensacional! Quando eu escrevi essa crítica eu já tinha assistido o arco dos Vervoids e adorei a Mel! Falaremos sobre isso na próxima semana hehehehe

Responder
Rafael Lima 18 de agosto de 2017 - 13:55

Baker foi mesmo uma das maiores vítimas desta fase tão conturbada da série, tendo que trabalhar com roteiros muitas vezes confusos, e tendo que lidar com bastidores bem caóticos. E apesar de tudo, conseguiu deixar a sua marca na série. Ainda bem que a Big Finish apareceu com melhores histórias para dar a Colin Baker a chance que ele queria para desenvolver o seu Doutor.

Responder
Luiz Santiago 18 de agosto de 2017 - 16:26

Sim, isso é um bom consolo para nós. E deu a oportunidade para o ator mostrar que é realmente bom e que funcionaria muito bem com bons roteiros. Big Finish, NÓS TE AMAMOS!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais