Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Remembrance of the Daleks (Arco #148)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Remembrance of the Daleks (Arco #148)

por Luiz Santiago
116 views (a partir de agosto de 2020)

Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Shoreditch, Londres
Tempo: Novembro de 1963 / 4663

Estreando a 25ª e penúltima temporada da Série Clássica de Doctor Who, Remembrance of the Daleks é a primeira grande história com o 7º Doutor, iniciando uma série de coisas importantes para o cânone do show e mesmo para a personalidade deste Time Lord. Além de termos a verdadeira primeira aventura com Ace como companion, temos o início das ações manipulativas do Doutor — deixando um pouco para trás a versão apenas cômica e desajeitada que ele tivera na 24ª Temporada –, o retorno de Davros, a exposição do esqueleto das vítimas dos Daleks e o final do arco/evento chamado Guerra Civil entre os Daleks Renegados e Imperiais, originando-se, em termos de constituição de mutações dos guerreiros de Skaro, no arco Genesis of the Daleks, com um outro momento de abertura para variações de evolução após a saída de Davros da animação suspensa, na história Destiny of the Daleks.

Dava-se início ao Cartmel Masterplan, um conjunto de ideias levadas a cabo pelo editor de roteiros (e praticamente verdadeiro showrunner da série nas temporadas 25 e 26), que tinha por objetivo trazer para DW um grande conjunto de mistérios em torno do Doutor, explorando mais o seu passado, a sociedade dos Time Lords, alguns mitos e dúvidas deixadas para trás no decorrer de toda a série. Pela primeira vez alguém da produção em Doctor Who abria algumas portas de paradoxos temporais sem medo, elencando situações que, como esta história com os Daleks, utilizavam-se de situações que o público já conhecia para criar uma base sólida de dados na qual se apoiar para lançar algumas novidades.

Estamos em Londres, no ano de 1963, possivelmente pouco depois de o 1º Doutor ter sequestrado os professores Ian e Barbara da Coal Hill School, com o intuito de proteger sua neta, então aluna daquela escola. Nem o público, nem Ace sabem o verdadeiro motivo da presença deles naquele lugar e é só algum tempo depois que o próprio Time Lord fala que estava sendo seguido pelos Daleks e que havia deixado “negócios inacabados” ali.

Sylvester McCoy encarna com muito mais gosto e excelência essa variação manipulativa do Doutor que progressivamente vemos aflorar no decorrer do arco. O roteiro de Ben Aaronovitch não se deixa impressionar pela boa ideia e não joga as coisas aos borbotões para cima do espectador, com o perigo de descaracterizar o Doutor e influenciar negativamente os outros personagens, especialmente em Ace, que entra de maneira interessante na saga, com uma participação sem nenhum anacronismo, sendo tratada pelos locais como era tratada uma mulher londrina dos anos 60 e, ainda bem, mantendo a variação rebelde que nos mostrou desde Dragonfire, desobedecendo ordens e assumindo o controle, mesmo que temporário, de algumas boas situações. Neste ponto também é válido destacar a presença da professora Rachel Jensen, Conselheira Científica do grupo chefiado pelo Capitão Ian Gilmore, uma espécie de UNIT, sendo o próprio Gilmore um reflexo do Brigadeiro L.S., algo que não escapa ao Doutor, que chama Gilmore de “Brigadeiro” em dado momento da história.

Rachel e sua assistente Allison Williams são personagens muito interessantes, assim como o Sargento Mike, que inicialmente é colocado como um interessante romântico para Ace — e seria uma junção interessante, por tudo o que se havia mostrado do personagem até então –, até que sua verdadeira face se mostra. Curiosamente os personagens menos interessantes da trama são os do lado vilanesco, primeiro Ratcliffe, com sua sede de poder a qualquer custo e depois a criança que estava sendo manipulada pelos Daleks para servir de planejadora imaginativa para a obtenção da Mão de Ômega, uma excelente estratégia dos Daleks para eliminar um de seus maiores erros que é a manutenção de planos que não contam com o fator humano.

Mas o mais interessante é que no meio de tudo isso o roteiro consegue colocar uma forte e bem localizada crítica à segregação racial e todo tipo de preconceito em relação à constituição física de um outro indivíduo, isso aparecendo de diversas formas na história, desde uma plaquinha em uma pensão onde se lê “Proibida a Entrada de Pessoas de Cor” até a fala de um barman para o Doutor sobre o tráfico de escravos (em uma conversa que também serve de alegoria para o Efeito Cascata) e a engraçada e “quase sem querer” politizada explicação de Ace para a guerra entre essas duas facções de Daleks (Imperiais e Renegados), terminando com a icônica frase: “eles odeiam os cromossomos uns dos outros. Resultado? Guerra até a morte!”.

O mais interessante é que essa veia crítica está perfeitamente aglutinada a uma trama de ação cheia de referências à era do 1º Doutor e com elementos das aventuras terráqueas do e tudo aquilo que conhecemos do exílio do 3º Doutor na Terra. A direção de Andrew Morgan se aproveita de anos de exemplos anteriores e faz uma coerente relação entre a presença e ação do Doutor ao lado dos soldados, lutando contra uma força que desconhecem e contra quem certamente estão em desvantagem. O final não poderia ser mais marcado por melancolia, mas este foi o sentimento correto para uma trama com essa linha de ação e ideias discutidas. Uma excelente história com os Daleks onde o protagonismo é humano, divido com o Doutor e com Davros apenas na parte final.

A destruição de Skaro aqui foi questionada e discutida por um tempo, até que John Peel resolveu o problema em War of the Daleks ao revelar que o planeta destruído na trama não foi Skaro e sim Antalin. Este ainda não foi o fim do lar dos Daleks, embora os envolvidos nesta guerra achassem que sim. Nada como ter um mestre estrategista de 900 anos manipulando informações para se ver livre de seus inimigos em diversos níveis e por um bom tempo, não é mesmo?

Remembrance of the Daleks (Arco #148) — 25ª Temporada
Direção: Andrew Morgan
Roteiro: Ben Aaronovitch
Elenco: Sylvester McCoy, Sophie Aldred, Simon Williams, Dursley McLinden, Pamela Salem, Karen Gledhill, George Sewell, Michael Sheard, Harry Fowler, Jasmine Breaks, Peter Hamilton Dyer, Hugh Spight, John Scott Martin, Tony Starr, Cy Town, Roy Skelton, John Leeson, Royce Mills, Brian Miller, Peter Halliday, Joseph Marcell, William Thomas, Derek Keller, Terry Molloy, Hugh Spight
Audiência média: 5,35 milhões
4 episódios (exibidos entre 5 e 26 de outubro de 1988)

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20 comentários

Redbeard 8 de agosto de 2020 - 12:03

Um dos meus arcos favoritos do 7th Doutor, divide o primeiro lugar do meu ranking pessoal com “Curse Of Fenric”.

Além de ser uma história muito fluída consegue balancear bem a trama principal e as subtramas, sendo cheio de momentos memoráveis: Ace explodindo um Dalek, Ace com um bastão de basebol vs Dalek, o diálogo do 7th com Davros, a “quase exibição” do primeiro episódio da série, as citações a ômega.

Depois de “Genesis…” talvez seja minha história de Dalek favorita

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Luiz Santiago 8 de agosto de 2020 - 20:28

Eu não sou um grande fã de Genesis, mas reconheço seu valor. Já essa maravilha aqui é algo incrível. Está com certeza dentre as minhas favoritas histórias com Daleks.

Responder
Augusto 11 de janeiro de 2018 - 13:50

Finalmente um arco bom do 7º Doutor! Depois de uma temporada sofrível como foi a 24ª, começar com esse arco é melhora enorme. Mesmo assim, eu acho esse arco um pouco superestimado, naquelas listas de melhores arcos da clássica ele entra no top 10 e lá fora é normalmente considerado o melhor arco do McCoy, pra mim, não é nem o melhor arco da temporada. Mas é a melhor história dos Daleks desde Genesis.

Realmente o McCoy está muito bem, assim como a Sophie Aldred, que começa a mostrar suas qualidades mesmo aqui. Eu concordo que os vilões humanos são a parte mais fraca da história, mas a batalha dos Daleks é incrível e todas as homenagens ao início da série são maravilhosas. Eu adoro o anuncio do novo programa de ficção científica da BBC.

Agora o que me incomoda um pouco é a aparição do Davros, que parece só servir pra manter a tradição das últimas histórias de Daleks. E a destruição de Skaro é uma mudança enorme do “Do I have the right?” do Quarto Doutor, eu prefiro muito mais o questionamento do Tom Baker do que a destruição do McCoy.

Mas é um bom início da última leva de grandes arcos da clássica, e a primeira demonstração da ótima dupla do Doutor com a Ace.

Responder
Augusto 11 de janeiro de 2018 - 13:50

Finalmente um arco bom do 7º Doutor! Depois de uma temporada sofrível como foi a 24ª, começar com esse arco é melhora enorme. Mesmo assim, eu acho esse arco um pouco superestimado, naquelas listas de melhores arcos da clássica ele entra no top 10 e lá fora é normalmente considerado o melhor arco do McCoy, pra mim, não é nem o melhor arco da temporada. Mas é a melhor história dos Daleks desde Genesis.

Realmente o McCoy está muito bem, assim como a Sophie Aldred, que começa a mostrar suas qualidades mesmo aqui. Eu concordo que os vilões humanos são a parte mais fraca da história, mas a batalha dos Daleks é incrível e todas as homenagens ao início da série são maravilhosas. Eu adoro o anuncio do novo programa de ficção científica da BBC.

Agora o que me incomoda um pouco é a aparição do Davros, que parece só servir pra manter a tradição das últimas histórias de Daleks. E a destruição de Skaro é uma mudança enorme do “Do I have the right?” do Quarto Doutor, eu prefiro muito mais o questionamento do Tom Baker do que a destruição do McCoy.

Mas é um bom início da última leva de grandes arcos da clássica, e a primeira demonstração da ótima dupla do Doutor com a Ace.

Responder
Rafael Lima 11 de janeiro de 2018 - 15:16

Fiquei curioso pra saber qual a sua história preferida da temporada. Pra mim, é essa mesma, mas também não considero esse o melhor arco do McCoy.

A aparição do Davros não me incomodou, e na verdade achei orgânico pra fechar o arco da Guerra Civil Dalek. E acho que diferente do que ocorreu nos arcos Daleks anteriores, ele não monopoliza a história.

Quanto a destruição de Skaro, você levantou uma questão bem interessante. Eu não acho que chega a ser uma mudança tão grande quanto lembramos que essa não é a primeira vez que o Doutor tentou dar um fim definitivo aos Daleks. Afinal, o Segundo Doutor planejou e desencadeou uma guerra civil Dalek em “The Evil of The Daleks”. O conflito do Quarto Doutor no fim das contas não se referia somente a vida dos Daleks, mas o possível impacto que um universo sem os Daleks poderia ter ( a própria vida do Doutor seria impactada). O impacto na situação enfrentada pelo Sétimo Doutor seria menor, afinal, ele não estava criando um universo em que Daleks nunca existiram, mas ele ainda assim questiona as possíveis consequências de suas ações, mas chega a uma conclusão diferente de sua quarta encarnação.

Além disso, percebe-se que o Doutor muitas vezes não tem problemas em manipular eventos que podem levar a esse tipo de desfecho (que foi o caso do 7º Doutor) mas tem mais dificuldade quando precisa “sujar as mãos” digamos assim (como foi com o 4º Doutor). Claro, cada Doutor encara a questão de forma levemente diferente, mas é um padrão que parece tender a se repetir com várias encarnações.

Responder
Augusto 11 de janeiro de 2018 - 17:34

Eu entendo o que você disse sobre a destruição de Skaro, e realmente o Doutor já tentou destruir os Daleks antes e as diferentes encarnações agem diferente na questão de matar o inimigo (o próprio Quarto Doutor mata o Solon em The Brain of Morbius), mas aqui me pareceu um pouco gratuito só para mostrar essa versão mais sombria que o Doutor teria daqui pra frente.

Eu acho The Happiness Patrol e The Greatest Show in the Galaxy (esse é o meu arco preferido do McCoy) os dois melhores da temporada. Mas, é uma temporada que tem três arcos bem fortes, só Silver Nemesis que eu acho muito ruim.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 03:07

The Happiness Patrol eu não achei ruim, mas não figurou pra mim como um dos melhores não. Acho que vamos ter bastante coisa pra falar quando chegar essa crítica ahaha

Responder
Augusto 11 de janeiro de 2018 - 17:34

Eu entendo o que você disse sobre a destruição de Skaro, e realmente o Doutor já tentou destruir os Daleks antes e as diferentes encarnações agem diferente na questão de matar o inimigo (o próprio Quarto Doutor mata o Solon em The Brain of Morbius), mas aqui me pareceu um pouco gratuito só para mostrar essa versão mais sombria que o Doutor teria daqui pra frente.

Eu acho The Happiness Patrol e The Greatest Show in the Galaxy (esse é o meu arco preferido do McCoy) os dois melhores da temporada. Mas, é uma temporada que tem três arcos bem fortes, só Silver Nemesis que eu acho muito ruim.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 03:06

Eu acho que a destruição aqui estava na visão geral do 7º Doutor. Como falei para o Augusto mais acima, acho que realmente combina com a personalidade desse Doutor.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 03:06

Eu acho que a destruição aqui estava na visão geral do 7º Doutor. Como falei para o Augusto mais acima, acho que realmente combina com a personalidade desse Doutor.

Responder
Rafael Lima 11 de janeiro de 2018 - 15:16

Fiquei curioso pra saber qual a sua história preferida da temporada. Pra mim, é essa mesma, mas também não considero esse o melhor arco do McCoy.

A aparição do Davros não me incomodou, e na verdade achei orgânico pra fechar o arco da Guerra Civil Dalek. E acho que diferente do que ocorreu nos arcos Daleks anteriores, ele não monopoliza a história.

Quanto a destruição de Skaro, você levantou uma questão bem interessante. Eu não acho que chega a ser uma mudança tão grande quanto lembramos que essa não é a primeira vez que o Doutor tentou dar um fim definitivo aos Daleks. Afinal, o Segundo Doutor planejou e desencadeou uma guerra civil Dalek em “The Evil of The Daleks”. O conflito do Quarto Doutor no fim das contas não se referia somente a vida dos Daleks, mas o possível impacto que um universo sem os Daleks poderia ter ( a própria vida do Doutor seria impactada). O impacto na situação enfrentada pelo Sétimo Doutor seria menor, afinal, ele não estava criando um universo em que Daleks nunca existiram, mas ele ainda assim questiona as possíveis consequências de suas ações, mas chega a uma conclusão diferente de sua quarta encarnação.

Além disso, percebe-se que o Doutor muitas vezes não tem problemas em manipular eventos que podem levar a esse tipo de desfecho (que foi o caso do 7º Doutor) mas tem mais dificuldade quando precisa “sujar as mãos” digamos assim (como foi com o 4º Doutor). Claro, cada Doutor encara a questão de forma levemente diferente, mas é um padrão que parece tender a se repetir com várias encarnações.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 03:05

Ainda falta The Greatest Show in the Galaxy para eu acabar de ver a temporada e até agora, esse ainda é o melhor. Vamos ver.

Interessante você levantar o conflito de destruição. Eu gosto MUITO do levantamento feito pelo 4º Doutor, mas também gosto da destruição do 7º. Acho bastante orgânico para o personagem, sabe.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 03:05

Ainda falta The Greatest Show in the Galaxy para eu acabar de ver a temporada e até agora, esse ainda é o melhor. Vamos ver.

Interessante você levantar o conflito de destruição. Eu gosto MUITO do levantamento feito pelo 4º Doutor, mas também gosto da destruição do 7º. Acho bastante orgânico para o personagem, sabe.

Responder
Rafael Lima 11 de janeiro de 2018 - 11:38

Parece que finalmente encontrou um arco do 7º Doutor que te tocou, hein? Fico feliz que tenha gostado, e mais ainda em ler uma resenha que capta tão bem os principais pontos da história.

E de fato é um grande arco, onde o Sétimo Doutor assume de vez a sua faceta “ChessMaster”, os Daleks voltam a ser de fato os principais vilões da história, tem uma série de sutis homenagens ao passado da série, pequenas metáforas sociais e filosóficas, e uma contextualização de época bem interessante, abordando temas que a série não poderia ter abordado vinte cinco anos antes.

Começando pelo McCoy, que está fantástico aqui (e ele já havia se mostrado incrível na fraca temporada anterior). Como você bem observou, McCoy parece abraçar com gosto essa faceta mais fria e manipuladora do Doutor, mas sem com isso abrir mão do que já havia construído para o personagem na 24º temporada, como o ar meio “sad clown” e a forte veia paternal (aqui dirigida a Ace,). A conversa com o Barman (que depois desse arco dever ter fechado o bar e ido trabalhar como mordomo do Will Smith 🙂 ) é daquele tipo de cena “discretamente magnífica. Aquela simples conversa disfarçada de divagação de bar tem uma série de camadas incríveis, por que eles estão falando de várias coisas ali, desde os pontos que você destacou muito bem, até a hesitação do Doutor em fazer o que esta prestes a fazer com Skaro.

Ace tem mesmo uma ótima participação nesta história, não É? (Só a cena do taco de beisebol já é um grande demonstrativo). E é um cartão de visitas muito melhor pra jovem de Perivale do que foi “DragonFire”. Uma das coisas que eu adoro em Ace, é que por trás de toda a marra e pose de “Bad Girl” ela é uma garota de certa forma muito inocente, e sua personalidade forte convive de forma paradoxal com uma certa fragilidade emocional, vide a forma como ela rapidamente confia rapidamente em Mike, e a forma como ela reage ao perceber a verdadeira face do rapaz.

Não sei se concorda, mas vejo ecos da relação professoral da dupla 4º/Leela em 7º/Ace.. Adoro a forma como ela mostra grande respeito e admiração pelo Doutor, mas sem com isso perder a sua veia rebelde (acho que disse isso em outro comentário, mas mesmo o fato de ela chamar o Time Lord de “Professor” é uma demonstração paradoxal de respeito e rebeldia). Como não sorrir com a insistência da garota em carregar seus amados Nitro 9, apesar da reprovação do Doutor?

Sendo essa a ultima história Dalek da Série Clássica, foi justo que os guerreiros de Skaro enfim tenham recuperado o antagonismo de tais histórias. Não sei se concorda, mas desde o surgimento de Davros em “Genesis of The Daleks”, essas criaturas foram ficando cada vez mais a sombra de seu criador, até ficarem totalmente em segundo plano em “Revelation Of The Daleks”. Embora Davros ainda tenha destaque, sinto que os Daleks recuperaram certa independência, por assim dizer (o que dá a guerra civil Dalek, além do caráter alegórico citado por você, também certo caráter metalinguístico, ao meu ver, mas posso estar viajando).

Curioso que chegando aos vinte cinco anos (quem diria que a série iria ainda mais longe, hein?) DW se permitiu lançar um olhar nada nostálgico para a época em que foi criado, expondo os problemas de segregação que assolavam o país e o mundo (e infelizmente ainda não foram completamente erradicados). Curioso que houve um tempo em que vinte cinco anos historicamente não significava nada, mas 1963 parece tão alienígena para Ace quanto o Ice World (mesmo a moeda é outra).

Algo que acho muito interessante também é que enquanto os Daleks surgiram como uma metáfora ao nazismo em 1963, tema ainda difícil de ser abordado diretamente, o roteiro de Ben Aaronovitch inclui simpatizantes nazistas de verdade em conluio com os Daleks aqui (não de forma explícita com uniformes e tal, mas muito clara pela declaração “A Inglaterra lutou no lado errado na ultima guerra”). E essas pessoas não são cientistas loucos escondidos em refúgios na America do Sul, e sim pessoas comuns vivendo no seio da sociedade londrina. Ficamos tão revoltados quanto Ace ao ouvir os argumentos de Mike não só por ele ser um traidor, mas por que ele acha que está realmente certo (e é triste notar que existem MUITAS pessoas hoje que tem discursos bem semelhantes).

Claro que nem tudo é crítica, e as homenagens a Série embora sutis, são muito legais. Foi fantástico ver este primeiro regresso a Coat Hill School e ao Ferro velho Foreman. E Ver Ace achando o livro sobre a revolução francesa que pertenceu a Susan aqueceu meu coração whovian. O pessoal do exército também são claramente contrapartes de personagens da era do 3º Doutor, como você sugere na crítica, com equivalentes a Liz e ao Brigadeiro. Repare como mesmo a traição de um “Mike” é referenciada (embora em contextos totalmente diferentes).

Em resumo, um grande arco, e na minha humilde opinião, a melhor história Dalek da Série Clássica.

Responder
Rafael Lima 11 de janeiro de 2018 - 11:38

Parece que finalmente encontrou um arco do 7º Doutor que te tocou, hein? Fico feliz que tenha gostado, e mais ainda em ler uma resenha que capta tão bem os principais pontos da história.

E de fato é um grande arco, onde o Sétimo Doutor assume de vez a sua faceta “ChessMaster”, os Daleks voltam a ser de fato os principais vilões da história, tem uma série de sutis homenagens ao passado da série, pequenas metáforas sociais e filosóficas, e uma contextualização de época bem interessante, abordando temas que a série não poderia ter abordado vinte cinco anos antes.

Começando pelo McCoy, que está fantástico aqui (e ele já havia se mostrado incrível na fraca temporada anterior). Como você bem observou, McCoy parece abraçar com gosto essa faceta mais fria e manipuladora do Doutor, mas sem com isso abrir mão do que já havia construído para o personagem na 24º temporada, como o ar meio “sad clown” e a forte veia paternal (aqui dirigida a Ace,). A conversa com o Barman (que depois desse arco dever ter fechado o bar e ido trabalhar como mordomo do Will Smith 🙂 ) é daquele tipo de cena “discretamente magnífica. Aquela simples conversa disfarçada de divagação de bar tem uma série de camadas incríveis, por que eles estão falando de várias coisas ali, desde os pontos que você destacou muito bem, até a hesitação do Doutor em fazer o que esta prestes a fazer com Skaro.

Ace tem mesmo uma ótima participação nesta história, não É? (Só a cena do taco de beisebol já é um grande demonstrativo). E é um cartão de visitas muito melhor pra jovem de Perivale do que foi “DragonFire”. Uma das coisas que eu adoro em Ace, é que por trás de toda a marra e pose de “Bad Girl” ela é uma garota de certa forma muito inocente, e sua personalidade forte convive de forma paradoxal com uma certa fragilidade emocional, vide a forma como ela rapidamente confia rapidamente em Mike, e a forma como ela reage ao perceber a verdadeira face do rapaz.

Não sei se concorda, mas vejo ecos da relação professoral da dupla 4º/Leela em 7º/Ace.. Adoro a forma como ela mostra grande respeito e admiração pelo Doutor, mas sem com isso perder a sua veia rebelde (acho que disse isso em outro comentário, mas mesmo o fato de ela chamar o Time Lord de “Professor” é uma demonstração paradoxal de respeito e rebeldia). Como não sorrir com a insistência da garota em carregar seus amados Nitro 9, apesar da reprovação do Doutor?

Sendo essa a ultima história Dalek da Série Clássica, foi justo que os guerreiros de Skaro enfim tenham recuperado o antagonismo de tais histórias. Não sei se concorda, mas desde o surgimento de Davros em “Genesis of The Daleks”, essas criaturas foram ficando cada vez mais a sombra de seu criador, até ficarem totalmente em segundo plano em “Revelation Of The Daleks”. Embora Davros ainda tenha destaque, sinto que os Daleks recuperaram certa independência, por assim dizer (o que dá a guerra civil Dalek, além do caráter alegórico citado por você, também certo caráter metalinguístico, ao meu ver, mas posso estar viajando).

Curioso que chegando aos vinte cinco anos (quem diria que a série iria ainda mais longe, hein?) DW se permitiu lançar um olhar nada nostálgico para a época em que foi criado, expondo os problemas de segregação que assolavam o país e o mundo (e infelizmente ainda não foram completamente erradicados). Curioso que houve um tempo em que vinte cinco anos historicamente não significava nada, mas 1963 parece tão alienígena para Ace quanto o Ice World (mesmo a moeda é outra).

Algo que acho muito interessante também é que enquanto os Daleks surgiram como uma metáfora ao nazismo em 1963, tema ainda difícil de ser abordado diretamente, o roteiro de Ben Aaronovitch inclui simpatizantes nazistas de verdade em conluio com os Daleks aqui (não de forma explícita com uniformes e tal, mas muito clara pela declaração “A Inglaterra lutou no lado errado na ultima guerra”). E essas pessoas não são cientistas loucos escondidos em refúgios na America do Sul, e sim pessoas comuns vivendo no seio da sociedade londrina. Ficamos tão revoltados quanto Ace ao ouvir os argumentos de Mike não só por ele ser um traidor, mas por que ele acha que está realmente certo (e é triste notar que existem MUITAS pessoas hoje que tem discursos bem semelhantes).

Claro que nem tudo é crítica, e as homenagens a Série embora sutis, são muito legais. Foi fantástico ver este primeiro regresso a Coat Hill School e ao Ferro velho Foreman. E Ver Ace achando o livro sobre a revolução francesa que pertenceu a Susan aqueceu meu coração whovian. O pessoal do exército também são claramente contrapartes de personagens da era do 3º Doutor, como você sugere na crítica, com equivalentes a Liz e ao Brigadeiro. Repare como mesmo a traição de um “Mike” é referenciada (embora em contextos totalmente diferentes).

Em resumo, um grande arco, e na minha humilde opinião, a melhor história Dalek da Série Clássica.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 03:03

Olha, amigo, eu já estava meio desesperançoso de encontrar uma boa história aqui. Mas eis que vem essa lindeza total! Simplesmente adorei essa aventura!

Aquela conversa com o barman foi de tocar o coração! A força histórica e reflexiva que tem ali é tão grande que a cena é ao mesmo tempo emocionante e riquíssima em conteúdo. Além de ser muitíssimo bem dirigida (a variação de planos é perfeita para a forma como o diálogo evolui) e atuada.

Um ponto que você levantou e que eu concordo MUITO é o fato de Ace, apesar de ter aquela alma rebelde e ser toda trabalhada nos explosivos, tem mesmo essa inocência e até uma docilidade que é impressionante. E olha que Sophie Aldred parece nem se esforçar muito para nos dar essa impressão. A constituição da personagem foi de uma compleição simples (para ela, como atriz), mas para nós o efeito é bem forte, justamente pelo ótimo contraste.

E sim, eu concordo com você que existam ecos lá de 4º/Leela, mas naquela ocasião eu achava o Doutor mais… dominador. Não no sentido negativo. Mas dominador. Aqui ele é mais cínico. Ele tem talvez ainda mais controle que o 4º, mas ele vive disfarçando isso, manipulando meio que à distância… parece A Megera Domada, é uma coisa genial!

Eu concordo sim sobre o fato de eles ficarem à sombra de Davros, mas acho que não peguei sua relação com a metalinguagem. Ao que, exatamente, você se refere quando levante esse aspecto?

Essa coisa do Mike foi mesmo uma baita referência interessante. Eu dei até aquela risadinha de cumplicidade quando aconteceu…

Responder
Rafael Lima 12 de janeiro de 2018 - 20:29

A cena do bar é brilhante mesmo, não é? E o mais incrível é que ela é de uma sutileza e uma simplicidade maravilhosa. Afinal, é uma conversa que aborda uma série de temas profundos e relevantes pra caramba, que começa com a questão se o Doutor quer açúcar no chá. E concordo, a decupagem é excelente.

Creio que o Quarto Doutor era mais autoritário “no bom sentido” quando a questão era se por como educador, digamos assim. Ele tinha uma abordagem mais direta. O Sétimo Doutor, como você bem coloca, “come mais pelas beiradas”, tentando encontrar alguma disciplina dentro da indisciplina da Ace. E de fato, Ace é uma personagem que tem uma construção muito simples, mas ao mesmo tempo fascinante por esse contraste que você citou.

Quanto ao aspecto metalinguístico, sempre vi que Davros tentando tomar o império Dalek, parecia refletir a situação extradiegetica da série de Davros tomando o espaço dos Daleks dentro do próprio show.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 21:21

Aaaaah entendi essa questão do Davros que você tinha levantado. Acho que a BBC de alguma forma tinha medo de que depois de conhecermos Davros os Daleks não parecessem assim tão interessantes… por isso essa importância toda e até meio desmedida…

Responder
Rafael Lima 12 de janeiro de 2018 - 20:29

A cena do bar é brilhante mesmo, não é? E o mais incrível é que ela é de uma sutileza e uma simplicidade maravilhosa. Afinal, é uma conversa que aborda uma série de temas profundos e relevantes pra caramba, que começa com a questão se o Doutor quer açúcar no chá. E concordo, a decupagem é excelente.

Creio que o Quarto Doutor era mais autoritário “no bom sentido” quando a questão era se por como educador, digamos assim. Ele tinha uma abordagem mais direta. O Sétimo Doutor, como você bem coloca, “come mais pelas beiradas”, tentando encontrar alguma disciplina dentro da indisciplina da Ace. E de fato, Ace é uma personagem que tem uma construção muito simples, mas ao mesmo tempo fascinante por esse contraste que você citou.

Quanto ao aspecto metalinguístico, sempre vi que Davros tentando tomar o império Dalek, parecia refletir a situação extradiegetica da série de Davros tomando o espaço dos Daleks dentro do próprio show.

Responder
Luiz Santiago 12 de janeiro de 2018 - 03:03

Olha, amigo, eu já estava meio desesperançoso de encontrar uma boa história aqui. Mas eis que vem essa lindeza total! Simplesmente adorei essa aventura!

Aquela conversa com o barman foi de tocar o coração! A força histórica e reflexiva que tem ali é tão grande que a cena é ao mesmo tempo emocionante e riquíssima em conteúdo. Além de ser muitíssimo bem dirigida (a variação de planos é perfeita para a forma como o diálogo evolui) e atuada.

Um ponto que você levantou e que eu concordo MUITO é o fato de Ace, apesar de ter aquela alma rebelde e ser toda trabalhada nos explosivos, tem mesmo essa inocência e até uma docilidade que é impressionante. E olha que Sophie Aldred parece nem se esforçar muito para nos dar essa impressão. A constituição da personagem foi de uma compleição simples (para ela, como atriz), mas para nós o efeito é bem forte, justamente pelo ótimo contraste.

E sim, eu concordo com você que existam ecos lá de 4º/Leela, mas naquela ocasião eu achava o Doutor mais… dominador. Não no sentido negativo. Mas dominador. Aqui ele é mais cínico. Ele tem talvez ainda mais controle que o 4º, mas ele vive disfarçando isso, manipulando meio que à distância… parece A Megera Domada, é uma coisa genial!

Eu concordo sim sobre o fato de eles ficarem à sombra de Davros, mas acho que não peguei sua relação com a metalinguagem. Ao que, exatamente, você se refere quando levante esse aspecto?

Essa coisa do Mike foi mesmo uma baita referência interessante. Eu dei até aquela risadinha de cumplicidade quando aconteceu…

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