Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Terror of the Autons (Arco #55)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Terror of the Autons (Arco #55)

por Guilherme Coral
109 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

__ Who the heck are you? Well?

__ I am usually referred to as The Master

__ Oh! Is that so?

__ Universally

Equipe: 3º Doutor, Jo (+ UNIT, Brigadeiro Lethbridge-Stewart e Capitão Yates)
Era: UNIT — Ano 3
Espaço: Tarminster – Reino Unido
Tempo: Anos 1970

Com essas palavras Robert Holmes introduz no cânone de Doctor Who um de seus mais icônicos vilões, o Mestre, vivido pela primeira vez por Roger Delgado. Abrindo a oitava temporada da série clássica, Terror of the Autons, contudo, não trabalha somente com esse antagonista, ele marca o retorno dos Nestene, vistos por último em Spearhead from Space e que somente dariam as caras novamente já no episódio de abertura da série nova, Rose.

Similarmente ao que temos no arco The Invasion (#46), a história procede com o Time Lord renegado tentando trazer uma força invasora para o planeta Terra, a fim de destruir não só a humanidade como, especialmente, o Doutor, antigo rival do Mestre. Holmes elabora um roteiro bastante conciso, que dispensa grandes apresentações do vilão e o insere na trama sem grandes floreios. Delgado, com sua atuação digna de vilão de James Bond rouba todas as cenas em que aparece com expressões maquiavélicas e uma aparência que faz dele um bandido de imediato. Tais características e tom sempre calmo de sua voz garantem o funcionamento dos poder de controle mental do personagem, que assume uma natural credibilidade.

O antagonismo criado entre ele e o Doutor chega a ser palpável, por mais que ambos apareçam lado a lado raríssimas vezes. A oposição entre as personalidades é evidente, mas conseguem, ao mesmo tempo, nos passar a nítida impressão que ambos possuem diversos pontos em comum – Holmes trabalha com certos diálogos espelhados para trazer isso a tona -, algo que estaria presente em nosso imaginário mesmo se não soubéssemos que ambos são time lords. É curioso que, embora os Autons sejam a ameaça em primeiro plano, é verdadeiramente o Mestre que transmite a real sensação de perigo do arco, certamente um manipulador de primeira categoria.

A construção de sua personalidade, feita através de uma montagem paralela que divide a duração dos episódios com o foco no Doutor, é realizada organicamente. A cena de abertura – com diálogo transcrito acima – nos dá as informações necessárias para compreendermos a natureza da ameaça em questão e dá início ao plano do vilão sendo executado passo a passo. Com isso o espectador logo se vê engajado, tentando descobrir exatamente o que o Mestre irá realizar. Nesse meio temos um deslize, logo no primeiro capítulo: a aparição do mensageiro dos time lords, que acaba caindo em um didatismo desnecessário, ainda que curto. Naturalmente o personagem desempenha um papel maior, contribuindo para a sensação de perigo do arco, mas nada que já seja deixado claro anterior e posteriormente.

Infelizmente o tom de urgência almejado por Robert Holmes acaba sendo prejudicado pelo uso do conceito dos Nestene, o controle do plástico. Especificamente me refiro ao boneco assassino e ao fio de telefone, ambos utilizados como armas dentro do arco e que conseguem apenas causar boas risadas no espectador. A diversão, por outro lado, é garantida, ao passo que não podemos deixar de sermos cativados pelos inúmeros planos do Mestre para acabar com o Doutor, algo como o Coiote atrás do Papaléguas. Esse divertimento, porém, foge do objetivo do arco que é causar a tensão.

Outro aspecto que atua contra a qualidade de Terror of the Autons é o seu ritmo acelerado, fruto da montagem que encadeia acontecimentos de forma súbita, trazendo constantes elipses sem, ao menos, alternar o foco da narrativa entre eles. De uma hora para a outra personagens vão de um lugar para o outro, o que cria a sensação de que o arco fora reduzido em diversos pontos de sua duração total. Esse fator culmina na resolução, que conta com uma mudança de opinião praticamente instantânea, tirando grande parte da força do clímax da história.

Por último, mas não menos importante, temos a introdução de uma nova companion para o terceiro Doutor, Jo Grant (Katy Manning), que é recebida com notável relutância pelo time lord. A relação entre os dois, ainda que em seus primeiros passos traz alguns momentos de confiança, mas que, em geral, se resumem ao Doutor pedindo para que Jo faça alguma coisa, fazendo jus ao cargo de assistente que a personagem assume. Neste primeiro arco ela tem poucas ocasiões de destaque e não realiza ações muito significativas, deixando-nos na vontade de ver a companheira do Doutor crescer em termos narrativos.

Apesar de inúmeros deslizes, Terror of the Autons é um arco que dificilmente não irá divertir o espectador, além disso é simplesmente obrigatório para qualquer fã da série por trazer a notável primeira aparição do Mestre. Uma história curta e engajante que consegue sobressair aos defeitos, fruto, certamente, das atuações de Jon Pertwee e Roger Delgado.

Terror of the Autons (Arco #55) — 8ª Temporada
Direção: Barry Letts
Roteiro: Robert Holmes
Elenco: Jon Pertwee, Katy Manning, Nicholas Courtney, John Levene, Richard Franklin, Roger Delgado

Audiência média: 8 milhões

4 episódios (exibidos entre 02 e 23 de Janeiro de 1971)

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5 comentários

Rafael Lima 28 de janeiro de 2017 - 12:32

Esse arco tem mesmo algumas coisas que parecem ter saído da série do Batman de 66. A poltrona e o telefone assassino são de rir de constrangimento. Hehehe

É interessante observar, que apesar dos excessos, esse arco meio que deu o tom não só do que seria essa temporada, mas todo o restante da era do 3º Doutor. Depois de uma temporada de estréia bem sombria e sisuda, as historias do mandato de John Pertwee adotariam um ar mais leve e divertido.

Gosto muito da Jo, e acho que ela meio que representa a mudança de tom que a série buscou nessa oitava temporada. Uma mudança bem brusca em relação a sua antecessora. Liz era uma mulher madura, séria e compenetrada, que não se deixava impressionar facilmente pelo Doutor. Jo, ao contrário é bem muleca, esbanja alegria, e logo se vê fascinada pelo universo do Doutor.

Mas de fato, não foi a melhor estréia de uma Companion. Embora acabe resgatando o Doutor em certo ponto, ela parece mais atrapalhar o pessoal da UNIT do que ajudar nesse primeiro arco. Felizmente, ela seria melhor utilizada no futuro.

Quanto ao Mestre do Delgado, você disse praticamente tudo @guilhermecoral:disqus . De fato, as semelhanças entre o Doutor e o Mestre são o aspecto melhor trabalhado neste arco. De fato, ficamos com a impressão, de que o Doutor poderia ter se transformado no Mestre, se tivesse feito algumas escolhas diferentes na vida, e o mesmo vale para o Mestre em relação ao Doutor.

Como disse em outra discussão, Delgado é o meu Mestre favorito. O legal é que diferente de outras versões, ele parece ver tudo como um jogo. Está mais interessado em encher o saco do Doutor do que em vencê-lo. O importante pra ele é a disputa, perder ou vencer é consequência. E o mais engraçado é que o arco deixa claro, que intimamente, o Doutor gosta tanto desses “jogos” quanto o Mestre, reforçando o caráter Holmes/Moriarty que existe entre os dois personagens.

Enfim, apesar dos defeitos é um arco divertido, e muito importante para o universo da série, como muito bem exposto pela resenha.

Grande Abraço!

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Augusto 29 de março de 2015 - 15:03

Ótima crítica, esse arco tinha tudo para ser perfeito, pena que não é, mas, a importância dele é gigantesca, apresentar a Jo e o Mestre (o Roger Delgado é genial, melhor Mestre de todos) na mesma história não é para qualquer um.

O que me irrita bastante é a mudança de pensamento tão rápida do Mestre, uma hora ele está planejando dominar a Terra, na outra ele está morrendo de medo dos Autons, não faz sentido nenhum, mas tudo bem, o importante é que os arcos com o Mestre ainda vão melhorar.

Abs.

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Guilherme Coral 1 de abril de 2015 - 17:26

Essa mudança repentina de pensamento ficou muito mal elaborada mesmo, uma pena. Mas ainda vale pelo Delgadão!

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Luiz Santiago 28 de março de 2015 - 21:07

Gosto desse arco, mas tenho com ele os mesmo problemas que você também teve. O legal é que algumas coisas que aparecem aqui pela primeira vez serão bem melhor exploradas ao longo da era do 3º Doutor. Refiro-me a Jo e ao Mestre.
Jo às vezes é mal trabalhada em alguns arcos, mas, à medida que o tempo passa, a relação entre ela e o Doutor fica linda. E ela é muito fofa, então é uma companion a quem é fácil se apegar.
Já o Mestre… ele é sensacional! Delgado matou a pau! Adoro a interpretação dele!!!

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Guilherme Coral 29 de março de 2015 - 01:09

Pior que também gostei bastante da Jo, mas queria ver mais ação por parte dela no arco! E realmente, Delgado é sensacional – clássico vilão!

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