Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Terror of the Vervoids (Arco #143c: The Trial Of A Time Lord)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: Terror of the Vervoids (Arco #143c: The Trial Of A Time Lord)

por Luiz Santiago
85 views (a partir de agosto de 2020)
terror of the vervoids plano critico doctor who

estrelas 3,5

Equipe: 6º Doutor, Mel
Saga: The Trial Of A Time Lord
Espaço: Nave Espacial dos Time Lords / Nave Hyperion III
Tempo: 16 de Abril de 2986

No momento em que Terror of the Vervoids foi produzido, a relação entre John Nathan-Turner, o showrunner de Doctor Who na época, e o editor de roteiros, Eric Saward, estava cada vez mais complicada. A contratação da atriz Bonnie Langford para interpretar a nova companion do Doutor não foi bem recebida nos bastidores e apenas JNT via com bons olhos a adição de Bonnie à série, primeiro pelo fato de ser uma atriz conhecida no Reino Unido, devido sua participação na série Just William (1977 – 1978) e no programa musical/de dança The Hot Shoe Show (1983 – 1984); segundo, porque ela apresentava um grande contraste em relação às companheiras recentes do Senhor do Tempo, tanto em nacionalidade (novamente uma britânica desde Sarah Jane) e em personalidade, não só vestindo a carapuça da “donzela em perigo” mas mostrando fortes traços feministas, além de uma propensão típica dos anos finais da década de 1980, que foi a febre  fitness.

Com efeito, o momento em que Mel aparece com o Doutor na TARDIS, a sensação é de que perdemos anos e anos de Doctor Who e estamos voltando inadvertidamente para a série. O único foco que nos prende a uma sequência da temporada é o julgamento do Doutor, que apresenta aqui uma aventura do seu próprio futuro. É particularmente curioso que JNT tenha permitido um roteiro que abordasse algo que estava no futuro do Doutor, e em termos de comprometimento do personagem, torna-se intrigante vermos que o Time Lord não pensou duas vezes em usar algo “diferente” para a sua defesa. Talvez ele imaginasse que o Valeyard (ou quem quer que estivesse manipulando a Matrix) não iria mexer naquelas memórias, mas ele estava enganado. O final desse arco torna tudo ainda mais difícil para o Doutor, agora acusado de genocídio.

Ver Mel colocando seu amigo para fazer exercícios (“eu estou preocupada com a sua cintura!“), exigindo que ele bebesse suco de cenoura e impedindo que ele comesse um lanchinho na Nave Hyperion III realmente mostra uma mudança de personalidade no Senhor do Tempo, digo, no tratamento em relação à sua companion. A parceria do tipo “morde-e-assopra” que ele tinha com Peri agora é transformada em uma parceria DE VERDADE, com ambos os lados falando, sugerindo, agindo e tendo voz e motivações ao longo de toda a história, o que nos faz dar um voto positivo para o casal Pip e Jane Baker (autores do bom The Mark of the Rani), por criarem Mel com essa audácia e energia tremendas. Outra coisa que percebemos de diferente aqui é a postura do Doutor em relação às coisas que estão à sua volta. Ele ainda mantém o lado orgulhoso e “ignorante” típico dos Time Lords, mas parece ceder mais do que estava acostumado, o que nos faz pensar em todo o cenário e brecha que poderia ser preenchido para explicar e justificar essa mudança de comportamento.

Neste arco, o julgamento se torna ainda mais artificial, talvez porque não existe alteração alguma no cenário e a história de ligação para a temporada foi temática, não de caráter nuclear, ou seja, um só evento abarca o serial inteiro, mas este evento se mantém inalterado, dando corda para o “enforcamento final”, no último arco, uma escolha pobre, mas que, pensando bem, não tinha alternativa melhor dentro dessa proposta de julgamento. Não com a perseguição que Doctor Who tinha de sua própria produção a essa altura.

O design dos Vervoids é verdadeiramente aplaudível, principalmente a parte do “rosto”. O corpo não impressiona tanto, mas ainda assim mantém o vilão interessante e me fez lembrar da concepção de Alan Moore para o Monstro do Pântano, que curiosamente estava sendo publicado nesse mesmo período, nos Estados Unidos. A espécie vegetal de formato humanoide que age por instinto ganha um julgamento ético e moral completamente diferente aqui, algo muito maior do que o simples “vilão assassino”. Mesmo que a base de Agatha Christie que os autores trouxeram para o roteiro (os livros E Não Sobrou Nenhum e Assassinato no Expresso do Oriente, principalmente) sugira essa culpa imediata, a reflexão final do Doutor nos faz pensar as ações dos Vervoids de uma maneira completamente diferente. Ainda é interessante destacar a interação entre as distintas espécies a bordo e o fato de o Doutor conhecer, de aventuras passadas, duas das pessoas que encontra na nave. E falando desse espaço cênico, destacamos o interior, com um ótimo trabalho da equipe de direção de arte.

A apresentação sem detalhes de Mel poderia ser um tiro no pé, mas acabou sendo algo interessante. A companion é rejeitada e odiada por muitos, por conta de sua voz e postura ultra-alegre, mas acho que foi uma boa escolha, uma tripulante da TARDIS completamente diferente de todas as que já estiveram lá, ao menos na TV, até essa altura da série. É de se imaginar como teria sido interessante se ela pudesse viajar mais com o Doutor, tendo uma nova direção nos roteiros, algo que infelizmente não foi possível. Semanas antes deste arco ir ao ar, Colin Baker foi informado de sua demissão da série, algo que, obviamente, enfureceu o ator. Na mesma época, o criador de Doctor Who, Sydney Newman, contatou os chefes de produção da BBC exigindo que seu nome constasse nos créditos dos episódios e, mais tarde, em uma infrutífera e hostil reunião com Jonathan Powell, discutiu sugestões previamente enviadas para o escritório do controlador da série, Michael Grade, como:

  • Retorno de Patrick Troughton como Doutor;
  • Trama para as temporadas seguintes que possibilitasse a regeneração do Doutor em um corpo feminino;
  • Companheiros como um garoto trompetista de 12 anos e seu irmão grafiteiro de 18 anos;
  • O Doutor novamente incapaz de controlar a TARDIS;
  • Aventuras centradas mais na Terra do que fora dela, explorando cenários que envolvesse a NASA, o UGM-27 Polaris, um encontro com Cristóvão Colombo e uma aventura em que a TARDIS fosse miniaturalizada, como em Planet Of Giants.

Mesmo diante da boa notícia de que a série seria renovada para a 24ª Temporada, JNT foi obrigado a engolir a demissão de Colin Baker (algo que ele odiou) e as preparações para a temporada seguinte do show se tornaram mais birrentas, com inúmeros conflitos de interesses nos bastidores e muita, muita ideia diferente para que o programa voltasse a fazer sucesso.

Terror of the Vervoids: The Trial Of A Time Lord (Arco #143c) — 23ª Temporada
Direção: Chris Clough
Roteiro: Pip Baker, Jane Baker
Elenco: Colin Baker, Bonnie Langford, Michael Jayston, Lynda Bellingham, Honor Blackman, Michael Craig, Denys Hawthorne, Yolande Palfrey, Malcolm Tierney, David Allister, Tony Scoggo, Arthur Hewlett, Simon Slater, Sam Howard, Leon Davis
Audiência média: 5,08 milhões
4 episódios (exibidos entre 1º e 22 de novembro de 1986)

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4 comentários

Rafael Lima 14 de agosto de 2017 - 01:53

Grande resenha como sempre, Luis, mas devo confessar que fui surpreendido pela sua visão sobre a Mel nesta resenha. Parece que diferente do que aconteceu com a Tegan e com a Peri, dessa vez vamos realmente concordar! Já estava achando que você ia odiar a Mel. (Hehehe). Mel não é a companion mais popular entre os Whovians mesmo, mas eu gosto bastante dela. A cena de introdução da personagem com ela forçando o Doutor a malhar naquela bicicleta, além de ser hilária, já apontava que a dinâmica dentro da TARDIS sofreria uma grande mudança.

As pessoas reclamam da postura ultra alegre da garota, mas acho que isso era justamente o que a série estava precisando naquele momento. Desde Romana II não tínhamos uma companion que realmente parecia se maravilhar em viajar pelo tempo e espaço, e que tivesse uma relação tão leve com o Doutor. Portanto, acredito que Mel tenha sido um sopro de ar fresco na TARDIS, especialmente após o pesado “Mindwarp”.

Concordo que Mel possuía características únicas que tentavam se comunicar com a juventude da época, como a citada onda fitness apontada por você, e um flerte com o feminismo. Mas ao mesmo tempo, sinto que Mel foi criada com uma série de características que nos remetem diretamente a companions anteriores. Mel parece dever muito de sua alegria e fofura a Jo Grant, da era do 3º Doutor, ela é uma menina gênio, capaz de auxiliar tecnicamente o Doutor, como foram antes dela, Susan, Vicki, e Zoe. E mesmo a sua tendência para gritos parece remeter a companions do passado, já que as antecessoras diretas de Mel pareciam ter abandonado essa “prática”.

Eu vejo Mel como uma personagem extremamente simples em sua concepção, criada em cima do básico do que se espera de uma companion. Mas apesar de não concordar, entendo por que ela não é muito querida pelos fãs. Afinal, a TV não deu lá muitas camadas para a personagem. Sabemos que ela é uma menina alegre, doce, inteligente, vinda de Pease Pottage, e que gosta muito de malhar e gritar. E é isso. Mel não teve uma jornada dramática na série, e provavelmente é a companion menos desenvolvida da Era Turner. Mas dane-se, ela é fofa (Hehehe). E acho que mesmo não sendo uma grande atriz, Bonnie Langford deu um carisma enorme para a personagem, e teve uma ótima química tanto com Colin Baker quanto com seu sucessor.

Sobre a relação muito mais leve que o Doutor tem com Mel, acho que existe uma série de fatores ai. Além do Sexto Doutor já estar bem mais maduro, e amaciado por sua convivência com Peri, acho que a própria Mel sabia lidar muito melhor com o Sexto Doutor do que Peri. É curioso como a programadora parece trazer o lado mais meigo tanto do Sexto Doutor quanto do Sétimo. O Universo Expandido aprofundaria mais esse aspecto da relação da jovem com o Time Lord, sugerindo que por trás da aparência meiga e inocente, Mel possui uma personalidade muito forte, que sabia bem quando dobrar o Doutor quando necessário.

Agora, enfim falando de outros aspectos do arco. Gosto muito do clima “Agatha Christie” presente no roteiro que você aponta, assim como o conflito moral que envolve a ameaça dos Vervoids. Não tinha me ligado, mas eles realmente lembram o Monstro do Pantano. Concordo que diferente do arco anterior, os trechos situados no julgamento voltam a ser mal inseridos pela montagem, atrapalhando o andamento da história dos Vervoids, embora não seja nada tão gritante quanto o que ocorreu com “The Misterious Planet”.

Achei intrigante, embora tenha me incomodado um pouco o fato dos Time Lords serem capazes de acessar imagens do próprio futuro através da Matrix. Isso dá ao arco inclusive um ar de “Minority Report”, já que o Valeyard pede a execução do Doutor por um crime que ele ainda não cometeu. Mas confesso que tenho alguns problemas com a forma como o conceito é utilizado aqui.

Quanto ao fato da saga do Julgamento só vier realmente a ter relevância na season finale, acho que é uma característica que a série já havia apresentado antes, e voltaria a apresentar na Nova Série. Afinal, toda a busca da Chave do Tempo na era do Quarto Doutor só faz real sentido no arco final, já que as peças da Chave eram só a desculpa para o Doutor chegar nos lugares onde as histórias se passavam. O “arco Bad Wolf” da primeira temporada da Nova Série, só teria relevância na Season Finale. Assim como o “Arco Torchwood” na 2ª temporada, e o “Arco do Hibrido” na 9ª temporada.

Enfim, obrigado por mais esse ótimo texto, Luis! Agora é esperar o adeus do Sexto Doutor (bem, mais ou menos).

PS: Caraca, então a Série Clássica realmente cogitou a possibilidade de termos uma Doutora como protagonista? Newman foi visionário, hein?

PS 2: É realmente muito injusto o que houve com Colin Baker. Turner tinha algumas idéias interessantes para a 24ª temporada caso ela tivesse sido renovada. Ela teria o Valeyard como vilão recorrente, e enquanto os primeiros arcos trariam a Mel do Futuro, os arcos finais trariam uma história de origem para Mel contando como ela se juntou a TARDIS. De certa forma, Mel foi quase a percursora de River Song no quesito companion com linha do tempo confusa, já que o Doutor começaria viajando com Mel com a linha do tempo dos dois dessincronizadas. Mas uma das várias condições que a BBC (leia-se Michael Grade) impôs para a renovação, fosse que a trama do Valeyard e a história de origem de Mel que Turner queria contar fossem abandonadas, já que seria complicado demais para o público. Isso deixou o Turner bem desgostoso, mas felizmente muitas dessas idéias foram reaproveitadas do Universo Expandido (e verdade seja dita, talvez melhor trabalhadas do que se o Turner as tivesse executado).

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Luiz Santiago 14 de agosto de 2017 - 03:46

Tá vendo? Sempre terá o momento de concordar em alguma coisa! hahahahaha. Essa chegada dela foi realmente diferente para mim. Eu já a conhecia dos áudios da BF e tinha gostado dele já ali, mas não tinha expectativas altas para a presença dela na série justamente por este momento em que ela aparece. Um momento mais delicado e com uma personagem com essa característica… hummm… é um problema à vista, né? Mas deu super certo.

Achei muito interessante os pontos da personalidade dela que você levanta. Isso me fez pensar em como determinadas escolhas são essenciais para DW e a gente só consegue ver isso um pouco depois que acontece. A Nova Série tem uns exemplos disso tb.

No caso do julgamento, eu entendi o que você colocou, mas o meu pensamento vai pelo seguinte caminho. Se uma história tem como ponto a resolução apenas no final, as partes precisam de uma organização em duas frentes, elas precisam ser fortes e se sustentaram como partes isoladas e dar elementos de sobra para tornar o final melhor. O que a gente tem nesta saga, apesar do tema sugerido, vai por outro caminho, porque é um tema para partes fechadas cujo final é a conclusão de uma ideia sem utilizar tudo o que foi feito antes. É absurdamente frustrante. Lembro o quão puto fiquei com RTD por ter feito o maior estardalhaço com Bad Wolf e no final ser só aquilo. Precisou do Tio Moff para dar uma verdadeira função e me fazer gostar, retroativamente, daquele final.

E sobre o arco do híbrido, ainda continuo achando méeeee como tudo aconteceu. Eu gosto mais do que no caso de Bad Wolf, porque o roteiro dava mais possibilidades, mas não estou satisfeito. Vamos esperar e ver se isso volta para a série no futuro.

Bota visionário nisso! E é o tipo de coisa que cala imediatamente qualquer fala sobre “modinha” em relação à nossa 13ª Doutora.

As propostas para a série nos anos 80 realmente levariam o programa para um renovo. Depois da saída do Peter Davison e da primeira temporada não muito bem recebida do Colin Baker, a visão das pessoas que queriam fazer a coisa dar certo se estendeu para lugares muito bons. Pena que não foi possível executar essas histórias.

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Augusto 13 de agosto de 2017 - 20:57

Eu gosto bastante desse arco, junto com Mindwarp são os melhores da temporada. Acho a ideia de colocar uma companion que ainda está no futuro do Doutor muito boa, mas que vai criar um problema no próximo arco, quando o Doutor parece conhecer a Mel há muito tempo.

Sobre a Mel, acho ela muito boa em história mais leves ou investigativas, como essa (tanto que minha história preferida com ela é o áudio The One Doctor, que é muito divertido). Quando ela está em arcos mais sérios, ela me irrita um pouco (o próximo arco é um exemplo disso), mas mesmo assim considero ela uma boa companion, sempre lembrando que ela participou de uma época com arcos mais fracos e uma produção muito confusa.

Eu não acho os Vervoids tão ameaçadores, e o arco seria melhor sem eles. Pra mim, os melhores momentos aqui são da investigação dos assassinatos, e se o vilão não fosse um alienígena seria mais interessante. Outra coisa que me irrita é o sequestro da nave no fim de um dos episódios, que só serve pra perder tempo da história principal. Mesmo assim gosto da história, e acho ela uma das melhores do Colin Baker.

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Luiz Santiago 14 de agosto de 2017 - 02:15

The One Doctor é uma história realmente muito divertida. Foi uma das produções da BF que mais me fizeram rir. E de fato a Mel se mostra melhor nesse tipo de história, até porque combina mais com esse espírito expansivo dela. Não sei se em algum momento bem futuro da BF ela muda, mas até onde a vi, sempre parece essa pessoa alegre hehehhehe.

A ideia foi bastante arriscada, mas acabou funcionando. Em parte, porque o mistério, ao menos comigo, impulsionou para conhecer melhor a companion, esperar por informações. Creio que se não fosse uma época tão caótica, teria tido um resultado muito melhor a médio prazo.

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