Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Curse of Fenric (Arco #154)

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Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Maiden’s Point, Northumberland
Tempo: 1943

Muita coisa para encontrar justificativa nesta aventura incomum e intensa do 7º Doutor. Penúltimo arco exibido da Série ClássicaThe Curse of Fenric traz um número muito grande de sugestões sobre o Doutor, sobre Ace; faz relações com Silver Nemesis e mais uma vez coloca o Doutor em um estado de manipulação tremendo e relativamente incômodo, novamente com Ace no centro das atenções. Eu já havia levantado em Ghost Light a questão de “linha final” desse Doutor, caso a série prosseguisse, e a pergunta volta aqui, com um pontinho a mais de preocupação e até expectativa (frustrada e hipotética, já que só teríamos mais uma oportunidade de vê-lo em cena, pelo menos na TV). Nada disso, porém, é um posicionamento negativo de minha parte. Longe disso.

Quando exponho essa “preocupação” em relação ao comportamento do Doutor e digo que há um “incômodo”, falo pela simples análise moral que isso tem para com o momento da série e pelo pouco espaço de tempo que essa personalidade teve para se construir. E porque Ace era uma companheira que ainda não tinha encontrado um nível de independência e força a ponto de ver-se preparada para encarar esse tipo de coisa (como personagem e como parte de um contexto maior, dentro da série). Nesse ponto, é importante fazer uma comparação de Doutores com ações duras em relação a seus companheiros. O primeiro exemplo é do meu, até qui, Doutor favorito em todo o escopo da Série, o 12º Doutor e sua relação com Clara, na 8ª Temporada da Nova Série; ou olhando para a Série Clássica, a relação do 6º Doutor com Peri.

Nos dois casos citados, eu consigo ver um contexto propício para ações mais duras e, especialmente no caso do 12º, um maior e bem aproveitado tempo de construção do personagem e provações passadas em diversos níveis ao lado da companheira. Agora vejamos o 7º Doutor. Mesmo que as primeiras e leves nuances de sua personalidade controladora, manipulativa e fortemente ligada a “jogos” (mentais ou não) já tenham sido apresentadas em Paradise Towers, o segundo arco de sua Era, nada indicava uma mudança tão grande, até porque essa mudança acontece sob uma característica da própria série, que é o Doutor ocultando de todo mundo sua verdadeira intenção. Ele é um jogador com o elemento surpresa guardado, dando uma de “João sem braço” quando sabe exatamente o que está acontecendo e quando tem uma boa ideia do que deve ser feito. Mesmo assim, ele aceita o desafio e talvez espere uma segunda chance para aqueles que estão envolvidos no caso. Para Ace, infelizmente, isso não é nada interessante. E não é à toa que logo depois dessa aventura ele faça uma visita a ela, ainda bebê, e lhe peça perdão por traí-la, de certa forma, em suas últimas viagens juntos, como vemos no belo conto Ace of Hearts.

Passando-se em plena Segunda Guerra MundialThe Curse of Fenric carrega um pouco do espírito bélico de Battlefield, especialmente porque os militares não são, nesses dois casos, coadjuvantes de ocasião, eles convivem com o Doutor e lhes são inimigos ou parceiros ao longo da história. Mas ao mesmo tempo que servem como apelo instigante de Ian Briggs, esses personagens aparecem em atalhos demais, chegando a atrapalhar e até a desviar a nossa atenção. A mesma coisa (e talvez de maneira ainda mais forte e problemática) acontece com o Comandante Millington e o Dr. Judson, com sua Ultima Machine. Em nenhum desses casos temos “blocos genuinamente ruins”, é verdade, mas em todos eles temos um exagero no roteiro em segmentar demais as ações e deixar algumas praticamente sem sentido ou outras mal fechadas, como a quase incompreensível relação de “ataque-não-ataque” envolvendo os soldados russos.

Muita gente não gosta dos Haemovores (Homo Haemovorax) mas eu acho o conceito e a representação visual para esses personagens simplesmente sensacionais. Se a gente tirar as inúteis vampiras que começam na história como jovens rebeldes com mania de natação; a incursão dos Haemovores é muito boa e a máscara e roupas (destaque absoluto para The Ancient One) são algumas das melhores coisas do arco. Aliás, os figurinos aqui se destacam seguindo um bom modelo de escolha do guarda-roupa que DW vinha tendo nessa temporada, mesmo no falho conto pseudo-arturiano.

Eis aqui uma verdadeira jogada de Mestre do Doutor, com Sylvester McCoy mais uma vez grandioso em cena, transitando bem entre momentos leves e outros fortemente dramáticos. É uma pena que os desvios e a confusão do bloco dos militares tenham minado a qualidade do arco. Mesmo assim, trata-se de uma boa história de revelações, entendimento de si mesmo e demonstração de arrependimento com concessão de perdão. Nada mal para uma reunião de tantos “amaldiçoados” num mesmo lugar, não é mesmo?

The Curse of Fenric (Arco #154) — 26ª Temporada
Direção: Nicholas Mallett
Roteiro: Ian Briggs
Elenco: Sylvester McCoy, Sophie Aldred, Dinsdale Landen, Alfred Lynch, Stevan Rimkus, Marcus Hutton, Christien Anholt, Tomek Bork, Peter Czajkowski, Marek Anton, Mark Conrad, Nicholas Parsons, Janet Henfrey, Joann Kenny, Joanne Bell, Anne Reid, Cory Pulman, Aaron Hanley, Raymond Trickett
Audiência média: 4,12 milhões
4 episódios (exibidos entre 25 de outubro e 15 de novembro de 1989)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.