Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Curse of Peladon (Arco #61)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Curse of Peladon (Arco #61)

por Luiz Santiago
102 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Klokleeda partha mennin klatch, harooon harooon harooon… Klokleeda sheena teerinatch, harooon harooon harooon.

Venusian lullaby

Equipe: 3º Doutor, Jo
Era: As Guerras Interplanetárias
Espaço: Planeta Peladon
Tempo: 3885

The Curse of Peladon é um daqueles arcos subestimados da Série Clássica por um motivo que até hoje eu não entendo por quê. Alguns fãs depositam todo o desagrado em cima do personagem de David Troughton (filho de Patrick Troughton, que interpreta o rei de Peladon, de Peladon — sim, porque a zuera na BBC não tem limites) e parecem se esquecer de todo o restante da história, deixando de considerar o seu interessantíssimo conceito geopolítico e as influências culturais que Brian Hayles trouxe para o roteiro.

Manipulada pelos Time Lords e sem o Doutor e Jo inicialmente perceberem, a TARDIS se materializa nas montanhas do Planeta Peladon, no final do século 39. No local está em andamento a difícil negociação para a entrada de Peladon na Federação Galática, formada por Alpha Centauri, Arcturus, Marte e Terra. Contrastando interesses particulares de um dos delegados aos interesses da Federação, a trama se desenrola quase unicamente sob esse ângulo político, sendo preenchida pelo misticismo local –- a crença em um deus bestial parecido com Alfie e chamado Aggedor -– e a tentativa de resistência por parte do Sumo Sacerdote Hepesh, que vê a entrada de Peladon na Federação Galática como uma tragédia para o Planeta em todos os sentidos.

Utilizando elementos de obras como Hamlet e O Cão dos Baskervilles, Brian Hayles faz uma incrível sátira política ao momento histórico do Reino Unido no início dos anos 70, onde se via parte da população e alguns políticos fazendo de tudo para que o país não entrasse na Comunidade Econômica Europeia (para a qual o RU entrou definitivamente em 1973), trazendo a justificativa de que o país seria escravo das nações mais fortes do grupo.

Há alguns elementos góticos no desenho de produção e, ao menos em composição geral, o arco guarda semelhanças visuais com The Daemons, com direito a um ser mítico, um culto (aqui abordado de forma sutil e não demoníaca) e túneis e cavernas para serem explorados. O conceito de ambientação para o Planeta Peladon também é muito interessante. O lugar, diz-se, é parecido com a Terra, mas se mostra castigado por relâmpagos e trovões. E o castelo do rei Peladon de Peladon (hehehe) parece ficar no lugar mais estranho e medonho possível.

A direção a cargo de Lennie Mayne, possui problemas de finalização, especialmente no diálogo com a montagem, incluindo cenas que em nada acrescentam à história e, em termos de condução de atores, falhando bastante com o rei Peladon, um personagem realmente muito chato. Outros, porém, possuem melhor destino, como os delegados da Federação Galática, um grupo peculiar e em quem o espectador não consegue confiar um minuto sequer (mesmo no estranhamento fofo delegado de Alpha Centauri e sua voz de criança). A presença dos Ice Warriors como uma raça pacífica (que só usa violência em caso de autodefesa, segundo eles) também é um constante ponto de alerta. Ainda vale destacar a incrível atuação de Jon Pertwee, que se destaca com louvor na cena de luta e canta de maneira muito bonita a Venusian Lullaby, fazendo-nos repetir a melodia depois do arco terminado; e a doce Katy Manning, aqui assumindo a persona de Princesa Josephine de TARDIS.

Mesclando terror e política The Curse of Peladon é uma interessante, medonha e divertida excursão intergalática do Doutor ao lado de Jo em um momento de sua vida em que esse tipo de viagem era algo raro e proibido.

The Curse of Peladon (Arco #61) — 9ª Temporada
Direção: Lennie Mayne
Roteiro: Brian Hayles
Elenco: Jon Pertwee, Katy Manning, David Troughton, Geoffrey Toone, Henry Gilbert

Audiência média: 9,38 milhões

4 episódios (exibidos entre 29 de janeiro e 19 de fevereiro de 1972)

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8 comentários

Rafael Lima 28 de janeiro de 2017 - 16:47

Cara, gosto muito desse arco! Como você bem disse @luizsantiago:disqus , ele é um ponto fora da curva durante esse período da série, que era tão fincado na Terra, mas que se ajusta muito bem a essa persona mais aristocrática do Terceiro Doutor.

Já li por ai alguns artigos dizendo que a Era do Terceiro Doutor era uma fase que ia na contramão do resto da série por ter um teor “excessivamente imperialista”. Besteira na minha opinião. De fato, mesmo que o Doutor fosse basicamente um agente do governo, a série nunca perdeu o senso crítico, e esta inclusive pode ter sido uma das fases mais antenadas politicamente com o que estava acontecendo, creio eu. Esse contexto que você deu sobre o que acontecia no Reino Unido da época só reforçou essa minha impressão.

E como a Jo cresce nesse arco, não acha? A garota se mostra bem mais independente nessa aventura e ainda mais pró ativa do que já era antes. De fato, Jo resolve uma boa parte dos conflitos da trama, se mostrando uma parceira extremamente valiosa para o Time Lord.

Fora que o Doutor esta bem mais gentil com a sua assistente, já que no início da parceria entre os dois eu admirava a paciência da moça em suportar umas patadas que o Doutor dava nela. Hehehe. De fato, o fim do arco mostra o quanto o Doutor passou a valorizar a companhia de Jo ao se mostrar visivelmente aliviado quando ela recusa o convite para permanecer em Peladon.

John Pertwee está excelente nesta história, podendo desempenhar as principais facetas de sua versão do Doutor, seja como diplomata, seja como herói de ação. Ah, e a canção de ninar venusiana gruda na cabeça mesmo. Hehehe.

Todos os membros da comitiva da Federação Intergaláctica são personagens bem interessantes e divertidos, especialmente o (ou a a) Alpha Centauri. Gostei também de vermos os Guerreiros Do Gelo em outro momento de sua história, mais pacíficos, mas ainda assim Guerreiros. Uma das poucas coisas que não gostei desse arco, é que sinto que faltou um reconhecimento da parte do Doutor em assumir que estava errado em relação a esses marcianos. Afinal, em primeira instância, ele não está disposto a lhes dar o benefício da dúvida. Não chega a ser xenofobia, mas chega bem perto. Senti que ficou faltando um “Mea Culpa” do Doutor aqui.

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Rafael Lima 28 de janeiro de 2017 - 16:47

Cara, gosto muito desse arco! Como você bem disse @luizsantiago:disqus , ele é um ponto fora da curva durante esse período da série, que era tão fincado na Terra, mas que se ajusta muito bem a essa persona mais aristocrática do Terceiro Doutor.

Já li por ai alguns artigos dizendo que a Era do Terceiro Doutor era uma fase que ia na contramão do resto da série por ter um teor “excessivamente imperialista”. Besteira na minha opinião. De fato, mesmo que o Doutor fosse basicamente um agente do governo, a série nunca perdeu o senso crítico, e esta inclusive pode ter sido uma das fases mais antenadas politicamente com o que estava acontecendo, creio eu. Esse contexto que você deu sobre o que acontecia no Reino Unido da época só reforçou essa minha impressão.

E como a Jo cresce nesse arco, não acha? A garota se mostra bem mais independente nessa aventura e ainda mais pró ativa do que já era antes. De fato, Jo resolve uma boa parte dos conflitos da trama, se mostrando uma parceira extremamente valiosa para o Time Lord.

Fora que o Doutor esta bem mais gentil com a sua assistente, já que no início da parceria entre os dois eu admirava a paciência da moça em suportar umas patadas que o Doutor dava nela. Hehehe. De fato, o fim do arco mostra o quanto o Doutor passou a valorizar a companhia de Jo ao se mostrar visivelmente aliviado quando ela recusa o convite para permanecer em Peladon.

John Pertwee está excelente nesta história, podendo desempenhar as principais facetas de sua versão do Doutor, seja como diplomata, seja como herói de ação. Ah, e a canção de ninar venusiana gruda na cabeça mesmo. Hehehe.

Todos os membros da comitiva da Federação Intergaláctica são personagens bem interessantes e divertidos, especialmente o (ou a a) Alpha Centauri. Gostei também de vermos os Guerreiros Do Gelo em outro momento de sua história, mais pacíficos, mas ainda assim Guerreiros. Uma das poucas coisas que não gostei desse arco, é que sinto que faltou um reconhecimento da parte do Doutor em assumir que estava errado em relação a esses marcianos. Afinal, em primeira instância, ele não está disposto a lhes dar o benefício da dúvida. Não chega a ser xenofobia, mas chega bem perto. Senti que ficou faltando um “Mea Culpa” do Doutor aqui.

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Luiz Santiago 29 de janeiro de 2017 - 12:07

Essa era diplomática é mesmo uma das mais antenadas politicamente. E não concordo em nada com essa coisa de “imperialista” e tal. As pessoas ficam piradas demais, loucas demais na problematização e focam apenas em UM aspecto da coisa, deixando de lado o contexto e o que leva cada personagem a agir de determinada forma. Eu vejo o 3º Doutor como um porta-voz da humanidade. Às vezes mais duro, às vezes mais receptivo com algumas espécies, mas ainda assim, um bom porta-voz.

E o Pertwee é incrível mesmo. A atuação dele é forte, imperativa. Não admira que tenha sido em sua fase que o Mestre, na pessoa garbosa do Delgado apareceu…

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Luiz Santiago 29 de janeiro de 2017 - 12:07

Essa era diplomática é mesmo uma das mais antenadas politicamente. E não concordo em nada com essa coisa de “imperialista” e tal. As pessoas ficam piradas demais, loucas demais na problematização e focam apenas em UM aspecto da coisa, deixando de lado o contexto e o que leva cada personagem a agir de determinada forma. Eu vejo o 3º Doutor como um porta-voz da humanidade. Às vezes mais duro, às vezes mais receptivo com algumas espécies, mas ainda assim, um bom porta-voz.

E o Pertwee é incrível mesmo. A atuação dele é forte, imperativa. Não admira que tenha sido em sua fase que o Mestre, na pessoa garbosa do Delgado apareceu…

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Augusto 9 de maio de 2015 - 11:46

Adoro esse arco, e não sabia dessa situação que o Reino Unido passava na época, melhorou bastante o arco agora. Concordo que o rei é um pouco (muito) chato, mas não atrapalha o todo, a Alpha Centauri é uma das personagens mais geniais de Doctor Who e a mudança dos Ice Warriors é muito boa também.

Esse é um dos melhores exemplos da era do 3° Doutor, são poucos arcos grandiosos (ele nunca volta no tempo para tentar acabar com os Daleks antes deles existirem ou é atacado por múmias marcianas), mas esses arcos menores são pérolas de Doctor Who, e a simplicidade é uma das coisas que eu mais gosto nessa era.

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Luiz Santiago 9 de maio de 2015 - 12:43

Dá toda uma visão diferente quando a gente sabe a fonte que inspirou determinado tratamento de roteiro, não é? Conforme eu vou avançando nos arcos do 3º Doutor eu vou percebendo quantas pequenas pérolas estão escondidas nesse período e que muita gente que já viu a Série Clássica parece simplesmente desprezar…

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Augusto 10 de maio de 2015 - 18:52

Muitos episódios dessa época as pessoas desprezam mesmo, lembro de, depois de assistir The Time Monster, procurar na Internet alguma crítica e só vi gente falando mal pra caramba e eu tinha gostado do arco, e Curse of Peladon é a mesma coisa, um arco ótimo e bem desprezado. Parece que os ingleses só gostam da era do Tom Baker e dos arcos dele.

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Luiz Santiago 10 de maio de 2015 - 19:32

Se tornou a era mais popular mesmo. Eu vi arcos soltos da era do Baker, ele como Doutor é fora de série, mas não sei, acho que muitas vezes os whovians possuem tendências fanáticas em suas emoções. Não é por que um período tem coisas ruins ou elementos que eu não gosto que ele é, necessariamente, todo ruim, não é?

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