Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Face of Evil (Arco #89)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Face of Evil (Arco #89)

por Luiz Santiago
107 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

__ Would you like a Jelly Baby?

__ It’s true then. They say the Evil One eats babies.

Equipe: 4º Doutor, Leela
Espaço: Planeta de Leela, um planeta-colônia (não nomeado)
Tempo: algum ponto entre o ano 22.000 e o ano 33.935

Parodiando o episódio bíblico da criação do homem e os filmes Planeta Proibido (1956) e O Senhor das Moscas (1963), Chris Boucher nos presenteia com o excelente The Face of Evil, arco que introduz Leela — que não era para se tornar companion, mas os planos mudaram nas filmagens do último episódio — e traz o Doutor às voltas com uma intervenção sua, no passado, que deu muito errado a longo prazo. Nós não vemos e não sabemos muita coisa sobre o primeiro contato do Doutor com a Expedição Mordee, mas o tempo faz mudanças muito bruscas no cenário que ele imaginou ter deixado pronto para seguir em frente.

Os descendentes da equipe de pesquisa (survey team), viraram a tribo Sevateem e os descendentes dos técnicos (technicians) viraram os Tesh. O computador Xoanon adotou a personalidade do Doutor e passou a agir de forma muito estranha, como o primeiro de uma espécie confusa e enraivecida que tinha medo de quase tudo e não sabia se controlar. O cenário é perfeito para a adequação de elementos de alta tecnologia em um meio selvagem, o que a equipe de produção fez com primazia, posicionando cada “sucata” da Expedição Mordee no lugar certo, seja como roupas religiosas ou como elementos sagrados.

Mas o arco não é interessante apenas pela sua direção de arte e roteiro cheio de surpresas. A história coloca o Doutor frente a uma de suas ações, o que acontece poucas vezes em Doctor Who, ao menos de forma aberta e crítica. Não podemos deixar de nos lembrar que no conto As Raízes do Mal, claramente inspirado neste roteiro, o Doutor estará diante do mesmo problema, mas causado por outra de suas encarnações. Aqui, porém, ele se sente culpado e perturbado pela novidade da revelação de que como viajante do tempo ele poderia tanto causar o bem quanto condenar, mesmo sem saber, uma civilização inteira a viver com medo, em condições bem precárias ou ainda, acreditando que um super-computador é um Deus, só porque houve um erro de medida de consequências. Ser um Time Lord definitivamente não é algo fácil.

Ao longo da história, Leela ganha espaço e vai conquistando o espectador. Não é de se espantar que a atriz Louise Jameson tenha conseguido mudar a linha de produção e segurar-se na série ao final do último episódio. Sua interpretação de Leela é doce e ao mesmo tempo decidida, violenta — é paradoxal, mas quem viu o arco sabe o que estou falando — e disposta a defender com unhas e dentas o que acredita ser certo. E convenhamos que a composição do espaço de seu planeta, a trilha sonora assustadora do arco, a fotografia escura e pontualmente avermelhada para as tomadas externas e tendências quase laboratoriais para as internas ajudam a torná-la ainda mais exótica e ao mesmo tempo familiar. É esse jogo de extremos e contrastes que faz a selvagem e impositiva garota se tornar uma das mais importantes companions da série, com um longevo futuro ao lado do Doutor nos arcos e no Universo Expandido, até morrer, milhares de anos depois (pelo menos na forma como a conhecemos) na Trilogia da Morte de Leela, feita para a série The Companion Chronicles.

Uma sensacional mistura de tecnologia, selvageria, efeitos de viagem no tempo e aspectos diversos da origem de uma religião ou seita, The Face of Evil apresenta Leela em uma história bem escrita e abarrotada de bons momentos. O ano de 1977 começava para Doctor Who com o pé direito.

The Face of Evil (Arco #89) — 14ª Temporada
Direção: Pennant Roberts
Roteiro: Chris Boucher
Elenco: Tom Baker, Louise Jameson, David Garfield, Victor Lucas, Brendan Price, Leslie Schofield, Colin Thomas, Lloyd McGuire, Tom Kelly

Audiência média: 11,20 milhões

4 episódios (exibidos entre 1º e 22 de janeiro de 1977)

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11 comentários

Rafael Lima 15 de dezembro de 2016 - 12:04

Adoro esse arco! Afinal, além de ter um roteiro fantástico do Boucher, apresenta uma das minhas companions favoritas da série. Como você bem disse, a dicotomia da Leela é fantástica. A garota pode cortar a sua garganta se você olhar errado pra ela, mas ao mesmo tempo ela é dona de uma ingenuidade graciosa e capaz de grande doçura, vide os momentos finais, em que é revelado que ela ficou ao lado do Doutor por todo o tempo que ele ficou desacordado

Essa deve ser uma reclamação bem comum dos Whovians, mas sinto falta de Companions mais exóticos como a Leela na Nova Série, que tragam novos conflitos, como a Saveteen trouxe aqui. Adoro as Companions da Nova Série, mas são todas garotas contemporâneas que tem mais ou menos o mesmo tipo de conflito. A mais diferente era a Donna por ser mais madura que as outras. Não que todas sejam exatamente iguais, mas no quesito escolha de Companions, sinto que a Série Clássica era tematicamente mais diversificada.

Um fator interessante sobre “The Face Of Evil” é que em seus primeiros minutos ele prova, pelo menos pra mim, que o desejo do Tom Baker de fazer um Doctor Who sem companions não era possível, pelo menos naquela época.

“The Deadly Assassin” funcionou por que a história era tão movimentada e preocupada em mostrar a cultura de Gallifrey que acabamos não sentindo falta do companion. Mas pegue a cena de abertura dessa história, que traz um momento mais tranquilo com o 4º Doutor chegando no planeta. Ele tem que quebrar a quarta parede pra ter alguém com quem falar pra explicar onde ele acha que está.

Hoje, acho que até rolaria. O Davies meio que fez isso na “temporada de especiais” que marcou o fim da era do 10º Doutor, onde o Doutor viajava sem Companions. Mas não tem jeito, os Companions continuam sendo o ponto de vista do público e é o que humaniza o Doutor. Não acho impossível, mas é difícil imaginar uma temporada toda sem Companions como o Tom Baker imaginou na época.

PS: “The Face Of Evil” tem algumas das melhores piadas da era 4º Doutor, como a que você pôs no início da resenha. Também Ri alto com o lance das Jelly Babies mortais. Hehehehe

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Rafael Lima 15 de dezembro de 2016 - 12:04

Adoro esse arco! Afinal, além de ter um roteiro fantástico do Boucher, apresenta uma das minhas companions favoritas da série. Como você bem disse, a dicotomia da Leela é fantástica. A garota pode cortar a sua garganta se você olhar errado pra ela, mas ao mesmo tempo ela é dona de uma ingenuidade graciosa e capaz de grande doçura, vide os momentos finais, em que é revelado que ela ficou ao lado do Doutor por todo o tempo que ele ficou desacordado

Essa deve ser uma reclamação bem comum dos Whovians, mas sinto falta de Companions mais exóticos como a Leela na Nova Série, que tragam novos conflitos, como a Saveteen trouxe aqui. Adoro as Companions da Nova Série, mas são todas garotas contemporâneas que tem mais ou menos o mesmo tipo de conflito. A mais diferente era a Donna por ser mais madura que as outras. Não que todas sejam exatamente iguais, mas no quesito escolha de Companions, sinto que a Série Clássica era tematicamente mais diversificada.

Um fator interessante sobre “The Face Of Evil” é que em seus primeiros minutos ele prova, pelo menos pra mim, que o desejo do Tom Baker de fazer um Doctor Who sem companions não era possível, pelo menos naquela época.

“The Deadly Assassin” funcionou por que a história era tão movimentada e preocupada em mostrar a cultura de Gallifrey que acabamos não sentindo falta do companion. Mas pegue a cena de abertura dessa história, que traz um momento mais tranquilo com o 4º Doutor chegando no planeta. Ele tem que quebrar a quarta parede pra ter alguém com quem falar pra explicar onde ele acha que está.

Hoje, acho que até rolaria. O Davies meio que fez isso na “temporada de especiais” que marcou o fim da era do 10º Doutor, onde o Doutor viajava sem Companions. Mas não tem jeito, os Companions continuam sendo o ponto de vista do público e é o que humaniza o Doutor. Não acho impossível, mas é difícil imaginar uma temporada toda sem Companions como o Tom Baker imaginou na época.

PS: “The Face Of Evil” tem algumas das melhores piadas da era 4º Doutor, como a que você pôs no início da resenha. Também Ri alto com o lance das Jelly Babies mortais. Hehehehe

Responder
Luiz Santiago 15 de dezembro de 2016 - 13:23

Eu simplesmente AMO a Leela. E o mais legal é o crescimento que ela vai tendo na série e que merecidamente ganhou no Universo Expandido, o que achei excelente. Essa dualidade entre selvagem, ingênua e doce é algo tão rico para roteiros que qualquer bom roteirista deveria rir quando ia escrever algo para ela e o Doutor.

Concordo com você em relação às companheiras da Nova Série. E eu particularmente adoraria ver uma companion mais exótica, alien mesmo, ao lado meu Doutor favorito da Nova Série, que é o 12º. Eu já gostei muito da apresentação da Bill, mas ainda não sabemos quem ela é de verdade. Mas me parece que é humana. Como eu estava conversando na crítica de Class com outros leitores, se o Psi e a Saibra voltassem como companions… oh, como eu amei aqueles dois e a química com o Doutor!

É, acho que funciona em um grupo de episódios em um determinado contexto e em obras-primas como Heaven Sent, mas o Capaldi é um puta ator, então não conta como padrão para dizer que funcionaria sempre, porque ele não vai ficar pra sempre (poderia, eu não ligaria, mas… hahahahahahha).

Essa piada da das Jelly Babies me fez gargalhar alto!

Responder
Rafael Lima 16 de dezembro de 2016 - 00:03

Leela é mesmo fantástica! Entra no meu Top 5 Companions fácil.

Não vi muita coisa com ela no universo expandido, somente algumas histórias de “Gallifrey” da Big Finish que achei fantástico. Mas nada que explorasse mais o tempo dela com o 4º Doutor.

Responder
Luiz Santiago 16 de dezembro de 2016 - 00:49

Estou deixando os spin-offs para curtir depois. Tenho MUITA curiosidade para ouvir essa série.

Responder
Luiz Santiago 16 de dezembro de 2016 - 00:49

Estou deixando os spin-offs para curtir depois. Tenho MUITA curiosidade para ouvir essa série.

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Rafael Lima 16 de dezembro de 2016 - 15:20

Não costumo acompanhar os Spin Offs com regularidade também. Nem “Torchwood” e “The Sarah Jane Adventures” eu acompanhei, excetuando os episódios em que o Doutor aparece em “The Sarah Jane Adventures”.

Mas “Galliffrey” era protagonizado por duas das minhas companions favoritas. Como eu poderia resistir? hehehe. Não consegui ouvir todas as temporadas, bem longe disso, alias. Mas gostei bastante dos episódios que ouvi.

Luiz Santiago 16 de dezembro de 2016 - 16:08

Na TV eu abri uma exceção. Eu vi Torchwood todinha e Sarah Jane eu vi as 3 primeiras temporadas. Mas tenho uma enorme curiosidade de pegar os spin-offs da Big Finish. Talvez quando eu acabar as duas séries que estou fazendo no momento, Companion Chronicles e The Fourth Doctor Adventures, eu faça isso.

Luiz Santiago 16 de dezembro de 2016 - 16:08

Na TV eu abri uma exceção. Eu vi Torchwood todinha e Sarah Jane eu vi as 3 primeiras temporadas. Mas tenho uma enorme curiosidade de pegar os spin-offs da Big Finish. Talvez quando eu acabar as duas séries que estou fazendo no momento, Companion Chronicles e The Fourth Doctor Adventures, eu faça isso.

Rafael Lima 16 de dezembro de 2016 - 00:03

Leela é mesmo fantástica! Entra no meu Top 5 Companions fácil.

Não vi muita coisa com ela no universo expandido, somente algumas histórias de “Gallifrey” da Big Finish que achei fantástico. Mas nada que explorasse mais o tempo dela com o 4º Doutor.

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Luiz Santiago 15 de dezembro de 2016 - 13:23

Eu simplesmente AMO a Leela. E o mais legal é o crescimento que ela vai tendo na série e que merecidamente ganhou no Universo Expandido, o que achei excelente. Essa dualidade entre selvagem, ingênua e doce é algo tão rico para roteiros que qualquer bom roteirista deveria rir quando ia escrever algo para ela e o Doutor.

Concordo com você em relação às companheiras da Nova Série. E eu particularmente adoraria ver uma companion mais exótica, alien mesmo, ao lado meu Doutor favorito da Nova Série, que é o 12º. Eu já gostei muito da apresentação da Bill, mas ainda não sabemos quem ela é de verdade. Mas me parece que é humana. Como eu estava conversando na crítica de Class com outros leitores, se o Psi e a Saibra voltassem como companions… oh, como eu amei aqueles dois e a química com o Doutor!

É, acho que funciona em um grupo de episódios em um determinado contexto e em obras-primas como Heaven Sent, mas o Capaldi é um puta ator, então não conta como padrão para dizer que funcionaria sempre, porque ele não vai ficar pra sempre (poderia, eu não ligaria, mas… hahahahahahha).

Essa piada da das Jelly Babies me fez gargalhar alto!

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