Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Invasion (Arco #46)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Invasion (Arco #46)

por Guilherme Coral
79 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Equipe: 2º Doutor, Jamie, Zoe
Espaço-tempo: Londres, 1968

Após suas peripécias em outra dimensão, na Terra da Ficção, em The Mind Robber, o Doutor volta ao planeta Terra no século XX, onde reencontra com um velho aliado. Refiro-me, é claro, ao agora Brigadeiro Lethbridge-Stewart, em sua segunda aparição na série após o arco The Web of Fear. De suas aventuras passadas, contudo, não é somente um amigo que o Time-Lord encontra – os Cybermen novamente dão as caras, dessa vez atuando em conjunto com um ambicioso dono de uma empresa de tecnologia. The Invasion, todavia, nos traz uma narrativa diferente para Doctor Who, assemelhando-se aos thrillers de espionagem dos anos 60.

Ao se aproximar de nosso planeta, com uma Tardis defeituosa, o Doutor, Jamie e Zoe, são atacados por algo desconhecido no lado oculto da Lua. Um míssil voa na direção da caixa azul e, por pouco, escapam da morte certa. Aterrissando na Terra, eles decidem buscar o professor Watkins para ajuda-los na manutenção da espaçonave. Não demora muito, porém, para se verem em uma intriga conspiratória envolvendo a empresa International Eletromatics e seu dono, Tobias Vaughn. Apesar da história se passar em nosso universo, e não em uma realidade paralela, não podemos deixar de nos sentir em uma distopia, onde a empresa com caráter autoritário se firma como uma eminência parda durante todo o arco. Esse clima é bem construído nos episódios iniciais, abrindo espaço para o já citado tom de espionagem que a obra adota.

Essa característica marcante se deve a diversos elementos. O primeiro deles é o próprio antagonista, Vaughn, que poderia ser tirado direto de um filme de James Bond, trazendo enormes similaridades com Auric Goldfinger, que se estendem desde sua personalidade – sempre prepotente, certo de si – até seu covil multimilionário. Com isso, temos diversas sequências ao longo do arco que constroem essa figura vilanesca, que chega a ofuscar até mesmo a aparição dos Cybermen. Geralmente, contracenando com o personagem, temos seu chefe de segurança Packer, que nos traz uma espécie de alivio cômico em diversos momentos graças a sua incompetência digna de Pinky, de Pinky e o Cérebro.

As similaridades com outras produções não param por aí. Ao pensarmos na série nova de Doctor Who, encontraremos óbvios paralelos entre este arco e os dois episódios Rise of the Cybermen e The Age of Steel, ambos da segunda temporada, que trazem premissas bastante próximas ao que vemos aqui. O próprio vilão, ainda que não tão marcante e divertido – e o mérito aqui vai para Kevin Stoney como Vaughn – nos traz uma personalidade similar, ainda que tenha objetivos bastantes distintos.

O clima de thriller de espionagem ainda se estende para diversas situações onde o Doutor e Jamie se esgueiram, furtivamente, pelos corredores da International Eletromatics, acompanhados por uma trilha digna da temática escolhida. Nos episódios finais vemos tal drama se transformar na clássica corrida contra o tempo, envolvendo a própria invasão dos cybermen e uma iminente bomba a caminho da Terra. Tenho fortes ressalvas, contudo, em relação a esses capítulos finais, pois não conseguem nos trazer a tensão desejada e a tão aclamada invasão não nos transmite qualquer ameaça, ainda que conte com famosos e bem executados planos da marcha dos cyberman. Piorando tal situação temos um encerramento completamente anticlimático e apressado, que chega a tomar o Senhor do Tempo como um completo desalmado, que sequer se importa com a morte de um personagem de destaque.

Os deslizes se estendem ainda para a subutilização de coadjuvantes. Ainda que a UNIT exerça um papel central dentro da trama, Jamie e Zoe são poucas vezes colocados lado a lado, ao passo que um deles é convenientemente dado sumiço enquanto o outro atua efetivamente. Por outro lado, as personagens femininas são retratadas com bastante força e caráter, realizando ações de destaque que não só divertem como se encaixam organicamente dentro da proposta estabelecida. Impossível não se deixar levar pela química entre Isobel e Zoe, possibilitada unicamente pelas atuações de Sally Faulkner e Wendy Padbury.

Devo, antes de encerrar esta crítica, ressaltar que dois episódios do arco são reconstituições, que ganharam animações produzidas pela própria BBC. Estas funcionam perfeitamente e, com uma técnica que emula a animação de recorte, conseguem captar bem as expressões dos personagens principais. É claro que a atuação, de fato, de Troughton faz falta, o que acaba tirando grande parte do atrativo dos episódios em questão, mas, na falta das imagens originais, estas exercem um excelente papel.

The Invasion, apesar de seus altos e baixos, é um arco que dificilmente não irá agradar ao espectador, contendo traços fortes dos filmes de espionagem dos anos 60. Em diversos momentos nos sentiremos diante de um longa-metragem de James Bond, assistindo um de seus vilões darem seus longos discursos maquiavélicos. E claro, jamais esqueceremos essa história por nos introduzir, enfim, a famosa (e saudosa) UNIT.

The Invasion (Arco #46) – 6ª Temporada

Direção: Douglas Camfield
Roteiro: Derrick Sherwin
Elenco principal: Patrick Troughton, Frazer Hines, Wendy Padbury, Nicholas Courtney, John Levene, Edward Burnham, Sally Faulkner, Kevin Stoney

Audiência média: 7 milhões

8 episódios (exibidos entre 2 de Novembro e 21 de Dezembro de 1968)

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4 comentários

Rafael Lima 31 de dezembro de 2016 - 12:32

Eis aqui uma história muito divertida, feita no melhor estilo James Bond. Concordo plenamente com a resenha, Vaughn e seu capanga poderiam perfeitamente ter saído de um filme do 007.

Apesar dos Cybermans serem mesmo subutilizados, não tem como não deixar de comentar a cena assustadora em que um Cyberman sai gritando em agonia pelos esgostos depois de ter suas emoções restauradas. Outra influência direta ao tratamento que esses androides receberam em seu primeiro arco na nova série. Afinal, como diz o Décimo Doutor “Emoções doem”.

É interessante notar que temos aqui pela primeira vez na série a tentativa de organizar um “núcleo terrestre” ao colocar o 2º Doutor e seus Companheiros voltando a procurar os Travers na então Inglaterra contemporânea, mesmo que não os encontrem.

De fato, o Jamie é bem subutilizado nesta história. Mas verdade seja dita, o companion já havia chegado ao auge de seu desenvolvimento, e começava a demonstrar sinais de cansaço. O próprio Frazier Hines já estava querendo sair, só permanecendo na série a pedido de Patrick Throughton, de quem se tornou grande amigo.

A Zoe entretanto, ao lado da Isobel domima todas as cenas de que participa. A cena da garota explodindo um “computador primitivo” é hilária. Wendy Padbury sempre traz a série uma energia muito bem vinda

Só acho que esse é um episódio grande demais, que decididamente não precisava de oito episódios. Dava pra cortar uns dois episódios de boa.

PS: Gostaria de desejar um Feliz Ano Novo pra toda a equipe do Plano Crítico, sempre realizando um ótimo trabalho. Um grande ano pra todos vocês.

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Guilherme Coral 31 de dezembro de 2016 - 20:51

Esse é um dos arcos da série clássica que mais me marcou! Realmente tem todos esses problemas que você comentou – em geral esses arcos de 8 episódios não se sustentam muito mesmo (ao menos os que assisti!).

Feliz ano novo para você também, cara! Muito obrigado por nos acompanhar! Ótimo ano para você!

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Luiz Santiago 17 de setembro de 2014 - 22:10

Caramba, Gui, que crítica maravilhosa! Adorei a abordagem bem ao estilo de James Bond que você fez e concordo plenamente com isso. Aliás, eis aqui aquele parâmetro que eu falei para você: a diferença entre o didatismo da era do 1º Doutor e o lado mais detetivesco ou aventureiro que a série ganha de meados da 5ª temporada para frente. Dá pra perceber bem a diferença, não?

Concordo com todos os pontos que você colocou. Acho o trabalho do roteiro em relação aos Cybermen um ponto menor diante do bem estruturado elemento humano. Mas apesar disso, a história é boa no todo e tem realmente momentos muito bons, de tensão e excelente atuação do Patrick no papel principal.

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Guilherme Coral 18 de setembro de 2014 - 15:20

Muito obrigado, Luiz! Realmente não tem como não ver a diferença para as aventuras do 1º Doutor. Por mais que eu goste delas, sem todo o lado didático ficam histórias muito mais fluidas (e olha que gostei muito de The Daleks e The Azteks).

A falta de investimento nos cybermen nesse arco realmente é uma pena, daria para fazer algo bem legal junto com sr. Goldfinger ali. E aqueles planos deles marchando são fantásticos!

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