Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Krotons (Arco #47)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Krotons (Arco #47)

por Guilherme Coral
107 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Equipe: 2º Doutor, Jamie, Zoe
Espaço-tempo: Planeta Gond, ano desconhecido

The Krotons marca a entrada de Robert Holmes em Doctor Who. Holmes foi quem mais escreveu roteiros para a série clássica, elaborando arcos de destaque que introduziram diversos elementos cruciais para a história da série – estes envolvem não só a primeira citação de Gallifrey pelo nome, como a aparição de inimigos como o Mestre e os Sontaran. Muito antes disso, porém, o escritor teve seu humilde início neste arco que, inicialmente, fora um projeto de ficção-científica enviado para a BBC.

O arco nos introduz a um conceito bastante interessante, cercado de mistério. O Doutor, Zoe e Jamie pousam em um planeta aparentemente devastado. Lá, porém, encontram uma raça, os Gonds, que se submetem a seres conhecidos como os Krotons. Contudo, há um grande problema: ninguém jamais vira um Kroton em um período de mil anos, levantando dúvidas em alguns se eles sequer existem. O que vemos, portanto, é um povo que se submete a essa entidade misteriosa, aprendendo tudo que sabem através de suas máquinas, devido a uma guerra que perderam há um milênio. O medo governa essa sociedade e fugir às regras é praticamente impensável, mesmo diante de constantes oferendas humanas que essas figuras requisitam de tempos em tempos. Não é preciso dizer que o Doutor presencia uma dessas mortes e prontamente parte para investigar.

O desejo por ajudar, todavia, não é imediato, já que vemos o protagonista querendo sair daquele local assim que encontra uma máquina desconhecida. Aqui entramos em um ponto interessante, levantado, também, por outra constatação no próprio arco. Ouvimos o time-lord dizendo “I’m not a doctor of medicine” (não sou um doutor de medicina). Demonstrando, mais uma vez, que as ajudas prestadas pelo homem acontecem por acaso, não sendo, necessariamente, intencionais. Por muito tempo, afinal, vemos constantes empreitadas do Senhor do tempo em apenas preservar sua vida e a de seus companheiros – algo que, aos poucos, se molda para se transformar na figura de super-herói que vemos na série nova.

Dado início seu envolvimento com os Gonds, entramos nos trechos mais envolventes do arco, que não só colocam em dúvida a existência dos Krotons naquele momento, como os motivos por trás de suas máquinas ali deixadas para “educar” a raça mais primitiva. Logo descobrimos que nada mais se trata de uma forma de lavagem cerebral, obrigando os outros seres a atuarem como escravos. O mistério, mesmo diante de tais revelações, porém, continua e com ele a fluidez dos episódios. Lentamente, de forma bastante orgânica, Holmes insere uma subtrama, lidando com conflitos políticos entre os Gonds. Estes ganham mais destaque com o passar do tempo e passam a ocupar um papel de destaque na narrativa, sem nos distrair do elemento central da trama e possuindo um grande valor narrativo – algo que não vemos, por exemplo, em The Dominators.

Todo o conceito criado por Robert sofre um abalo com a aparição, de fato, dos Krotons. Primeiro pois é tirado um dos elementos mais interessantes da história: se eles existem ou não. Segundo devido a seu design que não consegue oferecer qualquer ameaça, por mais que conte com uma arma desintegradora. Mais uma vez observamos um visual típico das produções sci-fi dos anos 1950/60 e que, em diversos pontos, nos lembram outro ramo desta árvore, os Daleks. Ao contrário dos vilões apresentados no segundo arco da série, contudo, estes não conseguem nos convencer, sofrendo com os exatos mesmos problemas dos Quarks, também na sexta temporada. Para mascarar a falta de mobilidade das criaturas robóticas temos a utilização de planos ponto de vista, nos quais somente vemos um dos braços armados dos antagonistas. Estes chegam a funcionar e diminuem o claro problema narrativo que passamos a ter.

É neste momento preciso que Holmes se recupera, dando o já mencionado destaque à subtrama da política interna dos Gonds, trazendo, assim, a ameaça de caráter humano para o Doutor e seus companheiros. Após um momentâneo deslize o arco volta a funcionar e passa a trabalhar em cima de qual solução será empregada para se eliminar a ameaça dos robôs. A fluidez é recuperada através do constante embate entre paz e guerra, planejamento ou impulsividade. Aliando-se a esse ritmo preciso temos uma montagem que sabe efetivamente intercalar os diferentes pontos de vista. Ora acompanhamos o Doutor e Zoe – com atuações emblemáticas que garantem a química entre os dois – ora os próprios Gonds em seus conflitos. O defeito somente se apresenta na subutilização de Jamie, que, mais uma vez, parece esquecido em diversos pontos da trama.

Esses pontuais deslizes, porém, não são o suficiente para tirar nosso gosto pelo arco, que ironicamente se prejudica pelos seres que a ele emprestam o nome. The Krotons é uma história que possuía um gigantesco potencial ao não nos apresentar os vilões propriamente ditos. Ainda assim consegue nos entreter, perdendo em poucos momentos a nossa atenção e nos trazendo uma história fluida com elementos que atuam organicamente em conjunto. Um digno início para Robert Holmes em Doctor Who.

The Krotons (Arco #47) – 6ª Temporada

Direção: David Maloney
Roteiro: Robert Holmes
Elenco principal: Patrick Troughton, Frazer Hines, Wendy Padbury, Terence Brown, Richard Ireson, James Cairncross, Gilbert Wynne

Audiência média: 8 milhões

4 episódios (exibidos entre 28 de Dezembro de 1968 e 18 de Janeiro de 1969)

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6 comentários

Luiz Santiago 22 de setembro de 2014 - 01:12

De fato foi um bom início para o Holmes, mas o ponto insosso lá no meio incomoda pra caramba. Mas coo você disse, a coisa muda na reta final e tudo volta a ser o que era antes, ou quase, já que as coisas, nesse ponto, caminham para a finalização.

Coitado do Jamie! Tudo bem que o ator não era assim um Marlon Brando na atuação, mas era tremendamente simpático e quando bem dirigido, entregada boas performances. Às vezes dá até bronca dessa subutilização dele.

O que eu gosto muito de ver é o trabalho com a Zoe. Enfim uma personagem feminina na Série Clássica, depois de Barbara, que tinha força e importância realmente notáveis. 😀

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Guilherme Coral 22 de setembro de 2014 - 14:14

Exatamente, Luiz. Eu estava achando a premissa ótima, para no meio cair na mesmice. O que salva é o lado humano.

Em relação ao Jamie eu realmente queria ver uma participação maior dele. Acho que nada supera a Zoe com o Doutor, mas investir em uma química entre os três seria muito bom!

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Luiz Santiago 22 de setembro de 2014 - 17:04

Pra ser sincero, não há um único arco em que essa química é explorada plenamente. Infelizmente há o destaque de um e outro mas não dos dois. Porém, acho essa dupla simplesmente sensacional, e a relação deles com o Patrick Troughton é simplesmente impagável!

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Guilherme Coral 23 de setembro de 2014 - 01:14

Eu gosto muito da maneira como eles cuidam do Doutor. O próprio Jamie fala para a Zoe “cuide dele, você sabe como ele é”. Acho o máximo isso!

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Luiz Santiago 23 de setembro de 2014 - 16:57

Isso é de uma fofura gigantesca! Aliás, a relação dele com o Jamie é assim, muito amor!
Em The War Games dá até um aperto no coração…

Guilherme Coral 23 de setembro de 2014 - 20:15

Na cronologia ainda estou no primeiro Doutor, mas não vejo a hora de ver The War Games!!!

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