Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Mind Robber (Arco #45)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Mind Robber (Arco #45)

por Ritter Fan
107 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Equipe: 2º Doutor, Jamie, Zoe
Espaço-tempo: Dulkis, ano desconhecido (início), Terra da Ficção (outra dimensão)

Bem antes de Fábulas, O Inescrito, Kill Shakespeare, Grimm e Once Upon a Time e todas essas obras magistralmente fundindo, de uma maneira ou outra, realidade com o mundo da literatura, havia um pequeno programa de TV britânico que, em curtos e despretensiosos cinco episódios de 20 minutos de duração cada, trouxe para as telinhas uma versão brilhantemente concisa desse conceito em um belo exemplo de roteiro irretocável. Não que o arco seja perfeito, pois ele sofre problemas de ritmo, mas, em termos de conteúdo, The Mind Robber é um primor.

Depois de provocar uma erupção vulcânica em Dulkis, para derrotar os Dominators, o Doutor, Jamie e Zoe se vêem cercado de lava (ou seria espuma de barbear?) fervente. O Doutor, então, utiliza uma “unidade de emergência” que catapulta a TARDIS para fora do espaço-tempo normal ou, em português claro, para fora da realidade em si. Jamie e Zoe logo são atraídos para fora da pequena caixa azul de polícia, apesar dos avisos do Doutor e acabam em um mundo vazio, com uma névoa misteriosa. Não demora e o Doutor vai atrás, apenas para, a cada episódio, a trinca se deparar com florestas de letras, soldadinhos de corda e personagens clássicos como Gulliver, Rapunzel, Minotauro, Medusa, Cyrano de Bergerac, D’Artagnan e Karkus, esse último um herói de quadrinhos no estilo do Superman, só que da era de Zoe.

Por trás da trama, logo descobrimos que há alguém chamado, apenas, de The Master e Peter Ling, no roteiro e David Maloney, na direção, fazem de tudo para deixar o espectador em suspense sobre a verdadeira identidade desse vilão. Seria ele o Mestre como o Doutor conhecera, ou alguém muito diferente?

A resposta está na própria trama. Estamos “fora da realidade” na chamada Terra da Ficção e, lá, personagens “reais” não existem. Portanto, esse The Master é diferente do arqui-inimigo do Doutor e, arriscaria dizer, com um enorme potencial nunca aproveitado em arcos posteriores (somente em literatura whoviana). O mundo onde nossos heróis se encontram é um mundo em que a ficção se mistura com a realidade, em que personagens reais podem se tornar fictícios caso The Master assim conte a história. É um incrível exemplo de meta-história que raramente encontramos hoje em dia e que é muito bem desenvolvida ao longo dos episódios.

É claro que temos que ultrapassar a famosa “tosquidão” dos cenários e figurinos para apreciar o arco e isso é particularmente difícil no começo, com o Doutor, Jamie e Zoe no vazio e, depois, na floresta de letras. É que tudo é extremamente artificial e a história, nesses dois episódios iniciais, ainda não acertou seu passo. No entanto, quando Gulliver passa a ter mais presença na narrativa e especialmente quando Rapunzel entra na história, já conseguimos esquecer com facilidade as restrições orçamentárias da série e apreciar a história pelo que ela é.

Além disso, é fascinante notar que, mesmo modesto, o arco conta com uma enorme profusão de atores fazendo os mais diversos papeis da literatura mundial, sempre com muito cuidado para tornar fácil nosso trabalho de diferenciá-los. Há cavaleiros medievais, unicórnios, piratas, crianças e uma boa quantidade de props exclusivas desse arco que acabam compensando os problemas iniciais tanto de qualidade da produção quanto de ritmo.

The Mind Robber é um grande exemplar do quão importante é um roteiro azeitado para qualquer obra audiovisual. Ele é capaz de suprir falhas envolvendo o espectador de tal maneira na narrativa que, em grande parte, todo e qualquer eventual defeito é esquecido.

Já fiquei com saudades da Terra da Ficção e gostaria muito de vê-la voltando ao mundo de Doctor Who

The Mind Robber (Arco #45) – 6ª Temporada

Direção: David Maloney
Roteiro:
 Peter Ling
Elenco principal: Patrick Troughton, Frazer Hines, Wendy Padbury,  Hamish Wilson, Emrys Jones, Bernard Horsfall, Christopher Robbie, Christine Pirie, John Greenwood, David Cannon

Audiência média: 6,5 milhões

5 Episódios (exibidos entre 14 de Setembro e 12 de Outubro de 1968).

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14 comentários

Rafael Lima 22 de fevereiro de 2017 - 10:28

Lembro de ter pensado após assistir esse arco que a galera devia estar muito doida nos escritórios da BBC, quando aprovaram os roteiros desse arco, e que um tempo depois, um dos produtores deve ter dito “Sério que aprovamos esses roteiros? Achei que estávamos brincando”. Hehehe

Mas que bom que aprovaram. Este é um dos arcos mais marcantes da clássica, justamente por sua total insanidade, e excelentes conceitos de metalinguagem, algo que estava longe de ser comum na televisão da década de 60.

Toda a construção de universo em cima da Terra da Ficção é fascinante e até assustadora em alguns momentos. Todo o conceito que diferencia história de ficção usado no arco é muito bacana. Quanto a cenografia, acho que esse foi um caso em que o orçamento baixíssimo da série foi usado a favor da história. Acho que aquelas florestas de papelão fazem muito mais sentido nesse mundo de fantasia apresentado nesse arco do que se tivesse sido gravado em locações mais realistas.

E o humor do arco é excepcional, tanto na parte da direção, que aproveita muito bem as gags físicas (Zoe surrando o Karkus foi hilário) quanto no texto extremamente espirituoso (como não amar a Rapunzel quando o Jamie pede pra usar as tranças dela como corda e ela diz “vá em frente. Todo mundo usa”. Hehehe

Enfim, um arco deliciosamente insano, que caiu como uma luva para esta equipe da TARDIS em particular.

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Rafael Lima 22 de fevereiro de 2017 - 10:28

Lembro de ter pensado após assistir esse arco que a galera devia estar muito doida nos escritórios da BBC, quando aprovaram os roteiros desse arco, e que um tempo depois, um dos produtores deve ter dito “Sério que aprovamos esses roteiros? Achei que estávamos brincando”. Hehehe

Mas que bom que aprovaram. Este é um dos arcos mais marcantes da clássica, justamente por sua total insanidade, e excelentes conceitos de metalinguagem, algo que estava longe de ser comum na televisão da década de 60.

Toda a construção de universo em cima da Terra da Ficção é fascinante e até assustadora em alguns momentos. Todo o conceito que diferencia história de ficção usado no arco é muito bacana. Quanto a cenografia, acho que esse foi um caso em que o orçamento baixíssimo da série foi usado a favor da história. Acho que aquelas florestas de papelão fazem muito mais sentido nesse mundo de fantasia apresentado nesse arco do que se tivesse sido gravado em locações mais realistas.

E o humor do arco é excepcional, tanto na parte da direção, que aproveita muito bem as gags físicas (Zoe surrando o Karkus foi hilário) quanto no texto extremamente espirituoso (como não amar a Rapunzel quando o Jamie pede pra usar as tranças dela como corda e ela diz “vá em frente. Todo mundo usa”. Hehehe

Enfim, um arco deliciosamente insano, que caiu como uma luva para esta equipe da TARDIS em particular.

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planocritico 22 de fevereiro de 2017 - 16:18

Exatamente, @disqus_wPGYD1xKX4:disqus ! E muito me surpreende que essa deliciosa insanidade não tenha sido reaproveitada posteriormente na série…

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 22 de fevereiro de 2017 - 16:18

Exatamente, @disqus_wPGYD1xKX4:disqus ! E muito me surpreende que essa deliciosa insanidade não tenha sido reaproveitada posteriormente na série…

Abs,
Ritter.

Responder
Yoana Carmo 9 de setembro de 2014 - 18:34

Como adoroooooooooo esse, saudades dessa época do 2, Jamie e Zoe. Um do melhores arcos da série, é uma história tão diferente dos padrões, e A ZOE NO CONSOLE DA TARDIS KKK E DEPOIS ELA LUTANDO, ZOE É DIVA DEMAIS GENTE <3333
E O DOCTOR MONTANDO O JAMIE, E A AQUELE JAMIE ERRADO GENTE QUE AGONIA hdduahsudsahdsu <333
Tem algumas coisas sensacionais, como aquela máquina imprimindo a história lá aonde o Jamie tava conforme ia acontecendo com o Doctor, enfim, muito bom!

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planocritico 9 de setembro de 2014 - 22:46

O arco todo é bom demais, com exceção de um episódio e meio, que tem ritmo lento demais. Mas a história e tão boa, mas tão boa, com tanta criatividade (além de coisas doidas como a Zoe se contorcendo na TARDIS) que não dá para não adorá-la. Abs, Ritter.

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Julia 9 de setembro de 2014 - 12:26

um dos meus arcos favoritos do 2nd (junto com the war games, the faceless ones e the enemy of the world). arrisco dizer até que é O meu arco favorito dessa era. eu amei todos os episódios, todo o clima de mistério inicial e depois de ficção, eles encontrando os personagens, o doctor montando o jamie errado hauaha, a zoe com a roupa naquela cena icônica girando no console da TARDIS…fora que tem uns efeitos muito legais (pra época), da TARDIS se desmontando e montando de novo. (ou eu confundi o arco em que isso aconteceu?) a medusa, o minotauro, a zoe lutando com o karkus, tudo é tão maravilhoso! e eu gostei do master e da resolução final também. realmente acho tudo isso com um potencial riquíssimo pra ser explorado na série nova (e esse arco me lembra um tanto também the celestial toymaker, que adoro também). aliás, é engraçado falar isso pq acabamos de ter o episódio com o robin hood, que de certa forma ele considera estar em um mundo não real e que eles seriam apenas os personagens criados naquela dimensão (mas na verdade são reais e acabam entrando pra história como lendas). seria uma referência a the mind robber?

enfim, essa é provavelmente a minha cena favorita de todo o arco: https://www.youtube.com/watch?v=WS2E-94NdWI ele é todo cheio de momentos maravilhosos, mas essa cena em especial me conquistou de tal forma ♥

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planocritico 9 de setembro de 2014 - 17:14

Essa cena que você destacou – intraduzível para o português, aliás – é absolutamente irretocável e inesquecível mesmo @disqus_NihZjBDu77:disqus!

E a cena do Zoe girando no console da TARDIS eu tive que ver duas vezes para acreditar nos meus olhos. É um daqueles momentos inacreditáveis que só Doctor Who nos traz.

Abs, Ritter.

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Julia 9 de setembro de 2014 - 18:46

Verdade, o SWORD / WORDS não tem como traduzir mesmo. mas as charadas até dá pra traduzir e adaptar, a do pinch me eu conhecia como “conte outra vaz e conte outra vez”, daí a resposta era conte outra vez, e a pessoa repetia a história, hauaha. lembranças de infância 🙂

Mas é tão sensacional ver o Pat com as crianças, esse doctor dele é tão maravilhoso…Acho que não é à toa que meus doctors favoritos são o 2nd e o 11th, e o Matt já falou que se inspirou no 2nd, inclusive a bowtie 🙂

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planocritico 9 de setembro de 2014 - 22:46

Ele é muito bacana mesmo. Funciona em todos os níveis! – Abs, Ritter.

Responder
Luiz Santiago 8 de setembro de 2014 - 20:09

Sensacional crítica!

Eu adoro esse arco! A criatividade aqui é imensa e nos faz pensar em uma série de possibilidades para a série. Como você falou, trata-se de uma (não)realidade que infelizmente não teve sua devida exploração na série regular ao longo dos anos.

Duas coisas que também aparecem aqui e fogem total ao padrão são: a pose de Zoe em cima do console da TARDIS que mais nos faz pensar em uma dinâmica de um “arco +18” hahahahaha. E a outra a fora como eles brincam com o “Jamie errado”. Como eu ri nessa parte, o Doutor tentando montar a cara do Jamie!

E o Patrick Troughton está sensacional nessa história, assim como a dupla de companions, a minha dupla favorita da Era do 2º Doutor!

Responder
planocritico 9 de setembro de 2014 - 17:12

Obrigado, @luizsantiago:disqus. É um dos melhores roteiros de arco que já vi de DW. Tudo funciona muito bem, perfeita e inteligentemente encaixado na trama.

E, realmente, deveria ter falado no momento “pose sensual” da Zoe. Absolutamente impagável, especialmente com aquela roupa cheia de “paetês”…

Abs, Ritter.

Responder
Luiz Santiago 9 de setembro de 2014 - 20:09

Bem lembrado dos paetês! hahahahaha

Responder
planocritico 9 de setembro de 2014 - 22:47

Lembrei logo de Dancin’ Days! HUAHUAHUAHUAHUAH…

– Ritter.

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