Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Stones of Blood (Arco #100)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Stones of Blood (Arco #100)

por Luiz Santiago
100 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Equipe: 4º Doutor, Romana, K9 II
Espaço: Cornwall, Reino Unido / Hyperspace
Saga: Key to Time (3 de 6)
Tempo: c. 1978

Centésimo arco da Série Clássica de Doctor Who — cujo aniversário de 15 anos aconteceu 5 dias depois da exibição do episódio 4 desta aventura — The Stones of Blood marca o meio da saga da Chave do Tempo e traz o Doutor, Romana e K9 II enfrentando uma criminosa galática (em condição parecida com a vilã de The Hand of Fear) que se aproveitou de mitos e lendas da Inglaterra medieval para integrar-se ao imaginário de uma determinada região no interior do país, assumindo a forma física de diversas dessas crendices e/ou fatos recontados através da História e ao gosto da imaginação popular.

Nas raízes para a construção dessa personagem, temos referências à rainha-feiticeira da mitologia celta chamada Cessair; à Fada Morgana e Viviane, a Dama do Lago, dos contos arturianos; e a Gogue e Magogue, da mitologia judaico-cristã. Todo esse imaginário está misturado em The Stones of Blood — cujas locações em um sítio monolítico da Inglaterra, o Rollright Stones, dão um sabor todo especial à aventura — e tem o propósito de encobrir a verdadeira identidade da vilã, Cessair of Diplos, mantendo-a distante do julgamento que lhe cabia, algo que ao final do arco é executado por um outro — e muito interessante — personagem, uma máquina-juiz em forma de luz/orbe cintilante chamada Megara.

O companheirismo entre o Doutor e Romana se intensifica à medida que um ensina e ajuda o outro a encontrar respostas e descobrir coisas novas. Nesta aventura, o roteiro de David Fisher explora ainda o nível de confiança e afetividade entre os dois, colocando-os em perigo em momentos e lugares diferentes, com destaque para o ponto a partir do terceiro episódio onde aparece informações sobre o Hyperspace, para onde Romana é levada por Cessair e para onde o Doutor consegue se transportar a fim de encontrar sua companion e resolver a história de mais um segmento da Chave do Tempo. Diferente do que acontece no arco seguinte, The Androids of Tara, só sabemos de fato o que é este terceiro segmento em uma das últimas cenas do arco.

A violência e forma macabra como os eventos do primeiro episódio aconteceram causou certo impacto nos espectadores da época, posto que Doctor Who era um show familiar e o fato de ter o Doutor ameaçado e em visível sofrimento ao fim do capítulo era mesmo perturbador para os pequenos. Para um adulto, porém, o cliffhanger da primeira parte é perfeito. Há uma boa aplicação dos elementos mitológicos e históricos reservados para essa aventura (moldados de uma forma a servir ao objetivo do roteiro) e o clima de terror junto à aparição de Cailleach dão um pequeno olhar para o passado, para a era do produtor Philip Hinchcliffe, assustando tanto pelo denso contexto da trama quanto pelo modo como é representada.

Curioso é que as referências à era Hinchcliffe voltam também na base de Cessair of Diplos localizada no hiperespaço. Ali encontramos um Wirrn (The Ark in Space) e um androide Kraal (The Android Invasion) mortos, aparições que nos dão a sensação da existência de um laço em torno da mitologia da série, agora cada vez mais forte, e isso se intensifica pelo desenho exterior e interior da base de Cessair of Diplos, muito semelhante a outras ocorrências de bases e naves especiais que tivemos na era do e agora do 4º Doutor.

Primeira e única aventura terráquea da saga Key to Time, The Stones of Blood é um terror B com elementos históricos que não negam as raízes de Doctor Who. A história é divertida e em parte aterradora, compreendendo sequências de ficção científica misturadas ao terror, acompanhadas por uma excelente trilha sonora e isolamento de cenários (na Terra e no hiperespaço) que cumprem muito bem o seu papel de tornar tudo ainda mais ameaçador. Os pequenos momentos bizarros, como as horrendas rochas ambulantes, os Ogri, e a estranha atuação da atriz Susan Engel (Vivian) na segunda parte da história acabam tendo pouco peso negativo diante da quantidade de coisas boas que temos a considerar aqui. No final, prevalece o charme clássico da série.

The Stones of Blood (Arco #100) — 16ª Temporada
Direção: Darrol Blake
Roteiro: David Fisher
Elenco: Tom Baker, Mary Tamm, Beatrix Lehmann, Susan Engel, John Leeson

Audiência média: 8,03 milhões

4 episódios (exibidos entre 28 de outubro e 18 de novembro de 1978)

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4 comentários

Rafael Lima 20 de dezembro de 2016 - 12:34

Cara, acho muito legal que você compartilhe nas resenhas as referências mitológicas e literárias que você pesca nos arcos. Torna não só a leitura das resenhas, mas os próprios arcos mais ricos para quem não esta familiarizado com essas referências, como foi o meu caso em algumas referências deste arco.

De fato, este arco é um grande exemplo de como a relação entre Romana e o Doutor evoluiu, e de como um aprende um com o outro. Arrisco a dizer inclusive, que Romana é mais inteligente que o Doutor em alguns aspectos, mas ele tem bem mais experiência e malandragem. Alias, gosto de ver como o roteiro explora a falta de experiência da Timelady através de sua escolha de calçados pra andar nas charnecas britânicas. Não muito práticos. Hehehe

E de fato, “Stones Of Blood” é uma história bem macabra, e com passagens até violentas pra este período da série Algo mais fácil de se encontrar na fase Philip Hinchcliffe como showrunner, do que nesta fase mais leve de Graham Williams. Mas acho ótimo, pois sempre curti esse constante diálogo que Doctor Who mantém com o horror,

Responder
Luiz Santiago 20 de dezembro de 2016 - 16:41

Valeu, @disqus_wPGYD1xKX4:disqus. Eu sempre gosto de fazer leituras que tenham esse maior contexto, porque a série tem uma riqueza tão grande e seus autores e diretores ao longo dos anos trouxeram tantas coisas legais para ela, que seria covardia não apresentar as influências principais para os arcos.

Eu também tenho essa impressão de que Romana é mais inteligente, mais prática até. O Doutor é mais fanfarrão — especialmente este! — e a aventura é a sua palavra de ordem. Bom, pelo menos na maioria das encarnações.

Tem passagens aqui realmente violentas. Eu gosto muito desse arco por isso, o tom macabro, a trilha, as situações… Uma surpresa sombria encrustada na fase do Graham Williams.

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Luiz Santiago 20 de dezembro de 2016 - 16:41

Valeu, @disqus_wPGYD1xKX4:disqus. Eu sempre gosto de fazer leituras que tenham esse maior contexto, porque a série tem uma riqueza tão grande e seus autores e diretores ao longo dos anos trouxeram tantas coisas legais para ela, que seria covardia não apresentar as influências principais para os arcos.

Eu também tenho essa impressão de que Romana é mais inteligente, mais prática até. O Doutor é mais fanfarrão — especialmente este! — e a aventura é a sua palavra de ordem. Bom, pelo menos na maioria das encarnações.

Tem passagens aqui realmente violentas. Eu gosto muito desse arco por isso, o tom macabro, a trilha, as situações… Uma surpresa sombria encrustada na fase do Graham Williams.

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Rafael Lima 20 de dezembro de 2016 - 12:34

Cara, acho muito legal que você compartilhe nas resenhas as referências mitológicas e literárias que você pesca nos arcos. Torna não só a leitura das resenhas, mas os próprios arcos mais ricos para quem não esta familiarizado com essas referências, como foi o meu caso em algumas referências deste arco.

De fato, este arco é um grande exemplo de como a relação entre Romana e o Doutor evoluiu, e de como um aprende um com o outro. Arrisco a dizer inclusive, que Romana é mais inteligente que o Doutor em alguns aspectos, mas ele tem bem mais experiência e malandragem. Alias, gosto de ver como o roteiro explora a falta de experiência da Timelady através de sua escolha de calçados pra andar nas charnecas britânicas. Não muito práticos. Hehehe

E de fato, “Stones Of Blood” é uma história bem macabra, e com passagens até violentas pra este período da série Algo mais fácil de se encontrar na fase Philip Hinchcliffe como showrunner, do que nesta fase mais leve de Graham Williams. Mas acho ótimo, pois sempre curti esse constante diálogo que Doctor Who mantém com o horror,

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