Home TVEpisódio Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Talons of Weng-Chiang (Arco #91)

Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Talons of Weng-Chiang (Arco #91)

por Luiz Santiago
118 views (a partir de agosto de 2020)

Equipe: 4º Doutor, Leela, Jago e Litefoot
Espaço: Londres
Tempo: 1889

  • A pré-sequência e a sequência dos eventos deste arco podem ser conferidos no episódio #161 da Big Finish MensalThe Butcher of Brisbane (2012).

The Talons of Weng-Chiang é o arco final da 14ª Temporada clássica de Doctor Who e um dos mais populares e adorados seriais da era do 4º Doutor, embora não seja assim tão perfeito quanto o seu hype costuma estabelecer. Isso não quer dizer, no entanto, que ele não mereça toda a atenção que tem. Muito pelo contrário. A história é rica e possui uma bem feita recriação da Inglaterra vitoriana, dos cenários, espaços de diversão e neblina em Londres até os figurinos e estranhas relações entre ciência, loucura e terror.

Sendo o único arco do 4º Doutor em que ele não está com o seu conhecido cachecol, The Talons of Weng-Chiang causa de imediato uma impressão de choque no espectador. O Doutor leva Leela para conhecer o passado de seus ancestrais, mas acaba se deparando com um ambiente onde mortes, desaparecimentos e inexplicáveis acontecimentos estavam em voga na cidade. O roteiro de Chris Boucher não perde tempo em fazer relações de vilões e locais semelhantes aos da literatura e cinema, referências essas que passam por clássicos como O Fantasma da Ópera, O Gabinete do Doutor Caligari, Sherlock Holmes e A Máscara de Fu Manchu. Há também uma lembrança do Doutor à sua visita anterior à China, em Marco Polo, e um tratamento bem diferente dado a Leela, que deveria ter tido aqui a sua despedida da série.

Vestindo roupas que a tornava uma cópia de Eliza Dootlittle, de Minha Bela Dama, a atriz Louise Jameson teve o seu contrato renovado para a 15ª Temporada apenas por uma mudança de produção. Sendo este o arco que marca a despedida de Philip Hinchcliffe e a chegada de Graham Williams ao cargo de produtor, a decisão (e promessa feita por Hinchcliffe a Tom Baker de que Leela iria embora) foi revogada. Baker achava a personagem de Leela violenta demais para a série e não simpatizava muito com ela. Além disso, desde The Deadly Assassin o ator vinha pedindo a oportunidade para trabalhar sozinho, sem companion, e as coisas teriam seguido por esse caminho (além de uma possível mudança de figurino para algo mais Sherlock, como vemos aqui em Weng-Chiang) caso a mudança de produção não tivesse revogado alguns acordos prévios e mantido tudo”mais ou menos como estava”.

Apesar de não estar muito certa de que havia feito a coisa certa, Louise Jameson aceitou assinar para mais uma temporada, desde que não precisasse usar lentes de contato para mudar a cor dos seus olhos (originalmente azuis). Com efeito, no arco de abertura da temporada seguinte, Horror of Fang Rock, Terrance Dicks criou uma boa saída para esse problema.

O maior destaque desse arco é com certeza a captura interessantíssima que Chris Boucher faz do espírito vitoriano. Ratos gigantes, um deus chinês, mágica, teatro obscuro e indivíduos bem macabros compõem esse ambiente. A própria produção do arco tem um papel de grande importância nessa contextualização, especialmente na fotografia bem mais escura e na direção de arte que explorou tons marrons, dourados, cinzas e preto até onde pode. Diferente dos outros arcos da temporada, como The Masque of Mandragora ou The Face of Evil, não há um peso maior dado a um certo setor técnico. E mesmo que possamos dizer que o papel da trilha sonora aqui é “menor” comparado aos outros, esse argumento perde força à medida que entendemos a trilha como uma co-narradora da história, desde os números musicais no Palace Theatre, que pertencia a Henry Gordon Jago, até os momentos de tensão, quando o Doutor e seus companions derrotam Magnus Greel e Mr Sin.

Não tem como não comparar Magnus Greel (vulgo Weng-Chiang, o deus chinês da abundância) com o Mestre, especialmente por suas características físicas — lembremos que a aparição do Mestre em The Deadly Assassin justifica essa comparação –, o fato de ter um gabinete parecido com a TARDIS do Mestre no já referido arco do assassino e por citações como “regeneração” e gritos de dominação típicos do Time Lord renegado que conhecemos em Terror of the Autons. E mesmo com todos os sinais à vista, o vilão não é o Mestre, embora o arco foi criado para que fosse. Acontece que o produtor Philip Hinchcliffe vetou essa escolha porque não queria que o Mestre aparecesse novamente como um “vilão escondido”, o que foi uma bobagem sem tamanho, mas que não chegou a estragar o arco, porque Magnus Greel é um vilão complexo e realmente muito interessante.

As semelhanças com o modus operandi de Jack, o Estripador, as referências a Pigmaleão e A Importância de Ser Prudente fazem de The Talons of Weng-Chiang um amálgama de uma época cuja essência foi perfeitamente capturada pelo diretor David Maloney, tanto na forma como ele guiou os atores, como na forma utilizada para representar as ações de cada facção em cena. Particularmente não gosto dos ratos gigantes porque eles ficam soltos na história e o início do arco é mais lento do que deveria, mas isso não tira o divertimento. E como se não bastasse, a aventura apresenta-nos a excelente e cativante dupla Jago e Litefoot, que ganhariam grande destaque no Universo Expandido da série anos depois. Isso sim é que é uma forma poderosa de se terminar uma temporada!

Em tempo: a partir de 2005, com a “nova onda whovian” que se espalhou pelo mundo após o retorno da série, The Talons of Weng-Chiang foi redescoberto e acabou gerando algumas polêmicas para os novos espectadores, que reclamam da forma [preconceituosa e estereotipada] como os chineses são retratados aqui. Particularmente vejo essa retratação como parte do espírito da época em que a ação acontece, assim como o trato do professor Litefoot em relação a Leela. Não vejo preconceito algum aqui. E vocês?

The Talons of Weng-Chiang (Arco #91) — 14ª Temporada – Season Finale
Direção: David Maloney
Roteiro: Robert Holmes
Elenco: Tom Baker, Louise Jameson, Christopher Benjamin, Trevor Baxter, Michael Spice, John Bennett, Deep Roy, David McKail, Alan Butler, Chris Gannon, Conrad Asquith

Audiência média: 10,35 milhões

6 episódios (exibidos entre 26 de fevereiro e 2 de abril de 1977)

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13 comentários

Augusto 13 de dezembro de 2015 - 10:15

Não, Luiz!!! Esse arco merece 5 estrelas fácil. Para mim, é o melhor arco do Tom Baker e um dos melhores da história da série. A história me fisgou logo no início, o Doutor e a Leela estão fantásticos juntos, Jago e Litefoot são ótimos e o vilão é incrível, o arco é perfeito. Só gostaria de entender como The Hand of Fear está ganhando de The Robots of Death na enquete.

Obs: se eu não me engano esse arco é escrito pelo Robert Holmes.

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Luiz Santiago 13 de dezembro de 2015 - 12:44

5 estrelas para este arco é exagero, parceiro! Aquela trama dos ratos tem uma narração bem rala e um desfecho que aparece quase como um Deus ex machina, quebrando um pouco o ritmo do episódio. Isso, e as idas e vindas repetitivas, que certamente são reflexos de um arco de 6 episódios. Acho que se fosse de 4 episódios ele seria mais fluído… Mas mesmo não achando esse arco essa maravilha toda, eu gosto muito dele, acho mesmo que é um arco muito bom, com uma ambientação do século XIX fantástica e um bom vilão — embora eu ainda odeie o Philip Hinchcliffe por não ter deixado ser o Mestre…

Sim sim, é do Robert Holmes. Eu uso uma ficha padrão e vou substituindo os nomes. Esqueci de fazer aqui. Valeu pelo toque, man!

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Luiz Santiago 13 de dezembro de 2015 - 12:46

Ah, e sobre The Hand of Fear versus The Robots of Death, também não to entendendo. Acho o dos robôs + trama de Agatha Christie bem melhor que o do Mãozinha! 🙂

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André Moura 12 de dezembro de 2015 - 20:50

Tenho que rever esse arco,não lembro de quase nada.Mas de qualquer jeito,excelente crítica.Pelo pouco que me lembro desse arco,eles estavam um pouquinho estereotipados mas nada que seja tão preconceituoso.

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Luiz Santiago 13 de dezembro de 2015 - 01:58

Obrigado, @disqus_9loHdA5RjB:disqus!
Reveja sim e depois me diga o que achou! Eu também não vi a abordagem como preconceituosa, apenas estereotipada, mas dentro daquele parâmetro do século XIX, o roteiro foi construído para mostrar isso… O arco é bem bacana. Exagera naquela trama dos ratos gigantes, mas de resto, tudo é muito legal.

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G. Hoffmann 2 de março de 2016 - 16:39

Exatamente, além do já apontado tratamento machista que o prof. Litefoot dispensa à Leela, vale notar que Jago também faz pouco caso de Casey, em vários momentos justificando-se com comentários jocosos sobre o fato de ele ser irlandês (ele inclusive o chama de “leprechaun”, num momento). Eu acho que é mais uma forma de representar caricaturalmente o espírito da época em que a trama se passa mesmo.

Responder
Luiz Santiago 3 de março de 2016 - 04:48

Sim, sim, também penso dessa forma. O roteirista quis colocar essa forma de visão, embora, a gente saiba, que esse tipo de representação narrativa/conceitual de época reflete, queira ou não, elementos da época em que foi escrita. Mas mesmo assim, nesse caso, predomina a referência ao passado.

Responder
Luiz Santiago 3 de março de 2016 - 04:48

Sim, sim, também penso dessa forma. O roteirista quis colocar essa forma de visão, embora, a gente saiba, que esse tipo de representação narrativa/conceitual de época reflete, queira ou não, elementos da época em que foi escrita. Mas mesmo assim, nesse caso, predomina a referência ao passado.

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G. Hoffmann 2 de março de 2016 - 16:39

Exatamente, além do já apontado tratamento machista que o prof. Litefoot dispensa à Leela, vale notar que Jago também faz pouco caso de Casey, em vários momentos justificando-se com comentários jocosos sobre o fato de ele ser irlandês (ele inclusive o chama de “leprechaun”, num momento). Eu acho que é mais uma forma de representar caricaturalmente o espírito da época em que a trama se passa mesmo.

Responder
G. Hoffmann 2 de março de 2016 - 16:56

Por outro lado, uma curiosidade que vale lembrar no sentido dessas críticas é o fato de que o ator que faz o Li H’sen (John Bennett, que de chinês não tem nada) estaria basicamente fazendo um “yellow face”, ou seja, representando caricaturalmente um estereótipo de um asiático, o que foi uma prática bastante comum por grande parte da história dos filmes e seriados, e que pode ser vista como em alguma medida preconceituosa ou de no mínimo de mau gosto.

Mas ainda acredito que, obviamente, se tratou aqui mais de uma opção por conveniência. Para a produão na época encontrar um ator chinês que pudesse representar o papel importantisismo do Li H’sen não deveria ser tarefa simples.

Uma outra curiosidade é que o cara representou também o General Finch, o militar babaca que estava encarregado da “Operação Golden Age” em “Invasion of the Dinosaurs”! Descobri isso recentemente e fiquei de cara, não imaginava!

Responder
G. Hoffmann 2 de março de 2016 - 16:56

Por outro lado, uma curiosidade que vale lembrar no sentido dessas críticas é o fato de que o ator que faz o Li H’sen (John Bennett, que de chinês não tem nada) estaria basicamente fazendo um “yellow face”, ou seja, representando caricaturalmente um estereótipo de um asiático, o que foi uma prática bastante comum por grande parte da história dos filmes e seriados, e que pode ser vista como em alguma medida preconceituosa ou de no mínimo de mau gosto.

Mas ainda acredito que, obviamente, se tratou aqui mais de uma opção por conveniência. Para a produão na época encontrar um ator chinês que pudesse representar o papel importantisismo do Li H’sen não deveria ser tarefa simples.

Uma outra curiosidade é que o cara representou também o General Finch, o militar babaca que estava encarregado da “Operação Golden Age” em “Invasion of the Dinosaurs”! Descobri isso recentemente e fiquei de cara, não imaginava!

Responder
Luiz Santiago 3 de março de 2016 - 04:49

Baita maquiagem, não é?

Responder
Luiz Santiago 3 de março de 2016 - 04:49

Baita maquiagem, não é?

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