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Crítica | Doctor Who – Série Clássica: The Ultimate Foe (Arco #143d: The Trial Of A Time Lord)

por Luiz Santiago
128 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 2,5

Equipe: 6º Doutor, Mel
Saga: The Trial Of A Time Lord
Espaço: Nave Espacial dos Time Lords / Matrix
Tempo: Indeterminado

Confuso. Desnecessário. Forçado.

Desrespeitoso com o ator Colin Baker.

Constrangedor. Estas seriam as palavras que em algum momento poderíamos atribuir a The Ultimate Foe, o último arco da 23ª Temporada de Doctor Who e a última (e infame) aparição canônica de Colin Baker na série.

Absolutamente tudo conspirou e contribuiu para que este arco fosse… estranho. As filmagens de toda a 23ª Temporada aconteceram no começo de 1986 e, já neste momento, os ânimos estavam à flor da pele nos bastidores. O showrunner JNT e o editor de roteiros Eric Saward romperam laços em definitivo (Saward nem completaria toda a temporada, pulando fora no penúltimo episódio deste arco) e os chefões da BBC impuseram, mais adiante, a substituição de Colin Baker, algo que só viria a ser comunicado ao ator em outubro daquele ano.

Baseado em um roteiro de Robert Holmes, o finale da temporada se revelaria um balde de água fria em diversos níveis, sendo a primeira explicação para isso a grande quantidade de pessoas que mexeram no roteiro até a sua versão final. Holmes não completou a escrita, pois veio a falecer em maio de 86, sendo a sua morte a gota d’água para que Saward (que era amigo de longa data de Holmes) odiasse cada vez mais John Nathan-Turner e suas decisões para a série naquele momento. O complemento e ajustes do enredo ocorreram pelas mãos do casal PipJane Baker, que tinham escrito o arco anterior. Contatados em ocasião de emergência, o casal exigiu que o roteiro original de Holmes jamais fosse divulgado e se JNT concordasse com isso, eles (que tinham fama — e correspondiam a ela! — de escrever bastante rápido) assumiriam o script e o deixariam pronto a tempo das filmagens.

Em apenas dois episódios vemos as justificativas e possíveis respostas para o que aconteceu ao longo da temporada serem dadas pelo Doutor, pelo Mestre e pelo Valeyard, cada um a seu modo e em tempos diferentes. E como se não bastasse dois vilões, um julgamento estranho para finalizar e uma companion deslocada, JNT ainda permitiu que o bandido Sabalom Glitz, de The Mysterious Planet, voltasse para testemunhar a favor do Doutor.

Nos primeiros minutos do arco, é possível apreciar o ritmo das cosias. Baker entrega uma atuação excelente, representando muito bem o ódio que um Time Lord honesto poderia sentir em relação à sociedade corrupta, orgulhosa e egoísta da qual se distanciou há muito tempo. Por um momento, todo o julgamento até que parece fazer sentido, uma vez que essas forças de bastidores, entre renegados e uma versão sombria e futura do Doutor (entre a sua 12ª e “final” encarnação) se colocam em linhas diferentes de interesse, todos em torno de Gallifrey e sua sociedade e hierarquia. A aparição do Mestre é uma surpresa agradável e até poderia fazer mais sentido se ótimo Anthony Ainley não parecesse forçadamente encaixado na trama. No meio do primeiro episódio, as coisas começam a desandar e daí para frente, apenas alguns bons momentos segurarão o espectador.

A batalha na Matrix poderia ser algo de impacto no episódio, mas com Mel jogada para cima e para baixo; cortes desconexos deste cenário para o julgamento e um duo perdido protagonizado pelo Mestre e por Glitz, fica difícil termos algo sólido e interessante, visto que não há tempo de se concentrar em nada. Claro que a constituição macabra do local, a aparência de Londres Vitoriana e um ou outro momento do Doutor contra o Valeyard valem muito a pena em termos visuais e até na criação de uma atmosfera de medo, mas no todo narrativo, o encerramento da saga é simplesmente vergonhoso.

O final não traz o 6º Doutor se regenerando. A notícia da demissão de Baker veio apenas depois que o arco havia sido filmado e o ator se recusou — com toda a razão que uma pessoa já pode ter na BBC — a assinar um contrato de mais 4 episódios e voltar para filmar apenas a cena de regeneração. Apenas em 2015, Baker aceitaria o convite da Big Finish para protagonizar uma história que explicasse a sua regeneração, trama lançada na antologia The Sixth Doctor: The Last Adventure.

É de se lamentar o enorme desrespeito que Grade e Powell tinham para com a série e com o ator protagonista. Ainda bem que o Universo Expandido nos deu inúmeras oportunidades de ver o 6º Doutor em incontáveis aventuras após essa partida reticente e, melhor ainda, que ele tivesse uma merecida e decente regeneração. Mesmo assim, por não ser algo estabelecido na TV, fica a grande mácula na história da BBC em relação à sua série de maior importância. Que vergonha!

The Ultimate Foe: The Trial Of A Time Lord (Arco #143d) — 23ª Temporada
Direção: Chris Clough
Roteiro: Robert Holmes, Pip Baker, Jane Baker
Elenco: Colin Baker, Bonnie Langford, Michael Jayston, Lynda Bellingham, Tony Selby, Anthony Ainley, Geoffrey Hughes, James Bree
Audiência média: 5 milhões
2 episódios (exibidos entre 29 de novembro e 6 de dezembro de 1986)

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10 comentários

MDN PLAYERS 4 de outubro de 2017 - 15:48

Quando começam a publicar a crítica dos episódios do 7º?

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Luiz Santiago 4 de outubro de 2017 - 17:37

No próximo mês (novembro, 2017). As coisas saíram dos eixos na minha programação de críticas, eu de repente me vi com 50 textos de Liga da Justiça pra escrever, aí ficou difícil manter DW na grande, junto com LJA e todas as outras coisas ahahhahahahha. Mas em novembro eu volto a publicar as críticas do 7º Doutor… Já dá até uma dos no coração pensar que estou terminando de criticar a clássica. :'(

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Rafael Lima 20 de agosto de 2017 - 23:31

Embora não chegue a achar esse arco o pior da temporada (dou esse título a “The Misteryous Planet”) é de fato uma despedida bem triste para o Sexto Doutor. A BBC sequer quis dar a ele um arco de despedida, nos entregando ao invés disso aquela “regeneração” deprimente no início da 24ª temporada.

O pior é que o arco traz uma série de idéias muito interessantes, e até um pouco ousadas na época. A começar pela verdadeira natureza do grande vilão da temporada, o Valeyard. Fazer do Valeyard um ser criado a partir dos sentimentos sombrios do próprio Doutor foi um movimento interessante, que poderia ter originado o inimigo mais pessoal já enfrentado pelo Time Lord. Outra boa ideia é trazer justamente o Mestre como aliado do Doutor na luta contra o Valeyard. E o próprio conceito de apresentar Mel ao Doutor como uma companheira do futuro, cuja linha do tempo não está sincronizada com a dele é bem atrativa, tendo sido inclusive reaproveitada por Moffat ao criar a sua River Song. Mas a forma como essas idéias são organizadas acaba sendo uma salada só.

Percebe-se um pouco da mão de Robert Holmes na história, ao lidar com a corrupção dos Time Lords, e mostrar o confronto do Doutor contra o Valeyard dentro da Matrix, em um claro eco do clássico “The Deadly Assassin”. Como você observa, até há alguns valores de produção bem interessante nas passagens situadas dentro da Matrix, com aqueles cenários de pesadelo criados pelo Valeyard. Mas não é o bastante com uma história tão confusa e desritmada.

Concordo que Mel não funciona tão bem aqui quanto na sua história de estréia, até por que ela cai de paraquedas no meio da narrativa. Toda a situação envolvendo a conspiração do conselho dos Time Lords para encobrir o seu crime de ter movido Ravalox/Terra para outra parte do universo não faz sentido, e é resolvido em uma ou duas linhas. Pra não falar no modo ridículo como o Mestre é jogado pra escanteio, e na total inutilidade da presença de Sabalom Glitz na trama (o personagem só seria bem utilizado mesmo em “Dragonfire” na temporada seguinte, e ainda com ressalvas). Claro que ainda não falei de um dos piores errros deste arco, que foi o retcon dado nos eventos de “Mindwarp”, onde ficamos sabendo que Peri não morreu, mas sim que se casou com o Rey Yrcanos, virando a rainha daquele mundo (o que faz menos sentido que a conspiração dos Time Lords). Essa decisão teria deixado Nicola Bryant furiosa, e criou uma descontinuidade no universo da série que nem mesmo o Universo Expandido conseguiu dar jeito, existindo várias versões para o que realmente aconteceu com Peri em “Mindwarp” (pessoalmente, eu gosto de ignorar o trecho em que o Mestre diz que ela se casou com Yrcanos e acreditar que Peri continua morta, por mais triste que seja).

O pior é que os atores estão muito bem. Michael Jayston tem uma presença imponente como o Valeyard (mesmo tendo que ler algumas linhas bem constrangedoras) e uma ótima química com Baker. Acredito que ele poderia ter levado o vilão a lugares bem interessantes com mais tempo para se apropriar dele (lembrando que o plano inicial de JNT era que o Valeyard retornasse como vilão recorrente na 24ª temporada). Anthony Ainley também esta ótimo como o Mestre, e seu desempenho aponta algo já sugerido em “The Five Doctors”. Apesar de ser um maníaco psicótico, o desprezo do Mestre pela corrupção decadente dos Time Lords é tão grande quanto a do próprio Doutor, e Ainley é brilhante em nos transmitir a satisfação do vilão em desmascarar o conselho. E claro, temos Colin Baker, que parecendo antever o que aconteceria, decide sair em grande estilo. Seu discurso sobre a maldade presente na sociedade dos Time Lords é soberbo, e seu choque ao descobrir a real identidade do Valeyard é simplesmente excelente. A atuação de Baker neste arco só me deixa mais P da vida com o desrespeito com que a BBC o tratou no fim da sua era.

No geral, concordo com o @disqus_6btkJ6PNDF:disqus. “The Ultimate Foe” até começa bem, apresentando elementos para uma história épica. Mas a partir de certo ponto, é só ladeira abaixo.

PS: Por mais que muita coisa aqui seja também culpa do Turner, não posso deixar de pensar que o showrunner também se preocupava constantemente em manter a série viva, pois sabia que Michael Grade só estava esperando uma desculpa. Tanto que ele vetou o final original do arco, que terminaria com um gancho, onde a Matrix entraria em colapso enquanto o Doutor e o Valeyard lutavam. Turner acreditou que a BBC podia apontar isso como uma Séries Finale e cancelar a série. E acho que o Grade era bem capaz de ter feito isso mesmo.

PS 2: Escutei somente a ultima história de “The Sixth Doctor: The Last Adventures” que é a história de regeneração. Vale mesmo a pena,e Baker não perde a chance de nos dar um desempenho emocionante, e finalmente um desfecho digno para o Sexto Doutor. Como você costuma dizer: Salve a Big Finish!

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Luiz Santiago 21 de agosto de 2017 - 06:35

Muito curioso você achar The Misteryous Planet o pior arco da temporada. Para mim, este é o título dessa despedida aqui. Acho o The Misteryous Planet levemente superior a esse negócio, embora não seja, a meu ver, algo tenebroso. É um arco medíocre, mas não acho tãaaaaao RUIM.

Esse ponto que você levanta sobre os autores me fez pensar enquanto assistia ao arco. É uma coisa completamente louca só de pensar que a gente tem nessa fase atores que são ótimos no que fazem, ideias que, em outra ocasião e com um tratamento de menor emergência, conseguiria algo beeeeeem superior, mas mesmo assim, o resultado final é triste. É uma tonelada de excelentes ideias desperdiçadas e dói no coração ver essas coisas.

Pois é, essa visão do Turner era de não largar o osso jamais. Mesmo cometendo uma série de exageros e firmando o pé em uma série de coisas que deveria ter deixado mais tranquilas na série, ele gostava do show e defendia. A última coisa que ele queria era ver DW fora do ar. Não tem como não admirar o cara pela quantidade de porrada que levou e brigas que se meteu por causa disso.

Esse final de semana entra a crítica dessa série. Ainda não cheguei no último episódio. To curioso demais!

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Rafael Lima 5 de setembro de 2017 - 23:49

Então, no conjunto da obra, “The Mysterious Planet” é até um pouco melhor mesmo, mas acho uma história que é medíocre o tempo todo. Apesar dos vários erros de dar vergonha alheia, acho que existem nesse arco pequenos momentos preciosos que fazem com que eu o valorize mais. A revelação da verdadeira identidade do Valeyard, e aquele fantástico discurso do Sexto Doutor onde diz que o mal dos Daleks, Sontarans e Cybermans não se comparava com os do corruptos Time Lords é incrível, graças a uma entrega fantástica do Colin Baker.

E o que achou do retcon “desfazendo” a morte da Peri? Pessoalmente, achei completamente desnecessário e sem sentido.

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Luiz Santiago 5 de setembro de 2017 - 23:58

Estou contigo nesse final. Aquele negócio “desfazendo” a morte da Peri foi um tremendo absurdo. Ela tinha partido de maneira chocante, como a atriz tinha pedido. Daí vem esse troço. É de lascar…

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Augusto 19 de agosto de 2017 - 18:23

Eu não acho esse arco uma obra-prima, mas também não acho tão fraco assim. O primeiro episódio é muito bom, a aparição do Mestre, a revelação de quem é o Valeyard e as cenas dentro da Matrix são ótimas, mesmo com a Mel sendo completamente esquecida, eu acho um começo muito bom. O segundo episódio é onde as coisas pioram um pouco, as cenas na Matrix perdem a graça (me lembra um pouco The Deadly Assassin), e ter dois vilões como o Mestre e o Valeyard é muito para apenas um episódio. Nesse arco, eu não gosto da Mel, nas cenas mais sérias ela vai mal.

Sobre o Colin Baker, é um desrespeito mesmo, ele é um dos Doutores mais interessantes, mas raramente teve um material bom para trabalhar, a série nessa época estava uma bagunça muito grande e isso reflete muito nos problemas dessa era. Ele não ter uma regeneração é uma vergonha. E eu não conhecia esse áudio que explica o fim do 6º Doutor, por que ele regenera? Na série eu não lembro de isso ser explicado.

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Luiz Santiago 19 de agosto de 2017 - 18:59

Na série não é explicado mesmo, infelizmente. Eu estou ouvindo agora, não cheguei ao último episódio. Semana que vem sai a crítica. Também não sei o motivo pelo qual ele se regenera.

Pois é, @disqus_6btkJ6PNDF:disqus, também acho o 6º Doutor um dos mais interessantes, concebido para partir de um comportamento duro e rude para algo mais sociável e bonitinho, o que não foi possível porque foi impedido de dentro da emissora. É triste. Ainda bem que existe a Big Finish, viu.

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MDN PLAYERS 19 de agosto de 2017 - 14:34

Essa temporada tinha a possibilidade de ser a melhor de todas,mas infelizmente teve sua chance desperdiçada, saio triste por finalizar o tempo do Colin assim mas um pouco animado com o que aguarda a jornada do McCoy.

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Luiz Santiago 19 de agosto de 2017 - 17:03

Tenho o mesmo sentimento que você. Também acho que essa temporada poderia ser algo grandioso na série. A ideia do julgamento é realmente muito boa. Mas a forma como foi executada…

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