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Crítica | Doctor Who: Sob Forte Tensão, de Tara Samms

por Luiz Santiago
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estrelas 3

Equipe: 1º Doutor, Susan
Espaço: Planeta Iwa
Tempo: 2230 (?)

Eu optei por traduzir o título original desse romance de Tara Samms (pseudônimo do prolífico escritor Stephen Cole) pelo contexto de emoções que o adjetivo “frayed” — título original da obra — tem no inglês britânico. De qualquer forma, “Sob Forte Tensão“, que na verdade é uma das traduções de contexto possíveis para a palavra, não foge, simbolicamente, ao “desgastado” ou “corroído” indicados pela tradução ao pé da letra.

Esta aventura tem uma importância tremenda para o cânone de Doctor Who. Ela marca o primeiro encontro do Doutor e Susan com um humano, em um Refúgio clínico da Terra estabelecido no planeta Iwa, no século XXIII. Há aqui a explicação definitiva do por quê Susan adota este nome e do por quê o Doutor adota este título. Vejam, portanto, que existem três grandes “primeiras vezes” na obra, e a autora faz valer a pena a maior parte da jornada, colocando os dois gallifreyanos em situações difíceis de se imaginar em um liro da  série, dado o seu caráter gore.

A primeira coisa de diferente que observamos é que, já no primeira parte, o nível de carnificina, ataques, sangue e dor são tão grandes, que dá até um enjoo no leitor. Particularmente, não conheço nenhuma obra da série — em áudio, livro, episódio de TV ou quadrinhos — que tenha essa abordagem tão intensificada (a violência está presente em vários momentos de DW, mas nada como se vê aqui). Essa linha narrativa de ação e terror prende o leitor e cria uma expetativa grande em relação ao restante da estadia do Time Lord e Susan no planeta. A trama, porém, acaba seguindo por diversos atalhos, separando os protagonistas e gerando ações que infelizmente minimizam o resultado final.

Enquanto estão juntos, o Doutor e sua neta são ótimos, possuem bons diálogos e as situações a que os vemos reagir nos lembram genuinamente os primeiros arcos da TV. Há ainda um acerto de companheirismo entre eles, talvez começado no conto The Exiles e completado aqui, já que ambos precisam agir juntos para encontrar um jeito de resolver os muitos problemas que se apresentam para eles neste planeta: um desaparecimento; um abominável programa de eugenia da Terra, que tem lugar na instalação; as falhas na energia e os ataques das “Raposas”.

Antes do meio da obra, fica evidente que a autora olha de maneira crítica para experimentos genéticos desregrados e tentativas de “aprimoramento” do homem, com o objetivo de criar um “ser perfeito”, aumentando o espaço entre esses “abençoados pela possibilidade de se aperfeiçoar” e aqueles que precisam ser afastados por serem diferentes. Ou pior. Segundo cálculos, análises hormonais e outros exames, os médicos da Terra mapeiam as pessoas que podem apresentar, no futuro, um comportamento social desregrado e já as separa, mandando-as para Iwa. É uma atitude à la Minority Report – A Nova Lei elevada à máxima potência.

A separação do Doutor e Susan e as cenas no mundo onírico não são totalmente coerentes dentro da obra, mas ganham pontos pela sensação claustrofóbica e de possível morte a todo o momento. Enquanto lemos uma ação nesse micro-universo, outras coisas que podem influenciar este mundo acontecem do lado de fora, então não há muita saída ou esperança, de modo que o leitor fica realmente tenso pelo rumo que a história irá tomar. A obstinação militar desse bloco talvez seja o ponto mais incômodo da reta final, porém, o acerto que o Doutor faz entre as partes e a proposta que ele consegue colocar em andamento no Refúgio cumprem o papel de ganhar a simpatia do leitor e trazer um pouco de beleza e amizade depois de uma aventura que deixaram todos com os nervos à flor da pele. Realmente, sob forte tensão.

NOTA CRONOLÓGICA: O leitor pode argumentar que o verdadeiro primeiro encontro do Doutor com os humanos foi enquanto ele era Embaixador de Gallifrey (clique aqui para saber mais detalhes), no conto ilustrado Dr Who and the Daleks, e não neste livro. Todavia, se considerarmos a explicação dada para a linha do tempo do Doutor nesta fase antes da fuga, ficará fácil entender o fator da memória em jogo e a recontagem de seus encontros com os humanos a partir de então.

Doctor Who: Sob Forte Tensão, de Tara Samms (Frayed) — Reino Unido, 20 de novembro de 2003
Autora: Tara Samms (pseudônimo de Stephen Cole)
Ilustrador: Chris Moore
Editora original: Telos Publishing
120 páginas

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6 comentários

Rafael Lima 12 de junho de 2017 - 14:41

Não cheguei a ler o romance (Mas fiquei com vontade depois de ler a sua resenha). Achei interessante a sua observação sobre a violência presente na história. Acho que essa é uma característica da qual algumas histórias do Universo Expandido podem se beneficiar, ao “pesar a mão” em alguns aspectos que na TV não seriam possíveis. Claro, nem todos os autores se utilizam bem dessa liberdade, e podem acabar tornando tais aspectos gratuitos algumas vezes, mas é muito bom quando essa liberdade é bem utilizada.

Essa fase “Pré Série” é um período bem delicado pra ser trabalhado pelos autores do Universo Expandido, não acha? Pois ao mesmo tempo que pode-se apresentar algo novo, corre-se o risco de tirar um pouco do charme do mistério do passado do Doutor.

Duas perguntas @l@luizsantiago:disqus. A primeira é sobre como o autor trabalha referências ao passado do Doutor e Susan em Gallifrey? Acha que é feito de forma interessante? Pois isso acabou sendo um dos principais defeitos de “Tempo e Afins” de Kim Newmann, que também cobria as aventuras do Primeiro Doutor e de Susan no período “pré série”.

A outra pergunta diz respeito a Susan. Não sei se também têm essa impressão, mas nas histórias do Universo Expandido que tive oportunidade de ler envolvendo Susan, a solidão da garota sempre é um aspecto de sua personalidade que acaba aparecendo de uma forma ou outra. Isso se repete aqui?

Grande abraço!

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Luiz Santiago 12 de junho de 2017 - 17:06

Esse aspecto violento é algo interessante de ver no UE, e acho que isso vale para todas as franquias. Tem coisas que a gente sabe que jamais serão colocadas na tela. Cabe aos autores das tramas paralelas trabalharem com isso.

E sim, super concordo, é um período bem difícil para ser explorado, esse momento pré-série. E é uma das coisas mais fascinantes, já que esta é outra coisa que a gente sabe que nunca será plenamente explorada na TV, né? Ou será que vai?

Sobre Gallifrey: a abordagem não é extensa. Eu achei boa, no sentido de não estragar ou colocar de maneira exagerada ou afetada coisas relacionadas ao planeta. Mas não é nada de grandioso, para falar a verdade.

Sim sim! Solitária, amedrontada e, pela impressão que dá, o tempo inteiro se FORÇANDO a ter coragem para acompanhar o ritmo do avô, que naquela época era menos dócil (na verdade a pouca docilidade dele era só com Susan mesmo haahhahahahha).

Responder
Ruth Aparecida 6 de outubro de 2016 - 16:26

OFF: Vocês vão fazer críticas de Class (Spin off de dw) aqui??

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Ruth Aparecida 6 de outubro de 2016 - 16:26

OFF: Vocês vão fazer críticas de Class (Spin off de dw) aqui??

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Luiz Santiago 6 de outubro de 2016 - 18:06

Vamos sim! Fique de olho!

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Luiz Santiago 6 de outubro de 2016 - 18:06

Vamos sim! Fique de olho!

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