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Crítica | Doctor Who: Sonhos Do Império, de Justin Richards

por Rafael Lima
236 views (a partir de agosto de 2020)

Equipe: 2º Doutor, Jamie, Victoria
Espaço: Santespri; República de Hadoran
Tempo: Não Especificado

Ao ler um livro de Doctor Who, eu gosto quando o autor se utiliza do formato literário para entregar algo que a TV não poderia realizar, seja por orçamento, ou pelos limites impostos pela classificação etária branda da série. Por outro lado, escrever um romance que reproduza o tipo de história contada no período do show retratado, ao mesmo tempo em que se mantém fiel a linguagem literária, sem transformar a obra em um roteiro superficial também é um desafio para um escritor. Pois é essa proposta que Justin Richards nos entrega com Sonhos Do Império, que capta com perfeição a era do Segundo Doutor, em uma história que não é difícil de imaginar sendo produzida nos anos 60. A trama, situada entre os arcos The Ice Warriors e The Enemy of The World, se passa em Santespri, uma prisão espacial localizada na república de Hadoran. O objetivo da prisão é isolar o General Kesar, que no passado, tentou dar um golpe de estado, transformando a república em um império, mas que foi derrotado após uma guerra civil. A TARDIS se materializa em Santespri no pior momento, pois um assassinato acaba de ocorrer dentro dos muros da prisão, exatamente quando um cônsul da república visitava o local. Enquanto o 2º Doutor acaba envolvido na investigação para identificar o assassino, uma tropa de robôs há muito perdidos prepara uma ofensiva contra a prisão.

Sonhos Do Império é dividido em duas etapas; a primeira concentrando-se na investigação do Doutor para encontrar o assassino, e a segunda no cerco de Santespri, feito por uma tropa de VETACS, robôs de combate com a forma de armaduras medievais. O livro costura bem as duas fases da narrativa, desenvolvendo-a metaforicamente como um jogo de xadrez. O jogo inclusive, é constantemente referenciado, tanto pela própria trama, quanto pela estrutura da obra, pois Richards divide o romance em três partes nomeadas em homenagens as fases do xadrez, com cada capítulo recebendo o nome de um movimento ou peça do jogo. Richards conduz o ritmo da obra de maneira envolvente, nos deixando investidos no mistério central. E embora seja fiel ao espírito da série dos anos 60, O autor reconhece os elementos do período que poderiam tirar a fluidez da trama. Por exemplo, o livro não põe o time da TARDIS para ser falsamente acusado dos crimes em Santespri, um recurso para esticar as histórias da TV, que é descartado com uma piscadela metalinguística. Além disso, o livro constrói o clima da prisão como um local de confinamento político, onde carcereiros republicanos e prisioneiros imperialistas mantêm um respeito mútuo pelo passado militar compartilhado, ainda que rancores da guerra persistam.

O autor constrói um crescendo de tensão interessante ao estabelecer um Deadline ainda na primeira metade da obra, pois os personagens logo descobrem que uma ameaça externa está chegando, ao mesmo tempo em que não se esquecem da existência da ameaça interna representada pelo assassino desconhecido. A obra também é inteligente em utilizar alguns dos dramas pessoais dos personagens, como o triangulo amoroso entre Kesar, o Consul Trayx e sua esposa Helena, ou o romance entre um guarda e uma prisioneira como ilustrações para o seu comentário maior sobre a política da guerra e as suas consequências. Sonhos Do Império também é muito bom em trabalhar a ação constante que assume a segunda metade do romance, não só evitando que as diversas fugas e combates deste bloco soem repetitivas, mas continuando a desenvolver os seus personagens de forma orgânica na dinâmica da ação. Além disso, os aspectos cerebrais da narrativa permanecem fortemente presentes (que é o mínimo que se espera de uma trama que aborda o jogo de xadrez de variadas formas), com Justin Richards entregando ótimas reviravoltas ao longo da história, e mesmo que algumas soem um pouco previsíveis, tal previsibilidade é só um sintoma de uma trama bem estruturada que não aposta na surpresa pela surpresa.

A obra traz um elenco de personagens bem desenvolvidos, com quem conseguimos nos apegar. O General Keysar, que usa uma pesada máscara para esconder um rosto queimado, surge como um personagem enigmático e instigante, cujo comportamento ambíguo levantara muitas suspeitas no leitor. O Consul Trayx  é outro personagem bem desenvolvido, sendo retratado como um líder sagaz e respeitado, que desenvolve uma ótima parceria com o Doutor. Vale destacar ainda o romance entre Darkling e Hedan, que frisa a insanidade  e as perdas da guerra, em uma subtrama que se torna vital para o desfecho da história. O 2º Doutor é perfeitamente representado por Richards, com o autor captando os maneirismos que Patrick Troughton concedeu ao personagem, sem utilizá-los como muleta. O autor escreve o personagem envolto em uma aura cômica bastante propícia, mas sempre deixando claro que o Time Lord está tramando algo por baixo dos panos. Os Companions, por sua vez, acabam sendo bem escanteados pela obra, sendo essa a minha única queixa mais séria em relação ao livro. Não que os companheiros não estejam bem transpostos para as páginas, mas eles ganham muito pouco espaço. Victoria, pelo menos, ainda está envolvida em uma passagem de tensão muito bem escrita, situada em um salão de armaduras, que desencadeia a primeira reviravolta da trama, mas Jamie é bem negligenciado, sendo basicamente o mecanismo para exposição da narrativa.

Sonhos Do Império é um ótimo romance da série, onde Justin Richards coleta uma série de diferentes referências, como O Homem Da Máscara De Ferro, A Ilíada, e a história do triunvirato de Roma liderado por Júlio Cesar para construir um thriller detetivesco de ação e ficção científica. Com uma trama ágil e instigante, a obra não reinventa roda alguma, mas utiliza os clichês de Doctor Who sem soar derivativa, resultando em uma aventura cheia de reviravoltas inteligentes, e que de fato parece saída da era do 2º Doutor na TV.

Doctor Who: Sonhos Do Império (Dreams Of Empire)- Reino Unido. 3 de Agosto de 1998
Autor: Justin Richards
Past Doctor Adventures #14
Publicação: BBC Books
236 Páginas

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