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Crítica | Doctor Who: The End Of Time – Part Two

por Rafael Lima
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“I don’t want to go”

Últimas palavras do 10º Doutor

The End Of Time- Part Two, apresentado como o primeiro especial de Ano Novo da Série, traz não só a despedida do 10º Doutor de David Tennant, como também marca o fim da era Russell T. Davies. É natural então, que a parte final da derradeira aventura do Décimo Doutor possua um caráter dramático e épico, sendo felizmente mais organizada que a primeira parte do arco, embora ainda soe um pouco abarrotada. O roteiro de Davies parte diretamente para contextualizar os Time Lords liderados por Rassilon, que surgiram no desfecho do episódio anterior. É o fim da Guerra do Tempo, e antevendo a derrota, o Alto Conselho desenvolve um plano para se salvar, ao custo da destruição da Terra e do próprio tempo.  A revelação do plano de Rassilon, entretanto, torna o esquema maluco do Mestre de se copiar em todos os corpos da Terra um pouco irrelevante, com a natureza boba deste Plot tendo pouca coesão com a ameaça quase metafisica representada por Rassilon.

É interessante ver os Time Lords surgindo como a ultima ameaça da Era Davies, já que boa parte da mitologia da Nova Série até ali foi construída sobre a destruição de Gallifrey. É interessante que o especial parece trazer um ponto final desta era da série sobre o pecado de guerra do Doutor. Davies nunca nos permite ver a Guerra Do Tempo, uma decisão mais criativa do que orçamentária, pois o Showrunner não vê a Guerra do Tempo como um conflito estelar padrão, mas sim como um pesadelo Lovecraftiano, cheio de horrores temporais indescritíveis, sendo, portanto, impossível de filmar. A decisão do Doutor no fim da Guerra Do Tempo, portanto, é posta como um mal necessário, como a destruição de Pompeia em The Fires Of Pompeii

A grande questão que assombrou o Doutor de Tennant na temporada de especiais de 2009 foi a chegada inevitável de sua regeneração, algo que é visto por esta encarnação não como uma renovação, mas como a morte, pura e simples. O 10º Doutor claramente não quer morrer, mas ao mesmo tempo está ciente sobre o tipo de pessoa que ele poderia se transformar se tentar viver além do seu tempo independente do custo. Quando Wilfred argumenta que o Doutor deve matar o Mestre para sobreviver, o protagonista responde que foi assim que o Mestre começou. Essa é a diferença entre o Doutor e os vilões do arco, o 10º Doutor não está disposto a deixar ninguém morrer para que ele possa viver, não importa o quanto ele queira continuar vivo.

No que é o ponto alto do arco, descobrimos que as temíveis quatro batidas da profecia que anunciou a morte do Doutor não se referiam as batidas na cabeça do Mestre, ou ao sinal dos Time Lords, mas á um pobre velho preso em uma cabine nuclear, batendo humildemente para sair. Isso é uma decisão acertada do roteiro pelo que proporciona ao desenvolvimento final desta encarnação do Senhor do Tempo. O Doutor estava disposto a morrer para salvar o universo, mas quando o que está em jogo é uma única vida “desimportante”, a tentação para se entregar ao instinto de sobrevivência torna-se muito maior. Muitos criticam a cena que antecede o sacrifício do Doutor, alegando que o personagem nunca hesitaria em dar a vida para salvar um amigo, apontando a revolta do Time Lord ao perceber que teria que morrer para impedir a morte de Wilfred como um sinal de covardia e soberba do personagem. Mas é justamente essa imperfeição do 10º Doutor que o humaniza, e o que torna o seu sacrifício ainda mais heroico.

O 10º Doutor tem medo de morrer; o que é um medo absolutamente natural. E sim, o Doutor de Tennant é uma encarnação particularmente soberba do personagem, bastando lembrar que em sua primeira aventura, ele derrubou o governo de Harriet Jones por achar que estava apto a decidir o tipo de governo que a Inglaterra precisava. Tal característica é básica na visão de Davies sobre o personagem, onde o Doutor é esse ser semidivino, mas também humanamente falho. Mas apesar de seus defeitos, o 10º Doutor ainda acredita em fazer o que é certo, e mesmo com o seu instinto de sobrevivência gritando, ele percebe que no momento em que realmente acreditar que a sua vida vale mais do que a de pessoas como Wilfred, então ele será igual ao Mestre ou a Rassilon. O olhar no rosto do Doutor após o seu raivoso discurso, onde ele parece pesar as palavras que acabou de dizer apenas para concluir que Viveu demais é um dos grandes destaques do tempo em que David Tennant representou o personagem.

As cenas que se seguem a dose fatal de radiação que o Doutor recebe para salvar Wilfred, são, como o próprio personagem define, a sua recompensa. Isso significa uma viagem de nostalgia, onde revemos cada um dos Companions da Nova Série apresentados até aqui, além de alguns acréscimos interessantes, como Sarah Jane Smith; e a descendente de Joan Redfern, personagem apresentada no arco Human Nature/The Family Of Blood, vivida também por Jessica Hynes. Essa sequência final com certeza trouxe um nó na garganta de quem acompanhou a série até esse momento. Alguns dos desfechos desses personagens soem um pouco novelescos demais pro meu gosto, como a revelação de que Martha Jones e Mickey Smith se casaram, mas outros momentos trazem uma boa sensação de círculo completo, como o casamento de Donna e a visita incógnita a uma Rose insuspeita no ano novo anterior ao seu encontro com o 9º Doutor (na única referência que este especial de ano novo faz ao ano novo). 

O roteiro de Davies com certeza apela para os fãs da série, e é cheio de grandes momentos emocionais. Por outro lado, não se pode negar que por trás disso tudo está uma história um pouco inchada, com Plots e personagens que parecem apenas preencher tempo até algo relevante acontecer, ou desempenhar funções narrativas mecânicas. Basta observar o já citado plano do Mestre, ou o casal de alienígenas Vinvocci, que após fazerem o que o roteiro pede deles, desaparecem da mesma forma repentina com que haviam surgido na primeira parte do arco. Enfim, é um roteiro que apesar de ter sim méritos, funciona muito mais pelos elementos que evoca do que por seus próprios acertos. Nesse sentido, a direção de Euros Lyn, em seu último trabalho de direção para a série até então (2021) é um grande trunfo, levantando o roteiro mesmo em seus momentos mais fracos. A decupagem e a edição são extremamente felizes em valorizar os momentos de intensidade emocional da história, dando espaço para os tempos dramáticos. Lyn é igualmente competente em dar dinamismo para as sequências de ação do roteiro, com destaque para a perseguição aérea que homenageia Star Wars: Uma Nova Esperança.

O elenco também merece muitos méritos por alcançar a grandiosidade que o episódio persegue. David Tennant deixa o papel em grande estilo, entregando um 10º Doutor vulnerável e humanizado, cheio de grandes momentos ao logo do especial. Tennant, entretanto, encontra um parceiro de cena perfeito em Bernard Cribbins, que concede uma simplicidade e humildade cativante a Wilfred, que cria um contraste essencial com a figura mais grandiloquente do Doutor. John Simm deve ter se divertido muito ao vestir os mais diversos figurinos para interpretas as variadas versões do Mestre espalhadas pelo mundo. Mas embora Simm seja um grande ator, a sua leitura do Mestre parece ser muito mais bem sucedido quando explora as fragilidades do vilão do que os seus aspectos mais farsescos. Por fim, Timothy Dalton concede a Rassilon uma presença ameaçadora sem grande esforço, deixando claro que este é um homem a se temer.

Apesar de seus problemas de roteiro, The End Of Time- Part Two acerta naquilo que mais lhe interessa, que é fechar a jornada dramática de seu protagonista, e encerrar diversas narrativas trabalhadas nos cinco primeiros anos da Nova Série, proporcionando uma bem vinda sensação de fechamento de ciclo. A era que trouxe Doctor Who de volta a televisão chegava ao fim, e com a destruição da sala de controle da TARDIS e o surgimento de Matt Smith como o 11º Doutor, a série começava não só a era de um novo Doutor, mas também uma nova visão para o programa e seu protagonista.

Doctor Who: The End Of Time- Part Two (Reino Unido, 1 de Janeiro de 2010)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Bernard Cribbins, John Simm, Timothy Dalton, Catherine Tate, Jacqueline King, Billie Piper, Camille Coduri, John Barrowman, Freema Agyeman, Noel Clarke, Elizabeth Sladen, Jessica Hynes, June Whitfield, Claire Bloom, Tommy Knight, Russell Tovey, David Harewood, Tracy Ifeachor, Lawry Lewin, Sinéad Keenan, Joe Dixon, Brid Breenan, Lachele Carl, Paul Kasey, Matt Smith
Duração: 75 Minutos

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