Crítica | Doctor Who: The Good Doctor, de Juno Dawson

Equipe: 13ª Doutora, Graham, Yaz, Ryan
Espaço: Planeta Lobos
Tempo: Futuro Distante

Quando foi anunciado que Jodie Whitaker seria a 13ª Doutor(a), se tornando a primeira mulher a protagonizar Doctor Who, muitos foram os que acusaram a série de se entregar ao “politicamente correto”, “modinha da lacração”, etc. Mas excetuando uma ou outra piada com a Doutora se habituando a pronomes femininos, a mudança de gênero não foi tratada pelos roteiros como grande coisa, não sendo mais estranha que os rejuvenescimentos ou envelhecimentos sofridos pela personagem a cada regeneração. Apenas The Witchfinders deu atenção ao fato de a Doutora ser uma mulher, ao jogá-la em um ambiente machista onde ela reconhecia que precisava fazer o dobro de esforço para ser ouvida do que em suas encarnações anteriores. Mas se a TV aguardou oito episódios para colocar a Doutora diante do machismo, a linha New Series Adventures, na estreia literária da 13ª Doutora, torna este um ponto importante em The Good Doctor, de Juno Dawson, ainda que tal problemática seja só uma dentre as várias abordadas pelo romance.

Na trama, situada entre Kerblam! e The Witchfinders, a Doutora e seus amigos conseguem interromper uma sangrenta guerra no planeta Lobos entre os nativos Lobas (criaturas semelhantes a lobos humanoides) e os colonos humanos. Com as duas espécies prontas para dividirem o planeta em paz, a equipe da TARDIS vai embora, só para Ryan perceber que deixou o seu celular para trás. Quando o grupo volta para buscar o aparelho, descobre que a TARDIS se materializou seiscentos anos após a sua partida e que algo deu muito errado. O planeta é agora governado por um sistema religioso que adora a figura divina conhecida como o “O Bom Doutor”, que visitou o planeta séculos atrás e cujo rosto nos vitrais e esculturas é idêntico ao de Graham. Com suas ações tendo indiretamente aberto espaço para um governo escravocrata, racista e misógino, que limitou os direitos das mulheres e escravizou os Loba, a Doutora precisa encontrar uma maneira de reverter a situação.

The Good Doctor parte do sempre interessante cenário onde as ações da Doutora, mesmo que bem intencionadas, geram consequências terríveis a longo prazo, o que gera um bom conflito para a protagonista. Mais interessante ainda é a proposta da influência das ações da Time Lady ser tão grande em uma cultura que ela se torna a base de uma religião, e como esta acaba distorcendo os fatos em torno da visita da Doutora em nome de seus próprios interesses e preconceitos, bastando observar que a figura escolhida para representar o Bom Doutor é justamente a de Graham, um homem branco. Este cenário permite que a obra teça perguntas hipotéticas fascinantes. Como certas religiões reagiriam se “Deus” fosse uma mulher? E se esse “Deus” não só dissesse que boa parte do que a religião que o venerou por séculos pregou está errado, mas negasse a própria divindade?

Embora a religião surja na obra como a base para sentimentos de ódio e ações cruéis como a escravidão, é importante frisar que o livro deixa claro que não está condenando a fé de ninguém. A obra faz sim uma crítica frontal ao machismo e ao racismo (e de forma mais sutil, a homofobia e a transfobia), mas principalmente ao ódio em geral, e como ele pode surgir da certeza absoluta, independente se for religiosa ou ideológica. Um exemplo está no movimento rebelde que combate a igreja do Bom Doutor, cuja causa justa de livrar Lobos da escravidão, corre o risco de se desvirtuar quando o seu líder passa a crer que vale qualquer preço para vencer o seu inimigo, sem questionar tal crença.

A prosa de Juno Dawson é bastante fluída, e a narrativa é muito bem estruturada, nunca perdendo o ritmo. Esta é a primeira vez que a autora escreve para a série, e dá gosto de ler o quão empolgada ela parece ao escrever para Doctor Who, o que pode ser percebido durante toda a passagem de introdução da Doutora e da TARDIS no primeiro capítulo, gerando um dos momentos mais fortes desta encarnação em qualquer mídia até este momento. A autora é igualmente habilidosa em trabalhar a dinâmica deste time da TARDIS de forma que raramente a série conseguiu fazer em sua 11ª Temporada, dando um momento de brilho para cada um dos quatro protagonistas.

A caracterização dos personagens principais é excelente. A Doutora surge perfeitamente traduzida para as páginas, com todo o otimismo, esperança e alegria quase infantil que caracteriza esta encarnação da personagem. Ao mesmo tempo, a autora cria momentos muito fortes para a protagonista, mostrando que essa Doutora pode ser tão perigosa quanto seus antecessores diretos, apresentando assim mais camadas desta encarnação (algo em que a série não foi totalmente bem sucedida até então), mas sem com isso trair a natureza mais pacífica e humilde da Gallifreyana. Isso pode ser percebido na citada introdução da personagem, onde mesmo tendo o total controle de uma situação com um grupo de Lobas após desativar as suas armas, ela ainda sai da TARDIS com uma bandeira branca improvisada com uma camiseta escrita “Eu amo Sheffield”, preferindo a gentileza à ameaça.

Os companions são igualmente bem representados. Vemos Graham em uma situação parecida à vista em The Witchfinders, ao ter que posar como o líder do grupo quando o ambiente não aceita a Doutora como tal, embora isso ocorra aqui em uma escala maior, afinal, Graham está basicamente assumindo o disfarce de Deus ao ser reconhecido como o Bom Doutor. A autora constrói os aspectos cômicos a partir do absurdo de um homem tão simples e humilde como Graham se ver nesta situação, especialmente em suas interações públicas com a Doutora, ou melhor, a Enfermeira, como Graham a nomeia diante dos irmãos da igreja em um dos momentos mais divertidos do livro. Yaz ganha um desenvolvimento muito bom também, a partir do momento em que é presa por ser pega andando “sem a companhia do pai ou marido”, para em seguida ser resgatada pela resistência, com quem passa a maior parte da trama. Embora simpatize com a causa libertária dos rebeldes, Yaz claramente desaprova alguns de seus métodos terroristas, o que se torna muito significativo vindo de uma personagem que cresceu sendo associada ao terrorismo apenas por sua religião. Ryan, ainda que seja o companion a ganhar menos espaço na obra, encontra momentos de destaque, especialmente durante o terço final.

O livro também apresenta um elenco de personagens originais bem trabalhados, que conseguem ir além de suas funções narrativas. O cruel Sumo Sacerdote Mykados mostra-se um antagonista odioso devido ao seu racismo e misoginia repugnantes, mas torna-se mais que um vilão unidimensional devido ao pavor que sente de qualquer coisa que ameace as suas crenças. O casal formado por Tempika, um jovem irmão da igreja do Bom Doutor, e Jaya, uma híbrida de humana e Loba e filha do líder da resistência carrega uma história bem simpática de romance proibido e simboliza a oposição do amor ao ódio. Vale ainda destacar Tromos, o Loba torturado e feito de cobaia para se tornar uma arma viva, retratado como um personagem tão trágico quanto ameaçador.

The Good Doctor mostra-se um começo com o pé direito para a 13ª Doutora na New Series Adventures, ao trazer uma aventura ágil, empolgante e que discute de forma metafórica e direta uma série de assuntos extremamente relevantes de forma complexa e instigante. Tanto que o que mais acaba me incomodando no romance é a forma como a narrativa se encerra de forma um pouco ligeira e simplista após ela atingir o seu clímax, pois a meu ver, havia espaço para um epílogo um pouco mais elaborado. O romance de Juno Dawson também se integra como uma parte orgânica da 11ª Temporada da série ao se enquadrar dentro da temática da temporada de que o ser humano ainda pode ser o mais terrível dos monstros. Para aqueles que se queixaram que o ano de estreia de Jodie Whitaker foi cheio de “comentários sociais chatos” e “agendas políticas”, recomendo que fique longe desse livro. Já quem acredita que Doctor Who nunca evitou comentar todo tipo de problemática social, pode vir a gostar bastante dessa obra. O melhor livro da Nova Série que li até aqui, e que apesar da minha crítica ao final corrido, se encerra deixando um quentinho no coração do leitor.

Doctor Who: O Bom Doutor (The Good Doctor)- Reino Unido. 25 de Outubro de 2018.
Autora: Juno Dawson
BBC New Series Adventures # 63
Publicação: BBC Books
149 páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.