Crítica | Doctor Who: The Snowmen

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O contexto em que os eventos de Snowmen aparecem para o 11º Doutor é um contexto de luto. Em sua aventura anterior, The Angels Take Manhattan, o Time Lord havia perdido Amy e Rory, dois dos seus queridos companions de longa data. A carga emocional daquele episódio, o fato de o Doutor não poder fazer nada pelo que aconteceu e o tamanho do sentimento que ele tinha por Amy, o primeiro rosto que ele viu após a regeneração, fez com que se sentisse extremamente amargurado, enraivecido e até depressivo em certa medida. Então ele resolveu se aposentar e não ajudar mais a humanidade.

Muita gente tem os dois pés atrás com a escolha de Steven Moffat para o tratamento do Doutor nesse Especial de Natal, mas eu sinceramente não vejo discrepância alguma com a personalidade ou reação que este Doutor teria diante do acontecimento. Ele era um crianção no corpo de um homem muito velho, que teve o primeiro contato com uma criança que acabaria tornando a sua melhor amiga e que o acompanharia por muito tempo, mesmo depois de casada. E se a gente ainda somar o grau de parentesco que os Pond tiveram com o Doutor, é perfeitamente natural a reação enraivecida dele e a forma como ficou luto, sentimento que este Especial de Natal tem justamente o poder de ajudar a curar, colocando um mistério realmente interessante para o Doutor, um mistério encarnado por alguém que ele conhecera (ou melhor… ouvira) em Asylum of the Daleks.

As relações emotivas aqui são muito bem pensadas. A “novidade” na equação é uma personagem que surgiu quando ele ainda estava acompanhado de seus sogros e, como impulso condicional para o seu envolvimento, uma palavra certeira no jogo de “uma única palavra para me deixar interessado“: pond. E ainda há a atmosfera vitoriana muito bem trabalhada, com a presença da Paternoster Gang (Madame Vastra, Jenny Flint, Strax) que conhecêramos em A Good Man Goes to War. Mesmo que o espectador não tenha tido contato com o material que serve como prequel desse Especial (a saber, The Great Detective, Vastra Investigates: A Christmas Prequel, O Demônio na Fumaça e The Battle of Demons Run: Two Days Later), a sensação de familiaridade entre os personagens e a própria reclusão do Doutor justamente próximo a esses amigos se faz sentir no decorrer do capítulo, um ambiente que serve também como bem-vinda colocação de mais uma encarnação de Clara.

É interessante ver como Moffat realiza um fantástico entrosamento entre o Doutor e os personagens de seu núcleo e perde consideravelmente a mão na hora de conceber os antagonistas. Temos a sorte de contar com Richard E. Grant e a voz de Ian McKellen como vilões (Dr. Simeon e a Grande Inteligência, respectivamente), mas chega um momento em que o plano parece bobo demais para o poder desses atores e pelo pavor que os bonecos de neve representavam inicialmente. Dr. Simeon passa o tempo todo coletando amostras de neve e a Grande Inteligência parece se esquecer de quem é de fato, ou seja, a receita perfeita para que uma grande ideia acabe se tornando apenas um surto vilanesco, cujo principal objetivo não é ser combativo pelo Doutor, mas para dar suporte à série para desenvolver outras coisas. Esse é um recurso comum em shows de caráter procedimental, mas quando a gente vê acontecer no nosso quintal, incomoda bem mais do que deveria.

O Doutor com um mapa do metrô de Londres datado dos anos 60 (referenciando The Web of Fear) e Simeon sugerindo que Arthur Conan Doyle se inspirou em Madame Vastra para criar Sherlock Holmes são pontos conceituais que ajudam prender a atenção do público, assim como a fenomenal interação entre Matt Smith e Jenna Coleman. Os dois juntos são realmente incríveis e Moffat já tinha aqui o cuidado de fazer com que Clara, mesmo nessa versão vitoriana, acompanhasse o Doutor em raciocínio, fosse sagaz, assumisse riscos e gostasse realmente de uma aventura onde as coisas não são facilmente explicáveis. É encantador ver tudo isso. E por estes bons motivos é que The Snowmen consegue se mostrar melhor no final, com o Natal aparecendo como uma data de esperança, mesmo frente a uma tragédia. É a partir desse intrigante momento que o Doutor consegue ânimo para olhar de novo o mundo à sua volta, sair do luto e buscar respostas para aquela que logo logo ganharia o título de “garota impossível“. Quem era Clara Oswald?

Doctor Who: The Snowmen (Reino Unido, 25 de dezembro de 2012)
Direção: Saul Metzstein
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Jenna Coleman, Tom Ward, Richard E. Grant, Catrin Stewart, Neve McIntosh, Dan Starkey, Joseph Darcey-Alden, Ellie Darcey-Alden, Liz White, Jim Conway, Cameron Strefford, Annabelle Dowler, Ben Addis, Sophie Miller-Sheen, Ian McKellen
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.