Crítica | Doctor Who: The Time of The Doctor

plano crítico the time of the doctor especial de natal

Rever este Especial de Natal para escrever a presente crítica me trouxe um turbilhão de lembranças. Parte da linha de produções comemorativas em torno dos 50 anos da série (trajetória composta por The Name, The Night, The Day e este The Time of the Doctor), o episódio veio com uma responsabilidade enorme, que era a de nos trazer a regeneração do Doutor, mas mais do que isso, uma explicação para a mudança da regra de 12 regenerações. Na época isso trouxe inúmeras dúvidas e chegou um momento em que era irritante ver espectadores que simplesmente pareciam não querer entender o que estava acontecendo. Pior que nem era algo absurdo assim, pois o Mestre, um dos vilões já conhecidos mesmo por quem só acompanhava a Nova Série, já tinha manipulado e burlado esses sistema inúmeras vezes. Retávamos saber como isso se daria com o Doutor.

Gosto muito mais do episódio agora do que quando o vi pela primeira vez e a diferença vem justamente no peso que dei para os pontos negativos do episódio no passado e o peso que dou para os mesmos pontos agora. Ainda olho com certa desconfiança para a segunda metade, quando Trenzalore começa de fato a ser invadido — porque na minha visão o estrago deveria ter sido bem maior e não acredito que o Doutor, com tão poucos recursos e possibilidade reduzida ou nula de contra-ataque e defesa teria durado tanto tempo –, mas agora consigo ver isso como um problema mais leve, o que por tabela traz uma série de outras relações que não tinha antes, como gostar de Tasha Lem… exceto na parte final, com ela já dominada por um Dalek e sendo redimida por uma provocação do Time Lord. Isso realmente nunca melhora, nem quando eu quero brincar de fanfic e jogo com aquela teoria de que Tasha é na verdade a 4ª regeneração de River Song.

Steven Moffat conseguiu criar um ponto final realmente aplaudível para o 11º Doutor, pelo menos na apresentação de todos os elementos para o drama. Primeiro, a mensagem misteriosa em torno de Trenzalore, um planeta diante do qual uma antiga profecia (no Universo e para nós também!) reinava. Depois, a rachadura no espaço-tempo como uma cicatriz reaberta lá da 5ª Temporada. E por fim, a ideia de um lugar que seria o túmulo do Doutor, o lugar onde o silêncio iria cair. Eu gosto muito quando qualquer mídia que trabalha durante muito tempo personagens dentro de um Universo usa de forma inteligente os signos, símbolos e pistas da própria jornada para tornar as coisas melhores, que é exatamente o que o showrunner faz aqui, e sem precisar de muito esforço em setores que normalmente causam problemas para alguns episódios de caráter épico: justificativa para o acontecimento e motivação para o protagonista intervir. Aqui em The Time of The Doctor o Doutor já começa na órbita do planeta e tanto a justificativa quando motivação para isso se tornam ainda melhores com o passar dos minutos.

Daí o roteiro brinca com o que tem em mãos, apresentando-nos Handles (que depois me faria chorar, por sua partida) e o ponto natalino de fato, com Clara entrando na história a partir de alguns problemas durante o almoço de Natal, que também exigia um namorado. Gosto de todas as brincadeiras — mesmo aquela bobinha do peru assando na TARDIS… e se você perguntar pra mim, aquela cor que ele saiu não é cor de peru assado nem aqui nem em Trenzalore! E mais: tinha só aquilo de batata na forma? Como assim? — e da maneira fluída com que o texto passa para os assuntos mais sérios, deixando os trocadilhos e risos de lado para colocar a ameaça em cena. Tecnicamente falando, tudo colabora para que esse primeiro momento dê certo e o diretor Jamie Payne não se furtou em criar planos que nos mostrem ou indiquem coisas que nos fazem sorrir em diversas cenas. Os problemas começam a acontecer quando o Doutor e Clara chegam no planeta e são recebidos por uma porção de Weeping Angels, o que me pareceu só um fanservice bobo. E quanto a esse aspecto, criticamente falando, eu também deveria dizer que o Cybermen de madeira foi um fanservice bobo, mas não vou dizer porque… gente, era um Cybermen de madeira! O quão sensacional é isso?

Os 900 anos que o Doutor passa em Trenzalore colocam-no em contato bem próximo com a população local — especialmente em Christmas — e o texto cria um cenário bonito de proteção, dialogando bem com o Natal ao fazer com que o Doutor fosse, em última medida, uma espécie de Papai Noel que mantinha todos vivos. Infelizmente o episódio não mostra nenhuma ação mais sólida do Doutor ou mesmo da Church of the Papal Mainframe para lidar de outra maneira com toda a situação. Sim, eu entendo o apelo de tudo isso, mas penso que seria mais interessante ver uma mente como a do Doutor trabalhando em alternativas do que as idas e vindas de Clara. Ainda assim, consegui aproveitar bem mais toda a história dessa vez, a despeito de seus problemas no meio do caminho — sendo o último aquela exibição ridícula do Doutor destruindo as naves Daleks com a força da regeneração. Eu sei que é sempre muita energia e que ela é expelida de qualquer forma, eu sei disso, eu assisto Doctor Who! Mas convenhamos, dava para usar o mesmo recurso sem ter aquela giradinha de braço horrorosa, vai…

A sequência final do episódio — da qual um recorte em elipse seria retomado de maneira meio brega, mas não menos emocionante e interessante em Deep Breath — é um primor. Payne mantém a mesma abordagem poética com que dirigiu todas as cenas com crianças e desenhos e brinquedos no episódio e Moffat capricha na despedida. Por mais que eu ame o glorioso Capaldão, quem vence o campeonato de melhor discurso de despedida até o momento (2019) é o 11º Doutor, não tem jeito. Sem se tornar um melodrama e sem querer parecer frio, o discurso está perfeitamente condizente com essa fase de mudanças para o personagem, afinal, a vida dele foi estendida para além do que naturalmente sua espécie foi designada! Ele ganhou um ciclo regenerativo inteiro de presente e comparando o que acabara de passar com todo o longo futuro que tinha pela frente, tal discurso cai como uma luva. E melhor: consegue ser aplicado a cada um de nós também. Uma despedida muito bonita, com direito a um cameo de Amy, em um Especial de Natal que traz a ideia de renovação e, acima de tudo, de funcionamento do ciclo da vida.

Doctor Who – The Time of the Doctor (Reino Unido, 25 de dezembro de 2013)
Direção: 
Jamie Payne
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Matt Smith, Jenna Coleman, Peter Capaldi, Karen Gillan, Orla Brady, James Buller, Elizabeth Rider, Sheila Reid, Mark Anthony Brighton, Rob Jarvis, Tessa Peake-Jones, Jack Hollington, Sonita Henry, Kayvan Novak, Tom Gibbons, Ken Bones, Aidan Cook
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.