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Crítica | Doctor Who: The Waters Of Mars

por Rafael Lima
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Os especiais de 2009 de Doctor Who, que marcaram a despedida de Russell T. Davies do show e a saída de David Tennant do papel do Doutor tiveram como elo temático a inevitabilidade do fim e da transformação para que a vida ocorra, temas que apareceram até mesmo na participação do 10º Doutor em The Sarah Jane Adventures, ocorrida no mesmo ano. The Waters Of Mars leva essa discussão a um ponto máximo de tensão, pavimentando o caminho para a regeneração do 10º Doutor. Na trama, o Doutor chega em Marte, no ano de 2059, onde pretende relaxar e curtir a paisagem. Porém, ele acaba encontrando uma base terráquea liderada pela Capitã Adelaide Brooke, o que o faz ser detido para averiguação. Mas quando alguns tripulantes passam a demonstrar um comportamento estranho após entrar em contato com uma misteriosa inundação. O Doutor percebe que está em meio a um evento vital para a história da Terra, que irá inspirar a neta de Adelaide a seguir os passos da avó e tornar-se uma astronauta, dando início à expansão da raça humana para outras partes do Universo. Mas para que isso ocorra, todos os presentes na base devem morrer.

Embora desde o começo a trama revele sua natureza sombria, vide o visual aterrador dos zumbis em que os tripulantes da base se transformam, os primeiros minutos de The Waters Of Mars trazem bem vindos momentos de descontração, criando um contraste com o peso emocional que se segue. Se o episódio só contasse esta história de terror sobre essa força maligna na água, já teríamos um grande episódio, pois a ideia de que uma gota desse líquido transforma a vítima em um zumbi assassino é apavorante. Mas o terror é usado para revisitar temas tratados ao longo da série, e articulá-los com o arco dramático que leva ao fim do Décimo Doutor. A tragédia que o Time Lord encontra em Marte é um ponto fixo no tempo, um evento que a exemplo da destruição de Pompeia em The Fires Of Pompeii, define a história humana. Mas diferente do episódio de Pompeia, que tratava de um fato histórico real, este especial trata de um ponto fixo no futuro, trazendo a possibilidade de o Doutor de fato alterar tal ponto fixo.

Todas as histórias que lidam com a questão dos pontos fixos são tramas de tragédias anunciadas, mas a condução destas narrativas está ligada à forma que os roteiristas enxergam a mecânica da viagem no tempo na série. Para Davies, a história não é negociável; pode-se até criar desvios, mas no fim, o tempo consegue o que quer; uma visão que dá um clima lúgubre para este episódio. O roteiro traz um dilema moral, pois ao mesmo tempo em que defende que a morte dos tripulantes (Adelaide em especial) é necessária, pois tal morte cria o futuro; ele mostra as pessoas por trás do sacrifício exigido pelo tempo, nos fazendo torcer para que o Doutor ache uma forma de salvar essas pessoas, pois lamentamos por cada um que cai diante da infecção da água marciana.

A série volta a abordar o fardo e a responsabilidade que é ser o Doutor. Ele é alguém que dedicou boa parte da vida a salvar pessoas, mas que nesta situação, não deve fazer nada enquanto um massacre ocorre. Tal conflito é mostrado em uma sequência intensa onde o protagonista caminha para longe da base, enquanto ouve através do radio em seu capacete o som do caos e da morte que se desenrola no local, o que leva o Doutor se perguntar o que significa ser um Time Lord. Davies enxerga o Doutor como uma figura quase divina, que muitas vezes interfere na vida de comunidades e civilizações, sem se preocupar com o que as suas ações deixam para trás. Isso não significa que Davies vê o personagem de forma completamente cínica, mas em sua visão, o Doutor possui um poder que pode vir a corrompê-lo se ele não respeitar alguns limites.

The Waters Of Mars entrega o ápice dessa visão do personagem ao trazê-lo inebriado pelo poder após salvar os poucos sobreviventes, entre eles a própria Brooke. A intenção do Doutor em voltar para a base e resgatar o que restou da equipe é nobre, mas no momento em que ele obtém sucesso, o Gallifreyano esquece não só as possíveis implicações de seus atos, mas o motivo do por que resolveu desafiar o tempo. Ao ficar exultante em ter salvado Brooke, e desvalorizar o resgate de Yuri e Mia, o Doutor não está mais só salvando pessoas, mas se inclinando a decidindo quais importam. Mas ainda mais perigoso que isso, é que ao se declarar não como um sobrevivente, mas como o vencedor da Guerra do Tempo, o Doutor reivindica para si o direito de escolher quando a história pode ser mudada; um poder que ninguém deveria ter, como afirma Brooke em certo ponto.

Mas embora o Doutor basicamente se declare como um deus em seu assustador diálogo com Brooke, ele não é um deus, como vemos nos minutos finais, quando o Time Lord mostra-se completamente errado em suas conclusões. Ele considera Yuri e Mia pessoas desimportantes; mas são eles que corrigem a interferência do Doutor e garantem que o legado de Adelaide permaneça intacto com seu relato sobre Marte. O protagonista diz a Brooke que ninguém mais pode detê-lo, mas é o que ela faz ao tirar a própria vida na tentativa de aproximar da linha do tempo original a nova linha do tempo criada pelo protagonista. O desfecho reafirma a visão de Davies do tempo como uma força que não negocia, e que aqui, bota o Doutor em seu devido lugar.

O roteiro de Davies e Phil Ford não trata apenas da sensação de impotência do protagonista diante de tragédias inevitáveis, ou do quão perto ele pode estar de ser corrompido pelo poder, mas também do medo da morte que o Doutor possui, pois tal como Brooke, o 10º Doutor também teve o seu fim profetizado. Algo está vindo atrás do viajante do tempo, seja morte ou regeneração (que para esta encarnação é a mesma coisa). Dessa forma, fica claro (especialmente com a referência feita às quatro batidas da profecia e a aparição do Ood), que o Doutor acredita pelo menos em algum nível, que se ele pode impedir o destino inevitável da Capitã Brooke, talvez também consiga impedir o seu próprio destino inevitável, o que torna o desfecho ainda mais sombrio e pessimista.

Este é um episódio brilhante para David Tennant, por permitir ao ator explorar diferentes camadas de seu Doutor. Se nos minutos iniciais, Tennant pode nos mostrar a fase mais leve do personagem em sua empolgação inicial ao chegar a Marte, logo ele ganha a chance de exercitar veias mais dramáticas; como a angústia e a indecisão do personagem na belíssima cena em que o Doutor se afasta da base marciana enquanto o fogo e a água tomam conta do lugar. Tennant também merece aplausos pela cena final, que marca um dos seus melhores momentos na série, pois ele vai de um assustador louco pelo poder para um homem desesperado em uma transição emocional fantástica. O trabalho de Lindsay Duncan como a Capitã Adelaide Brooke também merece ser destacado ao construir uma personagem dura, que reflete a autoridade do posto que ocupa; ao mesmo tempo em que mostra uma sutil mas inequívoca dedicação e compaixão aos seus tripulantes. A atriz transmite de forma sublime o turbilhão de emoções a que Brooke é submetida ao longo da história, com destaque para o momento em que ela é informada de seu destino, e à cena final, onde ela se mostra uma parceira de cena perfeita para Tennant. Como curiosidade, o episódio traz a presença de Gemma Chan no papel de Mia, antes de alcançar fama internacional.

O diretor veterano da série Graeme Harper, em seu último trabalho no show até o momento (2021) entrega o seu melhor trabalho para Doctor Who. Harper constrói uma atmosfera absolutamente claustrofóbica para o episódio, que colabora com o constante clima de tensão; ao mesmo tempo em que apresenta uma decupagem que sabe valorizar os diversos momentos emocionais da história, com enquadramentos que entendem quando devem ser grandiosos e quando devem ser intimistas. A trilha sonora de Murray Gold também deixa uma marca forte neste especial, dando o tom trágico e melancólico desta histórica, com destaque para o tema Time Lord Victorious presente no desfecho do episódio.

The Waters Of Mars segue sendo um dos episódios mais fortes e atmosféricos da história de Doctor Who. É uma trama de terror fantástica sobre zumbis assustadores, mas também é um conto lúgubre e pessimista sobre a inevitabilidade do tempo. Ao mesmo tempo, o especial pavimenta de forma coerente o caminho para a regeneração do 10º Doutor, ao fazer o personagem encarar o seu lado sombrio, revelando como o Time Lord anda em uma linha tênue entre ser um ser maravilhoso e um ser assustador. 

Doctor Who: The Waters Of Mars – Reino Unido. 15 de Novembro de 2009
Direção: Graeme Harper
Roteiro: Phil Ford, Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Lindsay Duncan, Peter O’Brien, Aleksander Mikic, Gemma Chan, Sharon Duncan Brewster, Joplin Sibtain, Alan Ruscoe, Cosima Shaw, Michael Goldsmith, Lily Bevan, Max Bollinger, Charles De’Ath, Rachel Fewell, Anouska Strahmz
Duração: 62 Minutos.

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3 comentários

Luiz Santiago 11 de abril de 2021 - 23:28

Eu nem sei por onde começar dizer o quanto eu adoro essa história. Eu gosto muito dessa reta final do 10º Doutor, mas isso aqui é absurdo. A linha fina que você utilizou cai perfeitamente para isso que a gente vê representado nessa história. O Doutor indo longe demais e colocando pra fora coisas negativas de seu comportamento como visão do Universo, do mundo, inclusive com o episódio apresentando situações morais e éticas que nem todo mundo parece prestar atenção aqui, né. Baita especial!!!

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Rafael Lima 12 de abril de 2021 - 23:04

Eu não sei dizer se é o meu episódio favorito de DW, mas entra num top 5 fácil. Ele provoca uma série de emoções e sentimentos conflitantes na gente, que é coisa de louco. Lembro que quando assisti pela primeira vez, fiquei um tempo embasbacado olhando pra tela, tentando absorver o que tinha visto. Os zumbis das águas eram assustadores; mas naquele discurso, o 10º Doutor conseguiu ser ainda mais.

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Luiz Santiago 13 de abril de 2021 - 17:28

Aquele momento em que a gente até entende o princípio de um discordo, mas espuma de ódio de um personagem que a gente ama, né.

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