Crítica | Doctor Who – Timewyrm: Apocalipse, de Nigel Robinson

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Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Planeta Kirith
Tempo: Futuro Distante (1 bilhão de anos antes da entropia)

Timewyrm: Apocalipse, terceiro romance da primeira saga de Doctor Who na Virgin, é o livro menos popular da tetralogia que forma este arco inicial. Embora eu não o ache o mais fraco, consigo entender a razão de um grande numero de pessoas considerá-lo assim. Enquanto os outros livros da saga da Timewyrm apresentavam propostas mais ousadas para a série, com maior ou menor grau de sucesso, a obra de Nigel Robinson apresenta uma aventura mais convencional e cheia de clichês whovianos, mas nem por isso mal escrita ou mal executada.

A trama dá continuidade aos eventos de Timewyrm: Êxodo, com o Sétimo Doutor e Ace continuando a caçada à criatura cibernética Tymewyrm, que ameaça todo o tempo e espaço. Após semanas sem encontrar nenhuma pista, a dupla desembarca no Planeta Kirith, no futuro distante, cerca de um bilhão de anos antes da entropia, segundo o Doutor. Logo, o Time Lord e sua companion conhecem os nativos do planeta, os Kirithons, que vivem em uma sociedade basicamente perfeita; livre de violência, fome ou outras privações. Essa civilização utópica é construída pelo auxílio dos Panjistri, alienígenas poderosos que vivem isolados em uma ilha, e que impulsionam o desenvolvimento dos Kirithons há milhares de anos. Mas ao investigar o passado do planeta, o Doutor logo passa a desconfiar que os Panjistri sabem muito mais do que revelaram aos seus protegidos, ao mesmo tempo em que começa a ter estranhos flashes dos primeiros dias de sua segunda encarnação.

O cenário apresentado em Timewyrm: Apocalipse, onde uma raça alienígena vive voluntariamente sob o jugo de outra, não é novo para Doctor Who, lembrando arcos televisivos como The Krotons. Desse mesmo arco, também podemos reconhecer o elemento narrativo onde de tempos em tempos, um nativo do planeta é oferecido para ser levado por seus benfeitores alienígenas. De fato, mesmo a forma como o arco maior envolvendo a Timewyrm é desenvolvida neste livro parece uma repetição incômoda do que foi feito com mais habilidade por Terrance Dicks no volume anterior da saga. Essas familiaridades revelam o grande pecado do trabalho de Robinson neste livro, que é tornar a obra derivativa. O problema do trabalho do autor aqui não é utilizar velhos clichês, afinal, ele estava trabalhando com uma franquia que na época já tinha mais de vinte cinco anos. O problema é não conseguir dar algum frescor á estes mesmos clichês, ao configura-los de forma muito semelhante ao que já foi feito antes.

Mas isso não significa que a história não seja bem executada. Robinson consegue manter a narrativa em constante movimento e em um ótimo ritmo, mas sem com isso torná-la apressada. Temos um ótimo desenvolvimento do mundo de Kirith; explorando a sua cultura, geografia e política, criando um ambiente muito rico, com tais descrições sempre funcionando a favor da trama. Os núcleos do enredo são bem desenvolvidos, articulando-se de forma orgânica, desembocando em um 3º ato competente, embora um pouco apressado. Curiosamente, embora eu tenha reclamado da natureza derivativa do romance, suas passagens mais originais são justamente as mais problemáticas, como a dispensável subtrama envolvendo flashbacks do 2º Doutor (com direito a participação especial de Ben e Polly) e um prólogo sem razão de existir que relembra os eventos do arco Logopolis apenas para explicar o significado da entropia (e fazer um fan service).

Os Panjistri, alienígenas geneticistas com habilidades telepáticas, revelam-se vilões interessantes e um bom desafio para o Doutor e Ace. À medida em que a narrativa avança e vamos descobrindo mais dos planos dos Panjistri, eles vão se tornando personagens mais odiosos, o que, em se tratando de vilões, é uma grande vitória para o autor. A temática da obra sobre como uma evolução por caminhos fáceis pode ser prejudicial é igualmente bem trabalhada e utiliza o time da TARDIS como verdadeiros agentes do caos, fazendo-os provocar uma revolta dos Kirithons contra os Panjistri, no que é definida por Ace como causar problemas no Paraíso.

O romance traz um elenco de personagens originais muito carismáticos e que conquistam a simpatia do leitor. Embora nenhum deles seja exatamente complexo, todos possuem arcos dramáticos redondos, com destaque para Miríl, um Kirithon ancião que redescobre a própria curiosidade e desejo por desafios após anos sob o julgo dos Panjistri, e Raphael, um jovem Kirithon, que é imediatamente contagiado pelo espírito rebelde de Ace, passando a nutrir uma paixão juvenil por ela. Destaco ainda, Huldah, o líder dos Kirithon, que está plenamente ciente da conspiração dos Panjistri, e não se importa em prejudicar o próprio povo em troca de pequenos luxos, tornando-se um daqueles personagens que adoramos odiar.

O Sétimo Doutor e Ace, por sua vez, são bem retratados, estando fiéis às suas versões televisivas, embora também não sejam muito aprofundados. É curioso que enquanto a maioria dos romances da linha Virgin New Adventures prefere focar nos aspectos mais sombrios e manipuladores do Time Lord de Sylvester McCoy, Robinson opta por deixar essas características em segundo plano e explorar a persona mais cômica estilo Sad Clown que essa encarnação do Gallifreyano apresentou, principalmente em suas aventuras iniciais na TV. Ace, por sua vez, tem a mistura vencedora da série, de rebeldia ardente e inocência juvenil, muito bem transposta para as páginas, com a sua desconfiança em relação à aparente perfeição da sociedade de Kirith combinando perfeitamente com o que conhecemos da personagem.

Timewyrm: Apocalipse é um romance competente e honesto naquilo que se propõe, trazendo um elenco de personagens muito carismáticos. Entretanto, a obra peca por seu caráter excessivamente derivativo, o que torna grande parte das reviravoltas da trama muito previsíveis, além de soar repetitivo no que diz respeito ao arco principal da Timewyrm. Em resumo, é um bom livro da série, que entende os seus personagens e suas dinâmicas, mas que não deve se perpetuar na memória do leitor por muito tempo.

Doctor Who- Timewyrm: Apocalipse (Timewyrm: Apocalypse). Reino Unido, 17 de Outubro de 1991.
Autor: Nigel Robinson.
Publicação: Editora Virgin.
Virgin New Adventures # 03.
201 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.