Crítica | Doctor Who – Timewyrm: Revelação, de Paul Cornell

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Equipe: 7º Doutor, Ace
Espaço: Cheldon Bonniface, Inglaterra. Lua
Tempo: 1992

Escrito por Paul Cornell, em seu primeiro trabalho de grande expressão para Doctor Who, o romance Tymewyrm: Revelação é o quarto e último livro da saga da Timewyrm. Embora o desfecho da saga não deixe de possuir o caráter épico que era prometido desde o primeiro livro da série, a obra de Cornell usa a grandiosidade da ameaça da Timewyrm como mero pano de fundo para apresentar problemáticas mais íntimas em torno de seus personagens, explorando a sua psique; em alguns casos, de forma literal, mas ainda nos dando a sensação de estar acompanhando uma grande Season Finale.

Na trama, a cidade de Cheldon Bonniface é atingida por uma nevasca na véspera de Natal, fazendo com que os únicos paroquianos na missa do reverendo Trelaw seja o casal Emily e Peter Hutchings. Ao mesmo tempo, o 7º Doutor e Ace chegam a Cheldon Bonniface em busca de pistas da localização da criatura Timewyrm, sem saber que estão entrando em uma armadilha preparada pela vilã. Pra piorar a situação, Ace começa a ter lembranças de ter sido assassinada aos oito anos de idade ao levar uma tijolada de Chad Boyle, um valentão que a atormentou na infância. Com a Timewyrm manipulando o seu próprio passado e o de sua companheira, o Doutor se prepara para o confronto final com a mítica criatura no mais improvável dos campos de batalha.

Timewyrm: Revelação é a obra da saga que mais experimenta com o tipo de estrutura narrativa que se espera de Doctor Who, com esses experimentos se encaixando perfeitamente no universo da série. Apresentando conceitos e passagens que flertam com o surrealismo, e uma narrativa que toma a liberdade de ir e vir no tempo (sem nunca confundir o leitor), Cornell não tem medo de apelar pra simbolismos bem literais, vide a cena que ilustra a capa, onde o Doutor dança com uma representação da morte (embora alguns desses trechos acabem sendo apenas abstrações).

Ao situar boa parte da narrativa na mente do Doutor, o autor explora com afinco as possibilidades que esse tipo de cenário onírico oferece. Momentos como aqueles em que Ace precisa descer uma longa escada circular de metal que parece não ter fim; o inferno astral da jovem de Perivale em sua escola de infância farão a imaginação do leitor voar com os cenários fantásticos e assustadores descritos pelo autor. Além disso, ele manipula bem a narrativa em camadas, com os acontecimentos no mundo mental onde Ace e o Doutor combatem a Timewyrm, e no mundo físico na Igreja onde o Reverendo Trelaw e os Hutchings protegem o time da TARDIS muito bem articulados, com nenhum dos dois cenários perdendo o brilho para o outro.

O autor apresenta personagens fascinantes, como Saul; a igreja senciente telecinética, cuja natureza empática combina perfeitamente com a condição de santuário vivo que ocupa. A longa amizade de Saul com o Reverendo é muito bonita, seja pela preocupação de Saul com o religioso devido à sua saúde frágil, quanto pela confiança e fé que Trelaw deposita na entidade. Já os Hutchings trazem a perspectiva das pessoas comuns para a trama, que Cornell preza tanto em suas histórias, ao colocar esse carismático casal tendo que enfrentar uma situação que mal compreendem, ao se verem presos em uma igreja senciente transportada para o solo lunar. A Timewyrm, por sua vez, continua não sendo uma grande vilã, mas este é o livro que melhor a desenvolve, ao dar à antagonista uma abordagem mais niilista e distante. A obra já consegue resultados melhores com os vilões humanos, o tenente Hemmings, vindo de Timewyrm: Êxodo, e Chad Boyle. Boyle é especialmente aterrador por ser só um menino, que tem a sua maldade infantil manipulada pela Timewyrm. Mas apesar dos eventos cataclísmicos da obra, são nos conflitos íntimos e interpessoais que Paul Cornell está interessado.

O desenvolvimento de Ace na série sempre foi construído como uma jornada de amadurecimento onde ela muitas vezes precisava confrontar os seus traumas. Cornell dá continuidade a essa abordagem, ao mergulhar a companion em um purgatório onde ela se vê novamente como uma criança, sendo perseguida por seu valentão de infância como se este fosse um bicho papão. Ao mesmo tempo, a forma como a moça encara a sua relação com seu “professor”, que vinha sendo tensionada desde os últimos arcos da Série Clássica, devido à persona manipuladora do Time Lord, também é um ponto vital para o seu amadurecimento. Ace chega ao fim do livro muito mais consciente do fato de estar se tornando uma adulta, e também de seu papel como companion ao lado do Doutor, onde percebe que por mais que admiremos e respeitemos nossas figuras paternas, elas ainda podem ser terrivelmente falhas.

O Doutor ganha um belo desenvolvimento ao revisitar momentos trágicos de arcos como The Daleks Master Plan, The Silurians, Inferno e Earthshock de forma a entender como eles moldaram a persona do Sétimo. Cornell se compromete de tal forma com a proposta de uma viagem pela mente do Time Lord, que transforma a trama em um inusitado Multi Doctor, com manifestações de algumas versões anteriores do Doutor surgindo ao longo da história. A participação do 5º Doutor é digna de nota, pois o momento em que Ace encontra o mais pacífico dos Doutores acorrentado em uma árvore funciona como uma metáfora visual poderosa do tipo de comportamento que o Sétimo Doutor decidiu adotar. Tal como Ace, o Doutor chega ao fim do livro como alguém mudado, muito mais consciente do quão perto está de romper os princípios que defende ao atuar em uma área moral cada vez mais cinzenta para combater as ameaças que enfrenta. A obra resolve tal conflito de forma soberba, ao fazer do desfecho da batalha contra a Timewyrm uma antítese das ações do protagonista em Remembrance of The Daleks, história que é frequentemente evocada ao longo do romance.

Timewyrm: Revelação se mostra um grande desfecho para a saga da Timewyrm, perdendo por pouco o título de melhor da quadrilogia para Timewyrm: Êxodo de Terrance Dicks, por apelar para um pequeno, mas vital Deus Ex Machina em seu desfecho. Ainda assim, o romance de Paul Cornell merece todos os elogios por toda a sua inventividade, pela forma como manipula a longa história da série para reforçar os seus conflitos, e especialmente pelo brilhante retrato que faz do Sétimo Doutor e Ace, não apenas captando com perfeição a dinâmica da dupla, mas por fazer essa dinâmica evoluir.

Doctor Who- Timewyrm: Revelação (Timewyrm: Revelation). Reino Unido. 05 de Dezembro de 1991.
Autor: Paul Cornell
Publicação: Editora Virgin
Virgin New Adventures #04
220 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.