Crítica | Doctor Who: Zeta Major, de Simon Messingham

Zeta Major plano crítico doctor who livro

Equipe: 5º Doutor, Nyssa, Tegan
Espaço: Morestra, Zeta Minor
Tempo: 39.166

Com Zeta Major, o autor Simon Messingham entrega uma inesperada continuação para Planet Of Evil, arco do 4º Doutor exibido durante a 13ª Temporada da Série Clássica. Na trama, situada entre Arc of Infinity e Snakedance, o Quinto Doutor vem sofrendo uma série de ataques psíquicos, que o estão deixando cada vez mais fraco. Tentando encontrar a origem dos ataques, a TARDIS se materializa na Torre de Energia, uma gigantesca estrutura espacial construída pelo Império Morestriano que o Time Lord encontrou em sua 4ª encarnação ao lado de Sarah Jane. Logo o Doutor, Nyssa e Tegan se vêem no meio de um conflito entre duas facções do império que buscam o controle da Torre; enquanto forças misteriosas voltam a fazer experiências com anti-matéria, dando início a um processo que ameaça bilhões de vidas.

Embora eu goste do arco que deu origem a este romance, nunca achei que havia mais o que se explorar nele, especialmente em uma trama que se foca mais nos Morestrianos do que no Universo Anti-Matéria, já que nada muito interessante era dito sobre essa espécie. Por isso, deve-se aplaudir a criatividade de Simon Messingham em usar a sugestão aparentemente descartável do 4º Doutor no fim da história de TV sobre o uso da energia cinética dos planetas como solução para a crise de energia no Império Morestriano como base para a construção de mundo da narrativa da obra.

A ideia de que as ações do Doutor podem ter um impacto tão grande em uma cultura que ele se torna a base de uma religião, gerando uma teocracia, não é nova, tendo sido usada antes no arco The Face of Evil, e também depois, no romance The Good Doctor (que também partilha a discussão sobre a problemática do machismo). É um cenário repetido, mas ainda fascinante, sendo  bem explorado pelo autor. Messingham configura Zeta Major inicialmente como um thriller político futurista, ao apresentar uma sociedade dividida entre a igreja, que tenta manter o seu poder simbolizado pela Torre de Energia, que supostamente executaria a sugestão do 4º Doutor (na verdade um elefante branco que levou dois mil anos para ser construído e que não vai funcionar) e o governo civil, que está mais preocupado em derrubar a igreja do poder do que em impedir a tragédia que se avizinha. A partir deste cenário, a obra constrói uma atmosfera que remete aos últimos anos da Idade Média, não só pelo poder ditatorial que a Igreja dos Deuses das Trevas possui, mas pelo próprio cenário anacrônico da trama, onde cavalos, espadas e castelos convivem com a tecnologia avançada que as classes mais altas guardam para si. O Império Morestriano surge como um lugar violento e completamente hostil para o Time da TARDIS, onde mesmo os aliados que conquistam não são confiáveis, seja por terem suas lealdades fluídas, seja por serem instáveis emocionalmente.

O autor estrutura a narrativa de forma curiosa, entrecortando a ação principal com passagens epistolares, com trocas de correspondência entre os personagens, trechos de diários e mesmo escritos do livro dos Deuses das Trevas, a Bíblia dos Morestrianos. Embora essas passagens sejam interessantes para dar um contexto ao Universo do livro e alguns delas sejam até divertidas, vide a referência ao caleidoscópio azul que serviu de abertura da série durante a maior parte da era de Tom Baker, tais passagens acabam deixando o ritmo da narrativa truncado em muitos momentos.

Messingham capta bem a dinâmica deste time da TARDIS, com destaque para o 5º Doutor. Embora deixe o protagonista em um estado enfraquecido durante o primeiro ato, logo o autor passa a explorar os melhores aspectos desta encarnação do Time Lord. O Doutor de Peter Davison está em sua melhor forma quando é a unica voz desesperada da razão em um mundo que caminha quase voluntariamente para a destruição, e é o que temos em Zeta Major, com o protagonista tentando convencer a todos da péssima ideia que é voltar a estocar cristais anti-matéria em um universo onde tal material não deveria existir. As companions, ainda que bem retratadas, acabam não sendo tão bem servidas quanto o Doutor. Ambas devem lidar com o ambiente misógino do Império Morestriano, mas as barreiras que as moças enfrentam servem mais para desenvolver o ambiente do que para dar a elas algum tipo de jornada dramática. O autor até tenta desenvolver um arco para Tegan através de uma paixão platônica entre a australiana e Ferdinand, um cavaleiro em uma cruzada de vingança contra a igreja, mas tal relação acaba não ganhando muita credibilidade nas páginas.

Messingham apresenta um número gigantesco de personagens originais, dando a sua obra uma pretensa aura épica, o que é reforçado pela duração de meses da narrativa, onde os personagens fazem longas viagens pelo mar e também viagens interplanetárias. Entretanto, poucos são os personagens que realmente ficam na nossa memória, com alguns deles até se confundindo em certos momentos, porque basicamente são todos maníacos pelo poder. Mas o autor acerta na construção de Kristyan Fall, o grande vilão da trama. Partindo do arquétipo do super espião que se voltou contra o sistema e passou a promover o caos, o autor consegue entregar um antagonista que supera o clichê, ganhando boas camadas dramáticas, e ainda conseguindo conquistar o leitor com o seu carisma, ainda que suas intenções não sejam nada nobres. Fall se torna um adversário tão interessante para o 5º Doutor, pois ao mesmo tempo em que seus modos atrevidos de “homem de ação” criam um contraste interessante com os modos mais contidos desta versão do Time Lord, seu comportamento muitas vezes anárquico e inteligência veloz (mesmo que não seja um cientista) lembra um pouco o próprio Doutor, fazendo da disputa entre os dois uma delícia de se ler.

O romance funciona como uma continuação orgânica de Planet Of Evil, até expandindo muito dos conceitos apresentados naquele arco, mas mantendo uma saudável independência, com o livro podendo ser lido perfeitamente por quem nunca assistiu ao arco. Claro, muitos elementos familiares daquela história retornam aqui, como as mutações provocadas pela anti-matéria, e o próprio planeta Zeta Minor, que serve de palco para o clímax da obra, mas as referências surgem de forma bem colocadas, não soando gratuitas. 

Zeta Major termina sendo um livro bem interessante da série, que tem uma bela e detalhada construção de mundo; traz um arco dramático muito bem desenhado para o 5º Doutor explorando os melhores aspectos desta encarnação, e ainda lhe dá um adversário a altura na figura de Krystian Fall. A obra, entretanto, acaba tornando-se megalomaníaca demais em alguns pontos, sem que esta suposta aura épica tenha um real efeito dramático, além de encontrar problemas de ritmo em alguns pontos por um uso nem sempre assertivo da prosa epistolar. O romance de Simon Messingham tem muitas qualidades, mas claramente tinha potencial pra ir além.

Doctor Who: Zeta Major – Reino Unido, 06 de Julho de 1998.
Autor: Simon Messingham
BBC Past Doctor Adventures # 13
Publicação: BBC Books
257 Páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.