Crítica | Dolittle

Velocidade. Após assistir a nova adaptação do famoso médico capaz de se comunicar com os animais, essa foi a palavra que ficou gravada em minha mente. Não de uma maneira positiva, devo dizer.

Dirigido por Stephen Gaghan, o filme conta a história do doutor John Dolittle (Robert Downey Jr.) a partir do momento em que se isola da sociedade em sua imensa propriedade após Lily Dolittle (Kasia Smutniak), sua amada esposa, morrer em um naufrágio em meio a uma grande aventura que tentara realizar. Deprimido e somente com seus amigos do reino animal como companhia, Dolitte acaba tendo sua reclusão interrompida pelo aparecimento repentino de Tommy Stubbins (Harry Collet) e Lady Rose (Carmel Laniado). Os problemas, tanto do protagonista quanto da obra, começam aí.

Antes de descobrirmos como é a vida do prestigiado médico dentro de sua fortaleza, acompanhamos os acontecimentos sob a ótica de Stubbins, com ele descobrindo o local da moradia de Dolittle a partir da ajuda de Poly (Emma Thompson). Ou seja, personagem e plateia passam pelo deslumbramento ao conhecer aquele mundo particular ao mesmo tempo. É, então, que a velocidade aparece para atrapalhar tudo.

Conforme desbrava o imenso jardim do terreno em direção a casa de Dolittle, o jovem, que também demonstra grande apreço pelos animais, cruza com alguns dos companheiros de nosso protagonista até ficar preso em uma armadilha e… Lady Rose simplesmente se materializa no local. Questionando o invasor e alegando possuir assuntos urgentes para tratar com o médico, a personagem parece conseguir transitar sem grandes dificuldades pela casa, já que, como descobrimos em seguida, adentrou a área com uma carruagem de quatro cavalos guiada por um cocheiro. O espaço, apresentado na primeira cena como o local onde Dolittle se isolou completamente da sociedade e ninguém mais conseguiu contato com ele, é facilmente visitada por dois adolescentes, cavalos e meios de transporte.

Tudo isso acontece em questão de alguns poucos minutos, causando, além de dúvidas, bastante confusão. O ermitão, que era intransigente sobre voltar ao convívio social, facilmente muda de opinião e o vemos atendendo ao pedido de Lady Rose para visitar a rainha Victoria (Jessie Buckley), que está gravemente doente.

Os acontecimentos vêm à tona como uma bola de neve que mal nos deixa pensar se o que está sendo apresentado tem coerência e segue uma linha lógica. Além de não explorar o aparentemente bastante interessante universo particular do doutor, tudo o que nos é apresentado de uma forma muda em questão de minutos, dando a impressão que a direção queria passar de uma vez pelo primeiro terço do longa para investir na aventura. Curiosamente, essa é a parte mais interessante da obra, onde conseguimos notar alguma consistência narrativa.

Com a rainha muito perto da morte, Dolittle, Stubbins e toda sua trupe animalesca precisam encontrar o fruto da Árvore do Éden (sim, totalmente bíblico) para salvar a realeza e partem de navio em busca da salvação. Lady Rose, nesse momento, acaba escanteada e reaparece, de fato, somente ao final da fita, nos fazendo pensar por qual razão teve tanto destaque no início do filme. Confusões e mais confusões.

De positivo podemos nos apegar na construção das diversas personagens. Ainda que não seja algo extremamente complexo, profundo e cheio de camadas, as personalidades são, de um modo geral, satisfatoriamente definidas e nos importamos com o bem estar de, pelo menos, os principais animais. As atuações de Robert Downey Jr. e Michael Sheen, como o doutor Blair Müdfly, também são positivas, ainda que não sejam nada de espetacular e único.

Mesmo com um elenco recheado de grandes nomes (Antonio Banderas, Octavia Spencer, Rami Malek, Selena Gomez, John Cena, Marion Cotillard, Ralph Fiennes e Tom Holland também estão presentes no filme), Dolittle tropeça nas próprias pernas por não saber dosar a velocidade e a quantidade de informação que pretende passar, entrando em contradição em diversos momentos. Some isso a uma computação gráfica deplorável em boa parte da projeção e temos como resultado uma comédia que, no máximo, arranca algumas risadas isoladas dos espectadores. Pelo elenco presente, deveria entregar muito mais.

Dolittle — China, Estados Unidos, Reino Unido, 2020
Direção: Stephen Gaghan
Roteiro: Stephen Gaghan, Dan Gregor, Doug Mand, Chris McKay
Elenco: Robert Downey Jr., Harry Collet, Carmel Laniado, Kasia Smutniak, Emma Thompson, Jessie Buckley, Michael Sheen, Antonio Banderas, Octavia Spencer, Rami Malek, Selena Gomez, John Cena, Marion Cotillard, Ralph Fiennes, Tom Holland
Duração: 101 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.